quinta-feira, 25 de julho de 2013

A Tua Presença é Negra, Negra, Negra

Hoje, 25 de julho, é aniversário do meu irmão. A gente chama ele de negão. Hoje, 25 de julho, é, também, o Dia da Mulher Afro-Latina-Americana e Caribenha. Pela confluência dos temas, pensei em fazer um post resgate da nossa ascendência negra. Mas, olha, que coisa complicada. E é por ser tão difícil terminar esse post que eu sei o quanto ele é necessário. É por ser tão difícil desenvolver esse post que eu vou descobrindo o tanto que se silencia.

Meu pai é negro, minha mãe é branca, eu cresci pensando assim, sabendo assim, um fato, não uma questão. 


A família do meu pai é grande, carinhosa, barulhenta, animada e morava, quase toda, pertinho. A família da minha mãe é carinhosa, gentil, discreta e morava, quase toda, longe. Daí que conversa vai, conversa vem, a gente sempre quis ser mais “parecido” com meu pai (na verdade, com a família dele toda). Eu e minha irmã nos demos bem: éramos as pretinhas da casa; meu irmão e a Liana eram os brancos. Me dizer negra sempre foi irrefletido e passava por isso: ser parecida com os nepomucenos, fazer parte do grupo divertido e interessante. Ser negra era bom, eu achava. Em casa, na rua fechada, em família, na escola, ser negra era ser eu, só isso. Não se falava em alisar cabelo nem nada do tipo, se falava em riso solto, em abraço morno, em sabedoria de viver. A gente nunca deixou de dizer negra, preta, especialmente como epíteto de afeto.

Como sempre achei meu pai lindo, ser negra era ser linda. Como eu sempre achei meu pai inteligente, ser negro era ser inteligente. E por aí vai. Por sorte ou insensibilidade, recordo de poucos episódios racistas envolvendo minha família e eles sempre foram partilhados em tom leve, com risos, sem parecer o que são: um problema. Como uma vez que minha tia foi abordada no ônibus porque julgavam que ela estava sequestrando as próprias filhas (ela é negra e as filhas tem a pele bem branca) ou uma vez que a caixa no supermercado explicou várias vezes pro meu pai que azeite era caro e que ele provavelmente não podia comprar tantos vidros quanto ele pretendia. Não parecia doer, porque meu pai contava isso com o sorriso generoso que ele mantém sempre. E eu seguia, menina, inconsequente, sem saber dos nãos que nos acompanham.



Esse jeito debochado e leve de viver a vida que é característica dessa minha família escanteou o que é um a questão cerne na nossa sociedade: o racismo. Como eu sou desligada, nunca fui de me questionar sobre a ascendência. Tanto a família do meu pai como da minha mãe eram do interior do Ceará e sem muita documentação de sua trajetória. Eu conheci, desde cedo, os eventos anedóticos ou traumáticos: de tios assassinados a esposas roubadas (com cumplicidade delas), imagens esparsas que compunham o tecido da minha identidade meio metafórica e surreal. Mas quando quis saber, assim, dado a dado, data a data, foi razoavelmente fácil saber a história da família da minha mãe: os bisavôs irmãos holandeses casados com duas irmãs cearenses e tal e tal. Com pesquisa e persistência, deu pra resgatar alguma história. Fui fazer o mesmo do lado do meu pai: histórias dispersas, poucas lembranças (boas, mas pouquíssimas). Foi aqui que senti o silêncio. Não porque meu pai ou seus tios não quisessem falar sobre nossa negritude. É que eles tinham muito pouco a dizer porque pouco lhes foi dito.

Meu bisavô era filho de escrava. Meu bisavô é de antes dos três oitos (alguém conhecia essa expressão¿) Meu bisavô nasceu liberto pela lei do ventre livre mas sua mãe permaneceu escrava. Não se sabe o nome do pai dele (há suspeitas vagas que era o proprietário das terras onde ele nasceu). Meu bisavô cresceu na casa de outra família já que não podia permanecer com a mãe. Depois de 10 anos de casado minha bisavó (Mãe Bia) ainda tinha que “defender” meu bisavô de pessoas desconhecidas que pensavam que ele estava fugindo com ela (já que ela era “branca”).

Isso é tudo que sei sobre ele relacionado ao “Pai Sal”. Sei outras coisas, lembranças afetivas dos filhos, a narrativa do respeito dos amigos e conhecidos, a saudade dos netos, a descrição de uma pessoa de cnstante bom humor, disposto para o trabalho... mas sobre nossa negritude há um esquecimento, um apagamento, um silêncio que, só agora, me permiti perceber que incomoda.


Eu sempre me disse negra, mas não sabia, não tinha idéia do que isso representava de comprometimento, de militância, de desafios. Eu sempre me disse negra, mas não percebia que a forma positiva de me reconhecer e à minha ascendência negra não era comum. Eu sempre me disse negra, mas não sabia, não tinha idéia que minha bolha era muito, muito privilegiada. 

Hoje, tenho mais reserva em dizer que sou negra não por me envergonhar da minha negritude, mas por perceber o quanto ainda estou distante da militância necessária que decorre dessa afirmação. Mas vou tentando ser melhor, aprender mais, agir mais. Por mim, pelas mulheres negras, pela minha sobrinha, pra que ela não precise da bolha que eu tive pra se saber bonita, interessante, capaz, digna. 


Quer ler post bom sobre o tema? Vai no Blogueiras Negras e no Blogueiras Feministas, vai.  

5 comentários:

Iara disse...

Amei tudo, mas isso você já sabe. Adoro o seu jeito de contar histórias.

Ana Vieira disse...

Tá ficando aborrecido e monótono, mas é sincero: amo muito esse povo.

Liliane disse...

Ler vc é assim:
A gente lê e ama, adora e se emociona. E ai vem comentar e cadê palavras bonitas o suficiente para descrever a viagem linda que vc nos proporciona. Cadê?
E ai só sobra dizer que amei, fazendo coro com quem chegou antes de mim.
E ai o momento de epifania que me faz entender o nome do blog, nada mais adequado.

Anônimo disse...

Se a tua militância é pouca, quem dirá a minha....kkkk
Minha filha e eu temos a sorte de ser desta raça (negra e nepomucênica).
Somos bonitas (pela modéstia de não dizer lindas), inteligentes, capazes, dignas....
Feliz Aniversário, Negão (mais por escolha mesmo....rs)

Anônimo disse...

mas você é negra porque cresceu na cultura negra e como gosta da personalidade do lado do seu pai cresceu se percebendo negra já que era parte da família ou isso foi esclarecido, apontado e refletido na sua vida pela sua cor e traços? porque fisicamente você é bem branca e aparência física é algo pertinente na raça.

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