segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Quando acordo

Antes de tudo: vocês repararam que estamos de cara nova? Gostaram? Detestaram? Não tinham nem notado? Alguma crítica ou sugestão?


Se houvesse um banco de praça pra nós. Uma antiga estação. Ou cartas em papel de seda. Bilhetes em embrulho de pão. Ou uma esquina. Se. Se houvesse uma palavra, ainda. Ou duas. Se ainda fosse noite, é isso. Se ainda fosse noite e eu não tivesse dormido enquanto tua mão se desenlaçava da minha e nossas linhas se desenroscavam em paralelas. Se fosse tempo ou espaço. Eu diria, então, querendo fazer as palavras mergulharem em seus olhos, que você não tem conta aberta aqui. Que eu não faço contabilidade de bem querer. Que você não me deve nada. Que eu nunca quis mais que um querer. Enquanto é bela palavra. Devia ser verbo, porque a conjugo. 

Se - banco, estação, papel de carta, esquina, embrulho de pão - eu diria: eu só fiz te querer, tão mal, tanto bem. Se – noite, tempo, mãos, linhas – eu diria, como quem vela: eu só fiz te querer. E, tateando a impossível compreensão, eu prolongaria o mergulho, as palavras ofegantes, pra te dizer que eu descobri, desde antes de saber que isso era de se descobrir e não uma certeza de bolso, que somos absolutamente sozinhos. E que o seu partir é só um lembrete da minha angústia e não a razão dela. Eu diria que se faço drama é porque não sei fazer poesia e que nem um nem outro deviam lhe chegar como uma cobrança, mas como uma tentativa de humanidade. Se me cortar a pele, eu sangro, mas é o sangue quem sempre esteve aqui, não a ferida. E é ele, sangue, que ainda estará quando tudo for memória e cicatriz. Esse é um segredo que quem sabe as alegrias preserva: o tempo é o espaço.

Se houvesse uma esquina, estações, praças, bilhetes e papéis de carta, eu te contaria histórias de mim. Diria, talvez, sobre quando acordo. Quando acordo é morno. É fácil. Quando acordo há tempo e promessas e belezas. Quando acordo é tempo e espaço pra ti. Pra quem chegar. Se houvesse banco de pão, embrulho de seda ou papel de praça eu tomaria o lugar das minhas palavras e mergulharia em seus olhos, só pra de lá arrancar o meu reflexo que tem o teu reflexo no meu olhar. Mas acordo e sei que já não há nem pão, nem banco, nem seda ou trens. Acordo e sei que já não sei em qual esquina você anda. Esse é o segredo que quem sabe a dor lamenta: sem espaço não há tempo. Acordo com um gosto esquisito na boca: sabor tarde demais.

(texto reconstruído para o Caderno de Notas, daqui: Morreu Maria Preá)




7 comentários:

Iara disse...

Gostei demais do texto, e da cara nova do blog. Tudo tão lírico e lindo quanto você. <3

Tina Lopes disse...

Adorei a cara do blog, muito. Ficou leve, ficou Portugal. Agora, sobre o texto, na verdade sobre você: é uma das duas pessoas que conheço que têm um fôlego inacreditável para a escrita - acompanhado de qualidade, porque uma coisa sem a outra vira constrangimento. E você pega as palavras, quase diariamente, os sentimentos, torce, revira, recria, de uma forma que, aí sim, me tira o fôlego. Alguns textos seus me são mais importantes que outros, mas não saberia citá-los: são textos da Luciana, são você inteira. Acho incrível conseguir isso, ser o que se escreve. <3

Tatiana Kielberman disse...

Às vezes, parece-nos ser tarde, mas talvez este seja justamente o momento certo.

E, em minha humilde opinião, sempre há tempo quando o assunto são as sentimentalidades...

Lindo! Amei o novo visual do blog!

Beijos, querida!

Rita disse...

Lu, o blog tá lindo.
Muito, muito lindo. Parabéns!!

<3

Rita disse...

E, uau, o texto.

Welber disse...

Passei pela estação, você não estava mais. Fui até a praça "com grandes propósitos", mas já havia partido de lá, também. Estou aqui nesse café da esquina ente a rua torta e a alameda das flores. Aguardo?

Ingrid disse...

lindo visual sim.. amei, tranquilo..
e o texto me sensibilizou..
li e reli lentamente..
beijos..

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