domingo, 13 de outubro de 2013

A Vida Não é Filme... *

Uma das coisas mais belas (e mais tristes, porque o sublime não se acanha e passeia no êxtase e no desespero, mas divago) nos filmes (e nos livros) é que a história pode acabar – e acaba – a qualquer momento. Uma história pode acabar - e acaba - naquele momento (im) preciso e arbitrário em que o autor, o roteirista, o diretor, enfim, alguém decide que tá bom, já deu, era isso mesmo.

Às vezes, na vida “real”, eu queria que isso pudesse ser feito. Que a gente decidisse: tá bonito, vamos ficando por aqui. Por exemplo, Portugal. Eu acho que Portugal podia ter encerrado a história ali, naquele abril, com seus capitães. Depois, bom, depois podia ter mudado de nome, documentos novos, história do zero e vamos ver o que é que dá.


Deixa eu ver se consigo explicar: ontem assisti o filme Capitães de Abril e é tão bonito e ingênuo e corajoso que alguém tenha sonhado o que foi sonhado, que alguém tenha dito o que foi dito, que alguém tenha feito o que foi feito... derrubar um regime sem violência, acreditar que é possível ouvir quem nunca foi ouvido, e a maior lindeza de todas: todas aquelas pessoas na rua com as palavras de ordem mais deliciosas: “homens na cozinha”, “liberdade sexual” e por aí vai.

O filme tem altos e baixos, a direção é um pouco imatura e o roteiro não é tão consistente, mas na hora em que lá estamos, tocados por aquele momento, não importa muito. E, na verdade, não é da qualidade do filme que eu queria falar. É do conteúdo. Daquele instante. Daqueles dias. Daquela lindo, comovente, emocionante momento. Da euforia. Diz o senso comum que Paris é uma festa – e eu não estou desmerecendo. Mas poucos momentos na história e no mundo foram mais embriagantes e efusivos que a Revolução dos Cravos.

Então, eu estava ali, soluçando feito uma criança e pensando: bem que podia ter parado por ali. Pensei que seria legal ser impossível responder a quem perguntasse: e depois, o que aconteceu com o Capitão Maia? E como vai Portugal hoje? E o políticos? E a liberdade sexual? E? e? e nada, gente, acabou, não estão vendo os créditos? Como aqueles filmes que deixam sabor de quero mais, Portugal ficaria ali, no imaginário, como inspiração, como horizonte, ensinando que é possível ser realmente bom.

E a vida que segue? seguiria, claro. Com outro nome, em ouro bairro, como em outros filmes: os americanos -tão pragmáticos, tão resolutivos - Portugal devia ter entrado no programa de proteção a testemunhas depois do 25 de Abril, acho eu. 

(eu comprei o dvd, mas quem não tiver paciência pra esperar que eu empreste e quiser ver o filme todinho, é só apertar aí)


* eu exagero, tá gente, nem eu acredito exatamente nisso...

4 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Lógico que eu vou ver, até porque acho o máximo ela se chamar Revolução dos Cravos.
"Portugal devia ter entrado no programa de proteção a testemunhas depois do 25 de Abril, acho eu." amei isso.
bjs
Jussara

Rita disse...

Pare de aumentar minha lista, Lu. Just pare.

Allan Robert P. J. disse...

Noutro dia vi uma entrevista da senhora que - sem querer - deu o nome à revolução.

Bem que a poesia poderia surpreender a vida mais vezes.

:)

Lunna Guedes disse...

Gosto disso, de poder acabar - como nos livros e nos filmes. E continuar, dizendo os personagens de outra maneira, mas sabendo suas histórias finalizadas e ponto final. Gosto disso.
bacio

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