quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Meia Palavra




É de comover:

 Uma criança mamando. A entrega absoluta, a mãozinha agarrando o dedo da mãe, os olhos semicerrados.

Dormir de mãos dadas. Não é o sexo, disse Kundera, é o sono compartilhado que é o corpo de delito do amor. 

Chuva. A terra do meu sertão tão ávida de vida sugando gota a gota. Ou o cheiro de mormaço do asfalto molhado. A grama molhada, as cores mais nítidas depois de lavado o tempo.

Aquele momento, nos filmes de luta, esporte ou guerra, em que vitórias ou derrotas não são mais importantes do que como acontecem.

A voz de Ella, ecoando onde, no peito, a angústia sonha ser esperança.

Estações. Antigas estações de trem, não importa quão modernas sejam, porque antigas são as dores de escolher partir ou ficar, antigas são as alegrias de chegar, antigos são os desencontros. Estações. Que podem ser cais ou aeroportos, desde que se vislumbre, como por um véu rasgado, os lenços acenados em preto e branco.

Cartas sem envelope. Fotografias antigas sem legenda ou anotação. Um recorte de vida, de dia, de desejos, sem dono ou destino. Passado.

A solidão absoluta de alguém sozinho na praça, sem livro, amigo ou espera. Simplesmente lá, olhos parados no nada. Ou à beira-mar. Os olhos repletos de sal. Dói.

Cheiro de cozinha. Fogão à lenha. Cebola refogada. 

Os bons inícios, que nos pegam a mão e não a soltam nem soltamos os livros... Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.


3 comentários:

Fernando Amaral disse...

Porque os improváveis são tão bonitos.

Rita disse...

<3 - cebola refogada e Cem Anos.

Palavras Vagabundas disse...

Cem Anos de Solidão, sempre!
bjs
Jussara

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