quinta-feira, 23 de maio de 2013

Bolhinha de Sabão ou Na Academia


Pode ser só impressão minha (provavelmente é) mas eu sinto que meu mundinho de trabalho, a tal vida acadêmica, se assemelha muito a uma bolha. Tentar conversar sobre ela faz com que eu me lembre dos papos que tenho com as pessoas que não costumam frequentar as redes sociais, tipo Facebook, twitter, nem se envolvem em #mamilos e tretas internéticas. Fica sempre uma sombra, uma área inexplorada, uma coisa quase dita, mas que a gente engasga porque sabe que não vai fazer sentido nenhum para o interlocutor. E não é que a vida internética seja um "a mais", melhor ou qualquer coisa assim. É só diferente e tem interpretações, dinâmicas e conteúdos um tanto distintos. 

O “mundo acadêmico” quase sempre me passa a impressão de uma realidade paralela. Constituído de  uma série de pequenas obrigações, rituais, pormenores, tramas, dramas, que parecem fazer todo sentido quando nele estamos inseridos, de repente se torna meio tolo quando tentamos explicar para alguém, fora da bolha, porque nos descabelamos pra publicar em uma revista qualis A, qual a relevância de citar direitinho e porque não dormimos direito, afinal é “só a qualificação da tese, né”.  

Estar fazendo doutorado parece que acentua isso. A bolha passa a ser a bolha-do-eu-sozinho. Vamos supor alguém com quem você converse todo dia à noite. "oi, tudo bem, o que você fez hoje?"... enquanto você aí, que pensa que sua vida é um tédio, que seu trabalho é repetitivo, tem uma porção de coisinhas pra contar, eu, de domingo a domingo (praticamente), respondo: "eu li e escrevi". Claro, se for um dia muito animado eu coloquei roupas na máquina, fui ao supermercado ou, até, lavei o banheiro. Porque não dá pra dizer: "ah, foi ótimo, eu estava lendo uma tese sobre trabalho, subjetividade e capitalismo manipulatório e fiquei em dúvida se me limito a tratar do capitalismo contemporâneo como capitalismo flexível ou se seria interessante discutir as terminologias manipulatório, flexível e financeiro, porque isso implica em reescrever minha problematização e como já estou com 30 páginas e é o máximo permitido - veja como eu sofro quando tenho que escrever com letras contadas"... provavelmente o interlocutor já dormiu, a não ser que seja alguém da academia, de preferência da área que vai me interromper pra pegar a referência da tese e pra dar sua opinião sobre um projeto #%&@ de 30 páginas.

Minhas dores cotidianas são: número de páginas, escrever artigos que são recusados pra publicação, escrever artigos que são aceitos com ressalvas que eu não tenho tempo de ajustar,   descobrir se estou agradando minha orientadora, disfarçar no slide que ainda não li estudos empíricos sobre indústria automobilística o bastante, ter pesadelos onde meu diploma não é revalidado no Brasil, não ter bolsa porque o projeto é demasiado transdisciplinar, preparar um power point suficientemente completo que possa ser apresentado em 15 minutos, levantar bibliografia, levantar bibliografia, levantar bibliografia. E ler isso aí tudo que foi levantado. E isso porque eu estou liberada das reuniões de departamento, eleições de Conselho Universitário, disputas de projeto de extensão e mais uma porção de coisas que costumam causar bocejos em todas as pessoas queridas que ainda tem paciência de me escutar.

Longe dos meus livros, da minha família, das idas e vindas dos amigos eu me sinto cada dia mais desinteressante. Se alguém por aí "quiser só o meu corpo" eu acho que ainda tá no lucro, não sei se estou tendo muito mais pra oferecer. Sei que quando acabar o doutorado essa sensação vai ser minimizada, não porque a situação vá, efetivamente, melhorar, mas porque eu vou voltar pra bolha-mãe, a bolha-coletiva-universidade onde o drama da quantidade de páginas e do número de pontos qualis faz sentido pra muita gente ao redor. 


