terça-feira, 2 de julho de 2013

Des-Qualificada

Obrigada a vocês, que me apoiam, me acolhem, me incentivam. Obrigada.
Obrigada, Deborah, pelo conversê que empurra.
Obrigada, Babi, por ler e ler e ler. 
E obrigada, Iara, por ler e ler e ler e ainda ensaiar.
Obrigada, Lunna, pela revisão.
Obrigada, Bete. Tanto, tanto, tanto.
E obrigada, feiosa, por estar aí.

Escrever é solitário. E, ao mesmo tempo, é uma algazarra. Já pensou no tanto de gente envolvida quando a gente simplesmente pega num lápis ou toca numa tecla do computador? O mundão de gente? Todas as pessoas envolvidas na criação dessa tecnologia (ou você acha que pegar no lápis assim como a gente pega  é um dado natural?), depois todas as pessoas que aprenderam, aprimoraram, transmitiram tal tecnologia até chegar bem aqui. Sem falar nas que construíram e constroem os instrumentos mediadores. Todos os trabalhadores das fábricas de lápis, de canetas, de papel, das madereiras, das indústrias de notebooks…



E não só, tem aquelas pessoas envolvidas diretamente na nossa – na minha - aprendizagem da escrita: pais, professores, coleguinhas, Daniel Azulay, escritores… E a linguagem? Ela só existe encarnada, não é? Em pessoas. Pessoas que a construíram, remodelaram, usaram, abusaram. Cada palavra que escrevemos – que escrevo – passou de língua em língua, de letra em letra. Todo esse povo envolvido no que chamamos de trabalho solitário. E nem falo (já falando) de que nosso tempo, nosso lugar, nossa classe social, nosso entorno ajuda a moldar sobre e o que escrevemos. Uma multidão.

Não diria que isso se acentua na escrita acadêmica, mas certamente ganha nuances específicas. Não só tem todo esse povo envolvido, como o estilo demanda que nós chamemos outros para falar em nosso lugar ou com a gente. Seja em forma de citações, orientação, debates em congressos, avaliação em revistas, o certo é que o dito se modifica no processo.

Solitário, pero no mucho.



E, ao mesmo tempo, ah, aquela procura da palavra exata. A busca da forma certa de estruturar um parágrafo. A noite inteira atrás da ligação mais redonda entre um capítulo e outro. A nossa – de cada um – escolha de palavras, de formas, as interpretações, os nexos, as construções. Únicas. Peculiares. Particulares. Aquela alegria de ler uma página que diz com precisão (no momento, no momento) o que queríamos dizer. O sofrimento inquieto de não “fechar” uma ideia. O medo de não ser entendido, de não dizer o que é preciso, de não atingir o que se espera. A solidão das escolhas. A angústia do não todo. As incertezas. A sensação de agora vai. Tudo ao mesmo tempo em que a vida ainda corre e as pessoas estão até interessadas no que escrevemos mas não com a entrega, o mergulho, o foco, a energia…o tempo que gastamos nisso.  Isso que é quase nada: um artigo, uma dissertação, uma tese. Isso que é quase tudo: o que podemos dizer. O que queremos dizer. O nome certo pr’aquela hora em que é preciso colocar o ponto final e a gente não sabe se, mas segue: solitária. Escrever é solitário, saber quando parar de escrever é ainda mais.

Entregar o material pra alguém que não sabe e não liga pras nossas noites sem dormir, não sabe e não liga pras nossas intenções. Era legal poder ir num saquinho acoplado ao texto, só pra explicar, se for preciso, o que não ficou tão claro como deveria. Entregar o material pra alguém que é outro. Outro olhar, outras leituras, outras demandas. Ficamos, eu fico, ainda mais só.

Um artigo, uma dissertação, uma tese, nossa escrita encarnada, cristalizada. Solitariamente escrevemos. Essa solidão de ser parte. Contradição mais bonita e dolorida.

E a seguir, os outros, o mundo, mais gente. O salto pro colo de alguém: terminei! Os abraços: terminei! As leituras, as congratulações, as críticas: terminei! O vinho verde no brinde. O solitário se reconstruindo no coletivo. É no Outro, no olhar do Outro que se faz o sentido.

Hoje foi a qualificação do meu projeto. Escrevi-o sozinha, é verdade. Escrevi-o sozinha, é mentira: foi escrito em multidão. Uma multidão de antes e depois e durantes. Um monte de gente que se fez texto. Que estava, às vezes sem saber, do meu lado nas madrugadas difíceis em que as palavras se rebelavam e se negavam a fazer sentido. Um monte de gente que se fez páginas, conhecidos e desconhecidos, gente da área, gente das outras zonas, gente viva, gente letra.

Hoje foi a qualificação do meu projeto e, pra ser honesta, ainda nem estou alegre. Estou aliviada. Aquele peso imenso, nos ombros, nos sonhos, foi dar uma voltinha. Ficarei alegre amanhã, eu sei. Foi um passo. Ainda desconheço o tamanho, mas sei que foi na direção que eu queria.



PS. esse texto está, quase todo, também aqui: Vício Solitário. Foi escrito para querida Marília. 

9 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Só posso dizer que entendo o lado solitário da escrita!
Parabéns pela qualificação.
bjs
Jussara

Caminhante disse...

Me identifiquei totalmente com o texto. Parabéns pela qualificação! (e amei a tirinha)

iaiá disse...

parabéns, linda, te admiro muito. bj

Bárbara Lopes disse...

Eu continuo lendo <3

Iara disse...

Eu também, eu também! <3

Anônimo disse...

oi Borboleta,
que texto, amei.
beijinhos
madoka

Rita disse...

Que amooooor de post. Oin.

Debby disse...

Olá

Eu já ia te elogiar pela intensidade do texto, a profundidade de sentimentos em cada linha.
Perfeito!

Escrever é realmente um ato muito, muito solitário. Tiro por mim, que extravaso mesmo em meu blog.

Adorei , já te seguindo
Bjs
Debby :)

Adriano Mello disse...

Olá amigo, gostaria de saber se estaria aberto a uma parceria de troca de links entre nossos blogs, vou ser sincero, meu blog ainda não possui muitas visitas, porém peço que dê uma olhadinha e analize o pedido com carinho.

Desde já agradeço pela atenção!

http://lisosomos.blogspot.com.br/

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