segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Noites Brancas

 Com um movimento amplo, desdobra o lençol e sorri, com o canto da boca, ao sentir o cheiro de recém-lavado. Lavanda. É um conjunto novo, esse que estica bem sobre o colchão. Nele não se deitaram amigos de passagem, amantes, nem mesmo o filho doente ou dengoso. Roupa de cama sem passado para uma de suas noites brancas. Sorri de novo, um sorriso mais amplo, um pouco impróprio, sabe que as suas noites brancas são tão, mas tão diferentes das consagradas por Dostoievski, que sempre se espanta de nunca ter aparecido alguém pra lhe censurar o uso insensato do termo. Mas isso provavelmente é porque, tal como os lençóis, nunca partilhou sua piada interna com ninguém.  Cama arrumada, acende as velas, liga o aquecedor. Gosta de ser um clichê. Lembra sempre que é questão de saúde poder rir, de vez em quando, de si mesma. Velas, então, mas sem cheiro. Apenas a luz suave a iluminar o percurso dos fantasmas que logo chegarão, convidados ou não, sempre chegam em noites assim. Faz o café com leite e canela, deixa o morno fazer festa na ponta da língua. Café antes de deitar? Nunca pôde culpar bebida nenhuma pela falta de sono. Sempre dormiu fácil e desavergonhadamente. Mais ou menos como vive. 


A não ser quando. Sim, nas noites brancas. Já que não é possível evitar, aprendeu a saudá-las. Conforta-se como pode: lençóis macios, café com canela, vela, o que for. Nada basta, a moça sabe, mas insiste nos pequenos carinhos porque, nas noites brancas, ela chega. Por um tempo imaginou-a visita, talvez hóspede. Mas, hoje, reconhece que é parte da estrutura. Ela habita o sótão, arrasta correntes, recebe bandejas de comida à porta sempre ensombreada e, vez ou outra, quando lhe faz falta espelhos ou espaço, a angústia desce a escada e põe-se a percorrer a casa com suas vestes de um branco amarelado de não ver luz. A angústia desfruta de poucas companhias, mas aprecia, ainda que vagamente, a saudade, a dor e a nostalgia, por isso ela, a moça dos lençóis que cheiram a lavanda, abre espaços pra todas. A angústia se abanca na varanda e fica a espiar, pelos olhos da moça que acende velas, o mundo. Com suas unhas enormes arranha a madeira da cadeira em que lentamente se balança e a moça do café com canela tem arrepios de gastura. A angústia ocupa os espaços da casa. Ela empurra tudo pra fora e tudo arde em lágrimas. Não é dona da casa, ou ainda, não é a única dona da casa, mas quando desce do sótão, não há quem lhe lembre disso e ela age como se fosse. É de uma força que rouba a da moça e seu aquecedor inútil. A angústia cresce em espasmos do que não se pode. A garganta fecha em desejos de nada dizer. A moça fez sua lista de coisas boas e quase escuta, ao longe, uma noviça rebelde ao longe: pensar em coisas boas, pensar em coisas alegres, ela sempre tenta: bigodes de gatos, neve...mas ela não conhece a neve e nunca teve bichos, a angústia zomba, riem alto a saudade, a dor e a nostalgia, mais alto do que a boa educação permitiriam, mas não faz mal, elas quase nunca tem distrações. A noviça rebelde da moça quase sempre se torna névoa. É o de sempre: a vista embaça e o amargo trava o sabor de viver. Sobreviver a uma noite branca é para quem se entrega. Para quem aceita que cinza também faz parte do jogo de cores. A angústia há de cansar de percorrer os cômodos, de apagar luzes, de fechar portas, baxiar persianas, espalhar sombras. Com seu andar lento, ela volta ao sótão repleto de impossibilidades empilhadas, objetos perdidos, demências e ferocidades. É quase dia e a moça escuta a angústia que se tranca em três voltas de chave. Suspira, apaga as velas, abre a janela, deixa o sol fazer desenhos na pele e segue, entre risos, até o próximo aviso de uma noite branca.

5 comentários:

Tatiana Kielberman disse...

Lindo, sensível e delicado...

É uma honra fazer parte deste projeto junto a você!

Beijos!

Ingrid disse...

escrito na alma..
sentido..
amei!
beijos..

Lunna disse...

Resolvi ler todos os textos quando todos já estivessem no ar para poder saborear o tema de uma só vez e, claro, comecei por aqui. A ler-te, meio que senti como se tivesse olhado um pouco para seu texto antes de escrever o meu que fala de uma noite em branco, mas aquela noite em que a palavra parece indócil e, de repente se estabelece como se fosse uma luz a tecer o caminho. A luz de uma vela talvez.
Você te essa narrativa que me faz sempre respirar fundo e imaginar essa personagem que se encontra nas entrelinhas. Nunca sei se de fato és tu ou outro alguém. Sei apenas que é uma figura branca, como a noite as escuras iluminadas por uma fagulha de luz.

bacio

ANA CLAUDIA MARQUES disse...

Voltei para ler este, depois de ter lido o texto da segunda semana... voltei para esta tua noite branca porque também tenho angústias que me arranham a madeira... mas é da mesa antiga em que me debruço...

Ana

Fortalezajb Iluminada disse...

Ótimo post!
Venha nos visitar:
http://meumundorosapynk.blogspot.com.br/
Beijocas

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