segunda-feira, 8 de abril de 2013

Um(a) (Sul)Americano(a) em Paris ou Paris I

Saudade não é – ou não é sempre – triste. Algumas vezes é doce reconhecimento de uma alegria passada ou um anseio não nomeado. Um momento querido em delicados e desbotados tons pastéis (e outras vezes é turbulência, um quadro cubista, enfim, divago). Hoje passei o dia em saudades. Dessas, de álbum de retrato com a ponta da página gasta e moldurinhas brancas em cada foto. 

Uma saudade que foi riso, que foi borrão, que foi vontade, que foi conforto. Uma saudade que foi memória e projeto e alívio e dúvida. Uma saudade que foi possibilidade. Principalmente, uma saudade que foi vazio.

Saudades da minha irmã-amiga-chefa-roommate. Saudades de quando meu melhor amigo era o meu amor. Saudades do trabalho que incluía pequenas viagens e muitos cafés, sorvetes e cervejas no depois. E aí percebi: tudo culpa da Renata. Por dez dias fomos quase um quadro dos Trapalhões: comemos? juntas, passeamos? juntas, viajamos? juntas, dormimos? separadas (quase). E toda essa intimidade, esse partilhar que prescinde de narrativas, o surgimento da piada particular, o singelo, a solidariedade espontânea, essa miscelânea de concreto e afeto resultou nessa sensação de coceira no membro que já não há: uma saudade da dinâmica. Saudade das vezes em que me permiti me enganar e pensar - contra tudo que sei e acredito - que é possível o encontro. Saudade das vezes em que me permiti deslizar na fantasia da comunicação sem brechas. A saudade de hoje é uma ressaca, eu até diria se tivesse tido alguma pra ter certeza.

Mas, dizia eu, por 10 dias - e seis deles em Paris - Renata deu forma específica ao meu mundo, ao meu olhar, aos meus passos (virá, ainda: Napoleão e os tatus, aguardem). 

Foi com Renata que vi uma Paris très chic ser, também, a Paris do queima:


[Pertinho da nossa casa - bemdizernaesquina - o sacolão de Paris. No caminho preferencial para a Sacré Couer]

Foi com Renata que chorei  me encantei pelo l'Orangerie (obrigado, Tina!): os incríveis painéis de Monet e ainda uns quadros deliciosos de Renoir, Modigliani, Picasso e Marie Laurencin (ganhei da Renata uma reprodução do Portrait de Mademoiselle Chanel). Foi com ela que rimos largamente pousando ao lado dos quadros, na lojinha de lembrancinhas do museu, da menina pentelha fotografando tudo com ipad:


[Diz aí se não é a cara do Brad Pitt...]

Foi com Renata que eu escolhi uma comida só porque não sabíamos o que viria no prato. Era nossa última noite em Paris e nos mimávamos com vinho e um ambiente quentinho. Pela janela víamos a Sacre Coeur iluminada e já falávamos com saudade das andanças todas. No restaurante, um francês gentil misturava espanhol e algo indefinido - mas muito bem intencionado - tentando falar português.

[Começava com "R" e era de porco.
Não lembro mais do nome, aceito  pitacos.]

Foi com Renata que passeei em cemitérios e me permiti rir, fazer piada como a ruazinha das casinhas dos mortinhos e me fotografar com uma pá. Juntas nos indignamos com a pouca pompa do túmulo de Piaf e nos emocionamos com os beijos e pichações de batom no túmulo do Oscar Wilde. 


[Em uma perspectiva antropo-histórica-linguística-genealógica
provamos que  os Silva morrem por todos os lados.]

Foi com Renata que lembrei: cada um tem sua Paris. A dela é em referências históricas e rosa-antonieta. A minha é um mural colorido de imagens hollywoodianas. Ninguém filma Paris melhor do que aqueles que não a conseguem acessar, penso eu: os americanos. Porque não a compreendem, a mitificam. Sei que a Paris real é toda bege, preto e dourado. Mas pra mim - e nos meus filmes de estima - há tantas cores quanto, no peito, os amores.





6 comentários:

Renata Lins disse...

Rillettes?
Ass. Outra Rê.
Morrendo de inveja, feliz com as alegrias. Até de repente!

Luciana Nepomuceno disse...

Ouiés, acertou minha comidinha. E num se avexe não que o que é nosso tá guardado ;-)

Tina Lopes disse...

Nao entendi o que é o queima!

Tina Lopes disse...

E Nina comenta no dia seguinte da visita de vocês- mãe, você tem umas amigas tão legais né? <3

Rita disse...



L'amour, l'amour...

Cristiane Rangel disse...

Tão bom te saber feliz, Lu!

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