segunda-feira, 29 de abril de 2013

Turismo Gincana e a Minha Lisboa


Eu queria ser uma pessoa melhor e todos os dias pelejo um pouco nessa causa. Mas tem horas que. Então eu sei que é uma coisa muito, muito feia. Que eu não devia. Mesmo disfarçando de curiosidade intelectual, interesse antropológico ou até leitura histórico-cultural, reconheço que estou julgando e apontando dedos. Mas eu não resisto, desculpa aê.

O lance é o turismo. Ou, melhor dizendo, um tipo de turista que me deixa muito invocada (não invocada = enraivecida e sim invocada = mão no queixo, refletindo). É o turista que faz, na falta de um termo mais preciso, o que eu vou chamar de turismo-gincana. Sabe como é que é? Tem que tirar uma foto com a monalisa, beijar o chão da capela sistina, subir e descer a Torre de Belém pulando de um pé só, tudo vendado e em 24hs. Vocês pegaram o espírito que eu sei. Tem uma lista de coisas que se PRECISA fazer. Não se pode esperar, não se pode parar, não se pode mudar um trisquinho que é considerado perda total.

Vou indicar uma situação que sempre me deixa pensativa: era uma vez o 28. O 28, pra quem não sabe (tem alguém?) é o eléctrico mais fofo do mundo todo (aperte aqui1 trajeto Moniz-Graça-Sé, aqui2 trajeto Bairro Alto, aqui3 São Bento-Estrela-Prazeres, pra ver fotos, garanto que você não vai se arrepender). Ele faz um trajeto extremamente turístico pelas áreas bam-bam-bans da cidade, indo do Cemitério dos Prazeres até Martim Moniz passando pelo Largo de Camões, Chiado, o Miradouro de Santa Luzia, a feira da Ladra, o Castelo de São Jorge... é o meio de transporte mais cobiçado por 10 entre 10 turistas. Acontece que o 28 é, também, uma das formas de deslocamento dos residentes da cidade.  Ele cobre um percurso que nenhum outro meio (metro, ônibus) faz. Daí que tem sempre muita gente pra andar nesses bichinhos. A sorte é que tem um monte deles. Mesmo nos dias de menos oferta do serviço não se espera, regularmente, mais do que 15 minutos. 

Chegamos, então, no momento da minha surpresa/espanto/reflexão: o 28 vem cheinho, zum-zum-zum, dá pra ver gente quase saindo pela janela, zum-zum-zum, ele é pequenininho, zum-zum-zum, tá lotado. Aí o que faz não um, dois ou três turistas, mas uma porção deles, que estão em uma das paradas do percurso? Desistem calmamente daquele eléctrico porque, afinal, dez minutos a mais em frente à Basílica da Estrela, aproveitando a beleza do lugar, é uma bela forma de passar o tempo enquanto esperam uma experiência mais tranquila, satisfatória (entendendo que um dos motivos de fazer o tal turismo é ver as coisas do lugar), um próximo eléctrico onde se vá, senão sentado, pelo menos podendo ver a paisagem pela janela? Não, não, não, entram todos, todos, todos, espremendo-se e espremendo as pessoinhas da cidade (arrumadinhas pro trabalho), entram todos, todos, todos e ficam procurando se segurar e adivinhar onde estão, sem poder ver a Lisboa azulejada, colorida que acompanha o percurso do bondinho. Ou seja.

Eu (pres)sinto que seria uma péssima companhia e uma guia terrível pra este tipo de turista.  Eu não tenho pressa nenhuma e sempre esperaria o próximo eléctrico, ônibus, disco voador, cavalo selado. Eu não preciso chegar em lugar algum. E, principalmente, eu não sei o nome de nada. Ou de quase nada. Não me pergunte quantos (quantas pessoas tem em Lisboa? resposta: muitas). Não me pergunte quando (quando construíram o Castelo de São Jorge? resposta: olha, faz tempo viu, muitos, muitos anos atrás). Não me pergunte quem (essa D. Maria II do teatro aí é a mesma nossa D. Maria a louca? resposta: de médico e louco todo mundo tem um pouco) em nenhuma das versões (de quem é essa estátua no meio do caminho entre o Jardim da Estrela e a estação de metro do rato? resposta: olha, como tá no meio da rua deve ser da cidade mesmo). Não me pergunte números, eu não cresci (lembrando do comecinho do pequeno príncipe).

O meu turismo é de outra ordem (e narciso acha feio o que não é espelho, blé, luciana). Eu posso ter uma infinidade de planos, mas me custa muito pouco abrir mão deles todos se, por acaso, um brilho em um azulejo me convidar a ficar mais um pouco contemplando a paisagem na beira do rio. Um quadro pode me fazer desistir de todo o resto do museu, para ficar ali, paquerando a beleza. Ando devagar porque já tive pressa, cantava bonito o moço de um sertão que não é o meu. Ando devagar porque fui vivendo assim, ao ritmo do (meu) prazer, digo eu. 

