quarta-feira, 15 de maio de 2013

Diário de Bordo, pra quê?


Não tenho andando muito pelo twitter, mas passando lá essa semana vi uma espécie de zoação com “pessoas que, em pleno 2013, vão para outros países e se põem a escrever sobre eles e as diferenças como se fossem empolgados antropólogos recém-formados”. Como as pessoas envolvidas no papo certamente não me lêem, não eram de mim que falavam, embora a carapuça coubesse direitinho. Claro que, no primeiro momento, me chateei #mimimi-não-sou-mais-sua-amiga-sua-feia-chata-e-boba (isso em silêncio, com meus botões, porque não sou mesmo amiga).

Depois fiquei refletindo, desse meu jeito ruminante - mastigo, engulo, volta pra boca, mastigo mais, engulo de novo e assim vai como vocês aprenderam nas aulas de biologia (eu sei, não é um processo bonito) - e nessas idas e vindas pensei: é, né, com youtube, google, zilhões de gente que vão e vem de Lisboa faz tempo, com aquele lance de ver as ruas online, jornal, revista, tanta informação, porque mesmo que eu ainda estou escrevendo sobre os nomes diferentes que os cortes de carne recebem no Brasil e em Portugal?

O mais antigo mapa de Portugal

 E continuei ruminando. Aí lembrei um dos motivos que me faz gostar muito de psicanálise. Na psicanálise é assim: cada um tem que dizer. E nem estou falando do analisando, embora ele também. Estou falando do analista. Ser analista não depende de um diploma. Não depende de um curso. Não depende de uma formação (embora todas essas coisas possam contribuir). Para ser analista é preciso alguém que o reconheça como tal e se coloque como analisando e é preciso dar provas – e pôr-se a prova - para os pares, ou seja, escrever, relatar, reescrever a teoria pela sua clínica. Todo e cada analista precisa e deve “reinventar” a psicanálise. Assim, cada um de nós diz sobre, por exemplo, histeria. E mesmo dizendo o mesmo, é único o dito, porque cada um escolhe, organiza, projeta palavras de uma forma particular. E é assim que se constrói conhecimento, para a psicanálise em geral e para cada um envolvido no processo. É pela reinvenção, pela construção de um discurso sobre a prática, que um analista se valida e ao seu fazer.

Continuando a ruminação, na vibe psicanalista/viajante, fiquei pensando nos blogs “de viagem” que eu gosto de ler. Interessa-me bem menos o que há em algum lugar e bem mais a relação que as pessoas estabelecem com o que há no lugar. O que me interessa é o processo. A beleza é ver com o olho do outro. O que encontramos (ou o que eu encontro, pelo menos) é menos uma aproximação com os lugares e mais uma aproximação, um envolvimento, uma cumplicidade com quem lá está e de lá (nos) fala. Por isso é que, por mais interessantes que sejam os lugares que alguém visita ou mora, só continuo lendo os textos se esse alguém me cativar. Assim, imagino que quem costuma ler o Borboletas não o faz esperando alguma revelação absolutamente inédita sobre Lisboa, mas que se interessa pelo meu sem jeito com as situações em geral e especialmente no lugar novo, tão íntimo e tão distante.

Quem costuma ler o Borboletas também sabe que eu amo o Verissimo.  Sou devota. E é por gostar dele que gosto do seu livro sobre lugares, viagens e comida e é por gostar do seu livro sobre comida, viagens e lugares que gosto dele (livro, aliás, que você pode ler aqui...de nada!). E, assim, "garradinha" com meu Verissimo, é que deslindo o tema que foi #mamilos cá dentro de mim e decido continuar contando todos os meus: "oh, não tem ralo!" como eu puder. Se isso faz de mim uma antopóloga fake vintage, paciência.


13 comentários:

Alessandra Trindade disse...

Pobreza é só conseguir ver um arremedo de relato antropológico nas vivências alheias. Que bobos!

Nanica disse...

Uma das melhores viagens que fiz na vida foi ao seu universo que vc mostra na sua conversa e na sua escrita, ambas invariavelmente generosas! Obrigada por mostrar e continuar mostrando seus pousos, Borboleta. Sua amiga Nanica.

Juliana disse...

ah, gente, preguiça, viu? eu gosto das antropologias, até aquelas de boteco.Faço minhas as palavras da alessandra: Que bobos!

um dia uma amiga me perguntou porque eu lia um blog de moda já que sou nada ligada no assunto. E eu respondi bem isso o que vc disse ( só que com palavras menos lindas): eu gosto do que as pessoas dizem, de como dizem e por que dizem. Leria até blog sobre parafusos.

Iara disse...

Nossa, que discussão mais besta essa. É isso que a gente quer, ver pelos olhos do outro. É esse o interesse. Eu quero a Lisboa da amiga linda e sorridente que me levou pra canoa quebrada. Tivesse eu outra amiga aí, a Lisboa também seria outra, assim com a Paris da Tina não é a mesma da minha. Como as pessoas não enxergam isso?

