segunda-feira, 5 de agosto de 2013

E dessa vez não é a de Bizet

Quando eu era pequena e faceira, brincava de Carmen Miranda. Não que eu me lembre de muita coisa, conto isso de esparsas memórias e relatos maternos. Depois, reencontrei-a nas madrugadas, quando o cinema hollywoodiano ocupava as madrugadas da Globo. Dos dois momentos, guardo a sensação de alegria, prazer, uma insinuação de que o melhor tá aí e chegando mais. Eu vejo Carmen Miranda (em foto, em filme, em voz) e me dá vontade de sorrir, rebolar, cantarolar.

Não vou fazer mini biografia, tem muito, muito lugar pra você saber mais sobre ela. E tem, claro, o livro do Ruy Castro, que se não for o melhor escritor de biografias que temos (o Lira Neto é bem bom) é o que melhor escolhe seus biografados. Quando penso em Carmen Miranda, meu lance mesmo são os balangandãs.



Eu olhava Carmen e via balangandãs e liberdade. Não ter medo do ridículo, de si mesma, do mundo. Ir. Dona de si - e não hoje, quando, ainda tão difícil, já se discute igualdade, feminismo, sexismo com relativa fluência. Dona de si quando o costume, o correto, o esperado, era a mulher ser de alguém, nem que fosse “ser mulher da vida”. Como mulher do seu tempo, tinha lá suas limitações, nunca se divorciou por conta do catolicismo arraigado, por exemplo. Mas era avançada em muitos e vários aspectos. Fumava, e não era pouco. Usava calças compridas (sim, em certa época isso foi tabu, vejam vocês). E, ah, biscatinha fofa, deu a declaração que eu podia pôr de epígrafe: "Não gosto da palavra trepar, mas que é uma delícia, lá isso é".

Multicolorida, carnavalizada, uma brasilidade estilizada e sexualizada, exótica, vibrante, extravagante, ela me hipnotiza(va). Um quadril que não se dava ao respeito, né.  Cantava com os olhos, quase. E as mãos, ah, as mãos. Disse a Vogue americana que suas mãos eram como “borboletas sedutoras” (pois é, eu milito me causa própria) e eu assino. Ela cantou “eu fiz tudo pra você gostar de mim”, mas, de verdade, nem precisava fazer nada. Bastava ser.

Eu não sei a sua Carmen, mas a minha tem um matreiro jeito de ser atemporal e romper bandeiras geográficas. Uma verdadeira falsa baiana, uma portuguesa que se tornou a brasileira mais conhecida do mundo por muito tempo, uma cantora que fez sucesso como atriz, uma estrala americana cantando samba em português, uma mulher, uma beleza que me aconteceu. Inventiva e forte, soube ser ela e mais além. Dolorida, vulnerável, sabia sacudir a poeira e dar a volta por cima. Um dos mais bonitos, quentes e melhores brasis.


Hoje faz 58 anos que ela morreu, é o que dizem os documentos. Eu sacudo os ombros, pego umas bananas e nem discuto. Morreu nada. Cada gargalhada que dou ou escuto, eu sei, tem Miranda nela. 

Um comentário:

Palavras Vagabundas disse...

Amei o texto e gosto da biografia do Ruy Castro!
Bananas e balangandãns é tudo.
bjs
Jussara

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