quarta-feira, 12 de junho de 2013

Se Eu Fosse Marinheiro


Amar é tão solitário, vocês não acham? Aquilo tudo que a gente não sabe dizer, todos aqueles motivos que a gente não consegue elencar (ou não consegue parar de elencar, o que dá no mesmo), o olhar único e intransferível com que vemos nosso objeto amado. E a reciprocidade não muda nada. Porque não amamos em encontros, mas como uma sala de espelhos. Amo um Outro que só eu vejo, sei, sinto, que não está em nenhum outro lugar senão no lugar de objeto amado. E aquele que me ama, também assim sente, que quase me sabe, mas não, e o que ele ama ao me amar é uma eu que só existe como objeto desse amor. O tal amar é dar o que não se tem a alguém que não o deseja... e, suspeito, nem mesmo está onde supomos.



Senti a intensa solidão do amar no Porto. E, novamente, agora, aqui, ao tentar escrever sobre. Como dizer o batucar no peito? O olho encantado? Como dizer o cheiro do rio quase mar o mar quase rio? Os azulejos, os prédios abandonados, as ruas estreitas? As imensas praças, ah, as praças! Como dizer o sabor do Porto? Como posso explicar o sentir? E mesmo que alguém venha e diga, eu também, eu também, eu também amo o Porto!, eu sei, na minha incomunicável solidão, que são cidades diferentes. Que ninguém comeu as minhas cerejas ou sentiu esse desalinho do cabelo na Ribeira.


Se Lisboa é um abraço, o Porto é um sorriso. Às vezes de canto de boca, discreto, uma cidade que é promessa, que é tesouro, que demanda a aventura em seus recantos. Outras vezes sorriso triste, melancólico, daqueles que o olho não acompanha os lábios, ferrugem, abandono, desgaste. Quase sempre sorriso largo, fácil, beleza explícita, jardins, flores e leveza enfileirados. E, em alguns momentos, o Porto se permite gargalhada solta, é Ribeira e água, água, água. Meu Porto é sorriso que encanta, que envolve, que convida, que acolhe.



Meu Porto é em igrejas boas de ver, frutas vermelhas boas de provar, comida barata boa de comer, gente bonita boa de se ouvir. Fui ao dicionário e lá estava: Porto – qualquer lugar de abrigo, refúgio ou descanso. Foi assim que eu vivi os três dias, um intervalo em riso e prazer: o Porto recebeu e cuidou do que é vulnerável em mim, do que é quase. É repousante não pensar no viver, só existir.   


 “Sempre se pode voltar”, dizem. É uma esperança. Porque se o amar é, como disse Vinícius, a vontade de estar perto, se longe e mais perto, se perto, eu preciso de mais, mais francesinha no Piolho, mais teatro São João, mais arcos da Ribeira, mais beira mar, mais jardins do Palácio de Cristal, mais azulejos da estação de São Bento, mais sorrisos, mais som, mais luz brincando na água do Douro. Esse amor, como tudo que é humano, solitário, só me resta vivê-lo. 

3 comentários:

António Eça de Queiroz disse...

Pois..., eu nem disse nada quando vi as fotos no FB... Dá para ver que o meu Porto a tratou bem - e isso é que importa.
Um beijo

Rita disse...

Eu quero.

Allan Robert P. J. disse...

O amor é cego. Dizem. Mas amamos o que vemos, o que vivemos. Seja um Porto, uma outra cidade, um perto mais perto. O amor é um porto.

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