sexta-feira, 31 de maio de 2013

Agridoce


Você se lembra? e é como um abraço, está-se mais perto um do outro. Você se lembra? e lá a máquina do tempo tão desejada rapidamente construída. Você se lembra? e os momentos com sabor voltam, todinhos, inteiros e intensos, temperos apurados.

Eu gosto do sabor do tempo. Quando lembro algo, lembro mais: lembro de mim naquele instante, quem eu era, o jeito, os sonhos, os planos. E se tenho pouca vontade de ser de novo a mesma e viver o que já foi, a alegria de ter sido é inversamente proporcional.
Recordo os sabores de casa ainda mais quando estou tão longe dela: em geografia e pensar, em tempo e certezas. Saudade tem gosto, sabe, quase sempre agridoce. Porque há o bom do agora: o riso, a beleza, o prazer. Mas há, também, tudo aquilo que não é e que falta que faz. Então, memória: lembro arroz de leite e costela de carneiro assada, que minha mãe desfiava tão pacientemente mas nos desafiava a comer só. Lembro o creme de manga. O souflê. Lembro os dindins. Lembro Maria Isabel, meu pai na cozinha. Ah, sextas a noite e os oriocós. Lembro em sabores, cheiros e afeto.
E fico pensando o que meu pequeno (tá, eu sei, 1,95cm não é pequeno) vai lembrar. E penso que será em massa a sua memória. A mais simples, usual e repetidamente devorada com vigor: parafuso coloridinho cozinhado sem sal, escorrido e à espera. Na panela, pedacinhos de linguiça, passa o tempo, entram os quadradinhos de bacon, mais minutinhos e tomate, sem pele nem semente, shouyu e relógio. Tic-tac, quase pronto, pasta com pedacinhos crocante, um tanto de creme de leite e bora derramar no parafuso.
Tanta coisa que a gente (ou só eu, não sei) pensa quando tem filho: bons hábitos, estudo, afeto... um monte de coisa que a gente (ou só eu, again) se preocupa em oferecer e nunca tinha pensado em que lembranças sua língua ia levar. Agora, que estou longe demais para abraços que postergam o ir deitar, longe demais das camisas espalhadas nos lugares insólitos, longe demais dos sanduíches feitos por ele pra me alimentar, longe demais dos jogos, dos resmungos, do cabelo macio, longe, longe, longe, fico mastigando a saudade: agridoce.

2 comentários:

Juliana disse...

lá vou eu ser repetitiva: quanta lindeza!

Inaie disse...

que lindo. me trouxe lágrimas aos olhos. Será que é por que as minhas filhotas estão no Brasil?

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