*****

Reli o post e fiquei achando com cara de "ai-jisuis-como-eu-sofro-e-sou-incompreendida-tadinha-de-mim" e não é nada isso que eu sinto em relação ao meu trabalho. Eu me sinto privilegiada de trabalhar com a produção, socialização e troca de conhecimento. Sinto-me privilegiada de, dentro das 40 horas semanais, ter um tempo previsto pra estudar. Sinto que sou privilegiada pelo salário, pela estabilidade, pela quantidade de dias de férias. Sou privilegiada porque estou recebendo, neste momento, o meu salário pra estar aqui, do outro lado do oceano, estudando. A academia é um mundo de alegrias e descobertas e aprendizado e amizades e prazeres. É bom, é bom mesmo. Também não estou querendo dizer que "na prática a teoria é outra", não estou fazendo ode ao mundo acadêmico ou contra ele. É só a sensação de que, em algum lugar do caminho, as brumas que separam os mundos foram ficando mais densas (#avalonfeelings) e que eu me perco, um tanto, ao cruzar as fronteiras. Ou, apenas, sou eu que não sei mais paquerar, vai saber.

8 comentários:

Caminhante disse...

Não fique achando que ficou com tom de mimimi, porque pra mim foi perfeitamente compreensível. Lembro que me acostumei em dizer em apenas 1 frase qual o meu projeto de mestrado, porque ninguém queria ouvir mais. Um dia alguém me fez uma ou duas perguntas, que renderam 5 min sobre o tema e levei um susto. Não estava acostumada a receber tanta atenção sobre isso!

Nanica disse...

Doida pra ouvir todos os "mimimis" tim-tim por tim-tim que vc tiver pra falar num encontro no skype...

Iara disse...

Eu continuo te achando tão interessante quanto sempre achei. Só pra deixar registrado.

Bárbara Lopes disse...

Eu gosto de ouvir pessoas falando sobre coisas que eu não entendo direito. Não porque quero entender, mas porque gosto e pronto. Tipo criança ouvindo conversa de adulto.

E o Gustavo não tem a sorte de ter em casa alguém que sabe calar quando a pessoa não vai entender ou se interessar. Eu falo do mesmo jeito.

Fernando Amaral disse...

Gosto de fado e de heavy metal, vai entender....

Cecilia disse...

Eu acho impossível você tornar algo desinteressante, Lu. Mas sabe, você levantou uma questão aí que me põe umas minhocas na cabeça, que é a diferença na forma como é percebido o trabalhar um número bem grande de horas, sob pressão, para a indústria, e fazer o mesmo no contexto acadêmico. Claro, existe uma grande diferença em termos de objetivo, que é gerar riqueza para uns poucos na primeira, e gerar conhecimento que, pelo menos em tese, deveria ser socializado, na segunda (o que, na prática, eu não sei se funciona). Mas o resultado final de ambas as atividades pode se aproximar, dependendo do que se faz com elas. Ai, ficou bem confuso.

Cristina Lopes Cassiano disse...

Eu acompanho a vida inteira o Monsieur Lopes e suas loucas aventuras na academia e acho que é um dos trabalhos mais estressantes que pode haver porque exige disciplina pra 1) trabalhar 2) pra se desligar do trabalho. Porque há SEMPRE um artigo a ser escrito, uma referência nova que ainda não foi lida, um parecer etc. etc. Já a percepção do trabalho acadêmico é, geralmente, equivocada e a concessão de bolsa, por exemplo, questionada como se fosse um bolsa-folga, bolsa-viagem. Como se não fosse fruto de um trabalho duro que poucos, tão poucos, são habilitados a ver e entender. Afe. Não sei como vocês aguentam.

Rita disse...

Been there, done that.

Sei da sensação bolha. E hoje acho que somos um monte de bolhas se cruzando por aí, nem sempre se tocando e fazendo trocas, porque, né, bolhas. Minha bolha atual é bem emburrecedora, repetitiva e desestimulante, o que me deixa com saudades da bolha na qual você está agora.

Eu me lembro que sentia certa solidão na época da qualificação e escrita da tese, mas eu sabia de onde vinha isso: era minha crença no tema, minha paixão pelo assunto. Como se ninguém partilhasse do mesmo entusiasmo, sabe. Era esquisito. Meus interlocutores mais atentos eram os livros, hohoho. Enfim, é assim mesmo, né?

Tamos aí.
Bj

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...