quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Água

Está começando aquele período em que o banho oferece duas sensações absolutamente contraditórias: o júbilo e satisfação quando a água quente envolve todo o corpo e aquele desespero pelo intervalo entre desligar o chuveiro e se embrulhar o mais rápido possível.

Eu ia reclamar da chuva, das roupas que não secam, dos passeios que se tornam mais escassos, da operação delicada que é voltar do supermercado equilibrando sacolas e a sombrinha... aí ouvi a chuva batucando na janela e me senti nordestina. Cearense. E o “bonito pra mim é céu cinzento com clarão entoando o seu refrão”. Quando chove, o mormaço tem cheiro de alegria. Quando chove é promessa, rompem-se diques e medos. Chove e umedece terra e peito, fica tudo pronto pro novo. E o meu guarda-chuva é vermelho.

Mas, devo confessar, morro de preguiça de colocar roupa e sair de casa.



Projeto de vida: atravessar o mar e atracar no teu peito.


Eu só quero acreditar que é possível: um sono, um sonho, um tempo a mais. Quero todas as manhãs. Quero o anoitecer no seu colo. Quero fechar os olhos. Descansar. Quero fazer, da coragem, permanência. Quero abrir estradas. Deixar-te desbravar meu território. Quero aceitar. Arrumar as perguntas em gavetas, daquelas de escrivaninhas antigas, com chaves pesadas e antigas. Eu quero, mas deixo uma muda de roupa na sacola de viagem ao lado da porta.


Um comentário:

Rita disse...

Eu reconheço esse calorzinho que vem com a chuva, me lembro de como eu a recebia com alegria na infância. Via de regra, a chuva eh reencontro. Louca.

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