terça-feira, 3 de setembro de 2013

Decifra-me

Aquele momento em que você percebe que as pessoas te sabem tanto que não dá pra falar por enigmas.

Acordar ao teu lado. Estender a mão, um tanto desejo, outro tanto memória.  De olhos semicerrados, reinventar tudo: cheiros, pelos, pintas, textura, manchas, curvas, dobras, excessos e faltas. Repetir até saber teu corpo na ponta da língua. Sem pressa, deixar que o sol chegue junto com o desejo, morno, manso, indeciso quanto a pertinência de já se fazer presença. Roçar pele com pele, quase brincadeira, o riso diminui a cama, te contei?

Montanha-russa de emoções? trabalhamos.

E nunca mais vamos falar que não somos racistas, combinado? Lê aqui, lê. 

* * * * *

Aí tem aquele moço (ou moça, mas aqui, pra efeitos de estilo – e, também de valores na cultura - vou ficar no moço) a quem a gente quer bem. E a gente gosta mesmo sabendo que ele fica meio mal-humorado de manhã, que ele explode fácil nos dias em que o time perde, que ele tem aquela mágoa antiga do tio eu ele não perdoa nunca – e que você acha uma besteira, mas, né, é ele, é dele. A gente gosta, claro, dele ser carinhoso, de sempre lembrar de perguntar pelas pessoas queridas, de ter um jeito de elogiar que faz você sempre se sentir interessante, especial. A gente gosta do bom e lida com o mas.  Às vezes, até gosta do mas. O que eu não entendo é porque a gente não estende esse olhar generoso e meio condescendente pro corpo. De gostar do bom e lidar com o mas. A gente gostar da perna torneada e lidar com a barriga. A gente gostar do riso de canto de boca e lidar com as manchas na mão. A gente gostar do queixo firme e lidar com a unha encravada. A gente lidar com o mas, às vezes até gostar. E, ainda mais, não entendo porque a gente não espera esse olhar generoso e meio condescendente sobre nosso corpo também. Porque nos exigimos tudo: a barriga negativa, os dentes retos, os cabelos sedosos, as pernas malhadas e depiladas, as unhas pintadas, só o bom, sem mas, sem respiro, sem espaço para as imperfeições que nos fazem únicos, peculiares (quem viu o Homem Bicentenário e lembra do moço “moldando” um rosto para Andrew e falando disso?). E essa exigência, muitas vezes, acaba “apagando” a diferença, o inusitado, a singularidade dos corpos. E se nós somos o nosso corpo (embora não só ele) e nesse processo de homogeneizar corpos, de alguma forma, penso eu, dolorosamente abrimos mão de nós mesmos. Então, vou gostando do bom e lidando com o mas, dos corpos todos, alheios e meu. E, de vez em quando, até gostando.

* * * * *

Deixar de esperar que você siga as pistas, as letras, as dicas. Não tentar acertar o dia, a hora apropriada, a palavra mais certa. Entre o que não se pode e o que não se deve dizer, escolher permanecer em silêncio. Aprender a dúvida, o medo, aprender a hesitar. Desconfiar do sentir, do querer. Sair da conversa. Fechar a caixinha. Eu nunca gostei de pontes. 


 Uma das coisas que eu gosto em cozinhar é poder fazer o basicão de um jeito meu. Porque, vamos combinar, sopa é algo que todo mundo faz desde que o cão era menino. Mas a minha, com esse cheiro, sabor, consistência, ah, bom, só essa e nem eu sei repetir (e quem me conhece de muito tempo sabe que esse parágrafo é estranho, eu sempre repudiei sopas, nunca gostei nem tomei nem pra fazer favor, mas depois que conheci o tal processador minha vida mudou). A bola da vez foi feita assim: no refogado inicial, azeite no capricho, cebola, alho e alho-poró. Quando tudo está quase translúcido e molinho, juntei um pouco de vinho verde e acrescentei, cortadinhas, abóbora e cenoura. Coloquei água quente até cobrir, temperei com o que me pareceu legal – páprica, salsa e pimenta do reino – e coloquei folhas de espinafre. Ah, e um pedaço de chouriço. Deixei o cheiro tomar conta da casa e tudo cozinhas até quase desmanchar. Depois, o amigo processador trabalhou. Na hora de comer, coloquei uns cogumelos Portobello refogados e queijo ralado na hora.




Ontem vi que foi publicado, na revista Gestão & Sociedade, um texto que escrevemos, eu e as amigas do grupo de pesquisa, sobre as representações que um grupo de estudantes de Administração associa a uma das dimensões estruturantes de sua formação – qual seja, a dimensão “trabalho”. Fiquei bem contente e gabola, até porque estou tão enrolada pra dar prosseguimento na tese que pode até ser o último.

3 comentários:

Iara disse...

Vou ter que imitar essa sopa. E vai ser o último nada, você logo desenrola, que a gente sabe. ;)

Palavras Vagabundas disse...

Queria tomar essa sopa com você acompanhada e um copo de vinho e colocar o papo em dia.
bjs
Jussara

Debby disse...

Perfeito o teu texto

Amei, amei
parabéns

Debby :)

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