sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Elegância

Então, dói. Um quase nada, o vazio que lateja. Dói, mesmo que alguém segure minha mão, mesmo que toque o telefone, mesmo que seja tanto azul quando o olho se perde no horizonte, mesmo que haja café e grandes colheradas de sopa. Dói mesmo que a roupa seja macia, a bebida seja gelada, os abraços sejam constantes, mesmo que acorde cada vez mais tarde. Dói mesmo que as lamparinas estejam acesas, as flores balancem nas varandas e o mar cante, baixinho, um acalanto. >Doer é frio. Como se nunca mais fosse tarde, fosse riso, nunca mais fosse sol, nunca o morno. Só o tempo gemendo feito vento em longos corredores. Nunca é tempo demasiado. Porque eu ainda espero tua risada, os fins de semana, os solos de violão. Ainda espero acordar e ver teu rosto tão perto, tão sério, só me olhando dormir. Ainda espero que você termine todas as frases que começou. Ainda procuro teu corpo no meu corpo vazio, teu abraço nas festas de Ano Novo, tua voz nas mesas de bar. Ainda estendo a mão pro outro lado da cama. E dói. Então eu me encolho e percebo que sou tão miúda mesmo. É isso: sua ausência me faz pequena. Faz tudo ficar menor: os amanhãs, os sonhos, os encontros, as festas. Só as memórias ficam enormes. Você lembra? era o que eu queria dizer agora e aí riríamos e as lembranças seriam em lista: aquele dia, aquela hora, aquela música, aquele medo, aquele encontro. Mas digo: tudo bem. Digo pra mim mesma, enquanto faço uma canja e me embalo, sentada no chão da cozinha, sussurrando uma canção antiga, esperando o esquentar do espaço, do peito, dos sonhos. Eu minto pra mim mesma: vai ficar tudo bem e a dor doendo. Não vai, não vai ficar tudo bem, você não está mais e dói. Mas alguma coisa ficará bem. Um dia. Que não é hoje, hoje dói.



Eu lembro: os encontros, os risos, as certezas. Lembro a promessa. As vontades de amanhã. Lembro o conforto de saber: eu, você. Eu lembro em sépia, em fragmentos, recortes de tempo, pedaços de história. Memórias manchadas de saudade. Lembro em dor. Em vazio. Em engasgo. Lembro em vitrine borrada de chuva. Lembro em quereres. Em vida que segue. Eu sei ser sem você. Mas não queria. Disse Leminski: um homem com uma dor é muito mais elegante. Sinto-me em traje de gala.

3 comentários:

Fernando Amaral disse...

Caçarola, borboleta. Que trem doído de bonito...

"Ainda espero que você termine todas as frases que começou."

Este é um querer tão saudade...

Shuzy disse...

Doem as lembranças... Dói a vontade de relembrar junto de alguém. Compartilho do traje de gala. Hoje. Sempre.

Lidiane Andrade disse...

Aí, ler isso e me identificar com o amor que ficou na outra cidade, na outra vida, no outro começo... Naquele começo que já acabou...
Já nunca para de doer, mas quando a gente lembra, dói ainda mais.

"A saudade é como um barco que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais"

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