Eu sei que há muito a se ver e entendo a ansiedade de tentar fazer isso dentro do nosso pouco tempo (pouco tempo naquele lugar, pouco tempo de férias, pouco tempo com dinheiro que dê, pouco tempo de vida, o calendário não é exatamente auspicioso nesse aspecto). Mas eu entendi que essa é uma corrida que não se tem chances de ganhar, daí optei pelo mais confortável: sair da brincadeira. Desculpa aê, relógio, mas não vou mais disputar com você. Reconheço que você é o dono da bola, tá ok. Vou ali, brincar de amarelinha. Ou empinar pipa. Se quiser jogar comigo e não contra mim, é bem vindo. E ele veio, esse lindo. Então, meu turismo, como minha vida, é o reconhecimento de que vai existir sempre a falta. E eu me organizo ao redor desse furo.

Assim, há um abismo entre mim e o turismo-gincana e, por isso, reconheço que seria péssima companhia. Lisboa, por exemplo. Eu sei que é uma cidade cheia de monumentos, construções importantes e eventos históricos dignos de nota. Eu sei. Mas a minha Lisboa é menos um lugar que uma atmosfera. Minha Lisboa é um estado d´alma. É uma tristeza que quase se sabe riso, mas espera, opa, ainda não pode ser. É uma alegria que quase se pode triste mas espera, opa, hoje não, deixa o bom ficar. Minha Lisboa é uma senhora de bengala subindo uma ladeira: desafiante, orgulhosa, perseverante, solitária, bela. Minha Lisboa é um vir a ser, mas que já foi e todos esses tempos juntos dão um certo embaraço nos sentidos. Minha Lisboa é a irresolvível contradição de arrastar nossa solidão aos grupos que amamos e de nenhum deles abrir mão - e fica-se assim, uns com os outros e em si mesmos. Minha Lisboa é um jovem casal se beijando nas escadas do metro e quase sabe a felicidade, aí a moça descansa a cabeça no ombro do moço e vemos em seus olhos uma melancolia que não tem idade. Minha Lisboa é uma promessa. E uma saudade. É um fado triste cantado em palmas e riso. Minha Lisboa é um céu e um rio. É isso: minha Lisboa é um certo azul.




7 comentários:

Iara disse...

Olha, eu vario (não fala vareiam que viceia, Iara). Eu posso entrar na da gincana e entro, às vezes. Mas eu posso contemplar. E se for a melhor companhia do mundo, e essa companhia for uma convite à contemplação, a vida tá linda. Por isso minha Lisboa e a sua Lisboa, e eu acho bem bom. <3

Cristina Lopes Cassiano disse...

Peraí que eu tô rindo do "viceia" da Iara. Mas então. Não vou te convidar mais pra dar a volta do mundo em 80 dias, hahahaahahah porque eu sou *a* turista-gincana. Eu sou a chata que acorda todo mundo cedo porque "temos horário e roteiro a cumprir". Eu sou a caipira que faz todas as fotos (já falei disso...). Essa é minha urgência de pobre. Tenho complexo de achar que sempre aquela será minha última oportunidade - tanto porque provavelmente não terei mais dinheiro quanto também posso morrer, sei lá. Eu sugo o máximo de tudo e gosto de ver as fotos das minhas cartilhas se materializando, grandes, gigantes, na minha frente. Mas contemplo, também. Desde que sinta que não estou perdendo nada e porque morro de medo de me arrepender - de não ter visto algo muito legal porque me deixei ficar mais tempo dormindo, por exemplo. Sabe que Lopes, em tupi-guarani, significa mulher chata neurótica.

(off-topic - mas que diabo de prove q vc não é robô, demoro 4 ou 5 vezes pra postar aqui, mimimi)

Daniel Nascimento disse...

Eu identifiquei-me total. Dois únicos TEM QUE gerais de meus passeios: chegar (nem que seja pra admirar por 5 min e voltar) e tomar umas no caminho.

Porque a vida, é estrada. E só se chega pra poder voltar ;)

Rita disse...

"AlÔÔÔÔÔÔÔ, liberdadeeeeeeeee... bom diiiiiiiiia, alegriiia" (desculpa, estou monotemática com a trilha dos saltimbancos na cachola). Então, eu faço o que der na telha e garanta a diversão. Eu adoro turistar e nos últimos 8 anos todos meus passeios incluem uma ou duas crianças. Então eu acordo às 7 pra sair às 11 e almoço às 17 e aí o museu fechou. Ou consigo entrar e me esqueço do mundo e volto outro dia, se der, pra ver tudo tudo tudo tudo. Ou de outro jeito, conforme a lua e a maré. Tenho receita não. Pode assim, também?

Mas Lisboa, que ainda nem vi, já me é TÃO querida por causa de seu olhar. Cê sabe, né?

Bj!

Bárbara Lopes disse...

O que eu gosto: o texto. Começa com um "olha lá aquele cartaz", volta pro roteiro porque tava combinado, aí se perde porque é mais legal, descobre um caminho melhor. Com cidades e palavras, sou dessas.

Juliana disse...

sou do seu time. não tenho pressa, nem roteiro. eu gosto de sentar e amar o lugar. minhas melhores lembranças do poucos lugares que conheço têm a ver com céu bonito e horas de contemplação.

Um roteirozinho não mata, mas tem que ser em basicão mesmo.

Renata Lins disse...

Lu, meu tipo de turista. A gente anda até o primeiro boteco e fica lá, apreciando as modas... :) e sim, sempre pode ser a última vez. Mas meu jeito de aproveitar é esse!
Beijo!

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