terça-feira, 18 de junho de 2013

Das Solidões


Eu fui. Não fui inocente, não fui desavisada. Fui porque não conseguiria não ir, porque eu precisava participar. Me sentir parte. Nem sempre funciona.

Então, eu fui. Antes, os preparativos. A revolução será purpurinada! eu ri, sozinha, comprando glitter para o meu cartaz. Primeiro as primeiras coisas: os 20 centavos representando a luta central por um transporte público inclusivo e de qualidade, a luta pela autonomia da mulher e, claro, o sonho de um mundo mais biscate.



Tudo pronto, levei pra rua meu bloco do eu sozinho, contando que Freud, Verissimo e o Mendoncinha iam me dar cobertura. A primeira solidão, a mais óbvia, a primeira a ser antecipada: eu não conhecia ninguém. Não era um momento de encontros e abraços. Mas tudo bem, iam comigo as memórias de lutas outras e, nelas, foram encontros e risos e abraços e sonhos que permanecem.

Cheguei e lá estava a gente bronzeada mostrando seu valor. Bom, não muito bronzeada, né. Uma manifestação até meio alourada. Branquinha e bem vestida. Bandeiras. Caras pintadas de verde e amarelo. Desconforto meu. Mas o espírito era de tentar, então fui passear no meio das pessoas. A segunda solidão: o sotaque. Andei pra lá e pra cá tentando identificar um arrastado, um chiadinho, um molejo nordestino. Nada, nadinha.


Ok, vamos abrir o cartaz. Hora de manifestar o descontentamento. Com o quê¿ Mais solidão. O desfile de um monte de ideias que me tiram o sono ali, alinhadas, lado a lado. Me belisquei, mas não era um pesadelo. Eu sei que a gente, fora do país, perde um tanto da conexão com o que se passa no dia a dia. No passe o sal. Mas tenho a suspeita que a geografia não explica, completamente, as anotações que encontrei (evitei fotografar o rosto das pessoas que seguravam os cartazes, meu intuito não é apontar dedos ou julgar ninguém). Cada frase lida aumentava a sensação de isolamento, de que eu estava no lugar errado, que aquela manifestação e eu não nos tocávamos. Um monte de gente com pequenos cartazes: não é sobre 0,20 centavos. Eu, em choque.










(olha, a sucessão de preconceitos me assustou)

As duas horas que passei por lá foram meio surreal: as palavras de ordem puxadas por parte da organização do evento (palavras de ordem conectadas com o movimento que aconteceu no Brasil, como: vem, vem, vem pra rua vem, contra o aumento) encontraram pouco eco e depois de um tempo o que mais se ouvia era: o povo tá na rua, Dilma a culpa é sua. Afastada do centro da mobilização, captava fragmentos de conversa: o Brasil não vai pra frente porque quem tá no comando é só mulher e bicha; tem que tirar o PT do governo de qualquer maneira pra acabar a corrupção; o problema dessas manifestações no brasil é ficarem focando no preço das coisas, das passagens, tem que pensar grande. Tudo doendo em mim. Opa, uma entrevista pra Record. Ouvi. E o moço lá, dizendo: não é por 0,20 centavos, quem vai fazer questão disso? Não é por causa de ônibus nem nada. É uma questão maior, é um protesto contra essa gente que tá governando o país (eu peguei meu papelzinho e anotei tudo que ia ouvindo, pra não inventar chegando aqui, minha imaginação talvez não produzisse o horror assim, tão explicadinho). 

E eu, tão só. Meu cartaz, meio murcho, pendia da minha mão. Aí eu a vi. Também só. Silenciosa. Levantava seu cartaz, sem falar, sem repetir as palavras de ordem, andando no meio da solidão. Carregava uma cartolina, mas eu podia jurar que era um lampião ou uma lanterna.



Foi ela, o melhor. Ela e, claro, a batucada, que eu sou dessas. Eu sambo mesmo.



5 comentários:

Tina Lopes disse...

Ai que alívio esse encontro, no final. Olha, acho que aqui em Paris vai ser melhor. Mas vai ter muito disso tudo que está aí e que somos contra, companheira!

Tina Lopes disse...

Voltei pra dizer que adoro ficar com as tuas referências - e ver que também são minhas: texto do Verissimo, música mais-que-amada do Alceu. <3

Iara disse...

Olha, eu fui ficando aflita aqui só de ler, então posso imaginar o alívio que foi esse encontro no final.

Niara de Oliveira disse...

Aí é mais fácil de dar aos atos a cara que cada um bem entende. Ontem na Cinelândia tinha de tudo. Globais e intelectuais todos vestidos de branco, gente da velha guarda desconfiada, gente pedindo a volta da ditadura militar (acreditem se puderem), estudante classe média alta zona sul de cara pintada (e eu com vontade de dizer, o Collor já caiu, e foi em 92), e o povo dos atos de antes, firmes, na luta contra o aumento das tarifas e não se deixando levar pelos oportunistas de última hora. Cada vez que a Globo e outras emissoras abriam suas transmissões ao vivo, faziam questão de dar o recado, límpido, direto. Se engana quem quer, esse movimento pode não ter grandes lideranças, pode ser horizontal (uêba!), mas está longe de ser manipulável (uêba! 2). Sinto pela dor, decepção e pela saudade, querida Lu. Te abraço.

memoria do spin disse...

Garimpando blogs escritos por mulheres cheguei ao seu, que maravilha, como vc escreve bem, tive a liberdade de compartilhar no meu facebook
https://www.facebook.com/josecarloslima70

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