Cristiane Rangel disse...

Lu amada, os teus relatos são imprescindíveis para alguém que, como eu, tem sangue Portuga correndo nas veias. Bjo!

Rita disse...

Pois então, tenho a mesma reação da Iara: quanta bobagem, o povo não entendeu nada. Não me importa que a Torre tá lá em Paris há trocentos anos e todo mundo já viu. Importa-me que a Tina, quando viu, fez textos lindos e redescobriu o lugar sob uma ótica toda dela, mostrando, mais uma vez, que o que importa é o olhar, não o objeto apenas. Enfim, isso aí que você falou mais bonito do que eu.

Bj
Rita

Tina Lopes disse...

Ai, que emoção, amo ser citada. Mas sabe que eu estou-estava-sei-lá desistindo do blog? Porque li/ouvi muita alfinetada desse tipo. Eu podia simplesmente dar de costas com um "ah as recalcada" mas dói porque pôxa, tô me expondo, e a toda minha caipirice, meu olhar sobre os lugares que tenho conhecido, minha rotina, é pra criar diálogo, conversar com quem quiser falar sobre, não pra impor nada nem fechar questão. Por outro lado tenho também me censurado porque é difícil não cair em generalizações, mas sou humana, observo meu universozinho e aí vem patrulha ensinar como estou vendo errado... arre. Era pra ser só um papo. E além disso não sei mais onde guardei minhas fotos.

Lunna Guedes disse...

Bem,você sabe que eu não gosto do passarinho. Detesto. Essa limitação de caracteres me enlouquece. Enfim, passado esse momento, penso no seguinte: há muitos olhos que não são de olhar como o seu. São olhos de ver e eles vêem tão pouco, concorda?
E mais, ainda é preciso ter a sensibilidade de conseguir nos entregar tudo isso. Dito isso, respiro fundo e me sinto feliz por saber que minha amiga (olha que chique) escreve diários de viagem porque assim eu sinto parte da bagagem...

bacio

Palavras Vagabundas disse...

Lu, adoro suas impressões sobre Lisboa e Portugal em geral. Não sei quem escreveu a observação, mas com certeza estava de mau humor. Um os livros que mais gosto é justamente um diário de viagem de 1927 e o olhar pernonalizado do autor sobre lugares a tanto visto e descrito. Afinal " A beleza é ver com o olho do outro. "
bjs
Jussara

Terla disse...

Oie, só vim aqui pq vi a Iara falando com a Cristina e daí fiquei curiosa pra ler os comentários, mas pra isso precisava ler o texto, né? Adorei o texto e lembrei do blog q eu fiz em 2010. Fiz pq os amigos pediram pra eu postar lá os emails q enviava de Paris, pq eles estavam passando os emails pros amigos, pros colegas de trabalho, gente que eu sequer conhecia, mas que achavam tudo muito engraçado qdo eles liam no local de trabalho. Criei o blog (www.pudimdeideias.wordpress.com) e colei tudo lá. Um tempo depois eu fui ler os posts, pra lembrar do meu ~sucesso~ e SÓ TINHA BOBAGEM ESCRITA. Eu não sabia o nome de nada, eu me perdia nos lugares, dava informação confusa.. .Num primeiro momento fiquei com vergonha, confesso, depois me dei conta de que por mais q seja uma das cidades mais comentadas, lidas e escrevinhadas do mundo, pra mim era a primeira vez. E era a primeira vez que Paris me via tb. Acho que gostamos uma da outra e talvez por isso meus amigos gostaram tb.
<3
Vou ler os teus posts sobre Portugal e Tina, minha amiga querida, teus posts são maravilhosos e me fazem feliz qdo me imagino patinando por Paris. A mesma felicidade que sinto quando imagino a Iara e o Daniel sentindo o primeiro calorzinho do ano.

Inaie disse...

fiquei com pena dos otários, digo, dos tuiteiros. Não gostam? que não leiam...

Eu escrevo, escrevo, escrevo sobre as diferenças, as afinidades, sobre o que me der na telha> escrevo para mim. E para quem quiser me acompanhar.

Cris disse...

Lu, eu adoro blogs de viagem. Adoro o que você, a Tina, a Iara. Ai, e esse bando de gente chata que adoro c* regra pro mundo. Esse povo deve ficar preso o dia inteiro dentro de um escritório pra ser tão chato. Sugiro uma caminhada ao sol e uma fatia de bolo quentinho e doce pra deixar a vida deles um pouquinho mais legal. Quem sabe eles começam a ver um pouco poesia no mundo ;) Bj!

Cris disse...

Ops. Digitando errado, as usual. 'Adoro o que você, a Tina e a Iara escrevem' =)

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