segunda-feira, 22 de abril de 2013

São dois pra lá, dois pra cá


Minha mãe tem capacidades impressionantes (a mim, impressionam): ela não vê um pedaço de tecido apenas, ela vê um vestido e sabe, inclusive, quais as virtudes e defeitos que pode ter e com quem “combina”. Ela vê um pedaço de madeira e vê, também, um móvel e onde ele pode ficar na sala e como a sala vai ficar. Ela entra em um ambiente e consegue imaginar vários novos arranjos pros objetos que lá estão e saber qual deles fica melhor. Eu vejo uma roupa em um cabide e não consigo imaginar como ela fica em mim, tenho que vestir. Só sei se um móvel cabe em um ambiente se medir e o efeito que ele causa se colocar o tal móvel no lugar. Novo arranjo de objetos¿ Tenho que testar um por um.

Essa capacidade de “ver” o que ainda não existe materialmente deve ser fundamental pra um coreógrafo, acho. Se eu já fico impressionada com aquelas peças em que várias pessoinhas fazem os mesmos passos e os dois vestidos de forma diferente (um mocinho e a mocinha, geralmente) fazem coisas diferentes (afinal, são os protagonistas) imagine o grau de admiração que tenho por esses coreógrafos como a Deborah Colker que conseguem colocar vários bailarinos no palco fazendo coisas completamente diferentes mas não desligadas umas das outras.

Um pouquinho de história (da minha): eu devia ter viajado esse fim de semana. Levado o riso pra outras paragens. Mas os caixas eletrônicos e o Murphy não acharam boa ideia e tive que ficar por aqui. No primeiro momento nem foi tristeza, apenas o imenso nada à minha frente. Depois, uma certa melancolia que levei pra passear no jardim, como está no post anterior. Fizeram efeito, as cores e o querer. Espiando na internet os bilhetes pra o concerto da Bethania acabei esbarrando no balé Tatyana. Olhei data e hora: hoje, já já (hoje que foi ontem, entendam). Vim, vi e venci.

Outro pouquinho de história, agora a do balé: era uma vez Oniéguin que, por absoluta falta do que fazer, fica amigo de Lenski, moço poeta, que amava Olga, mocinha despreocupada, que tinha uma irmã, Tatyana, daquelas contemplativas. Tatyana logo quer Oniéguin e, passando por cima de convenções, o diz. Ou melhor: escreve cartinha. Ele a rejeita. Não satisfeito com a desfeita, seduz Olga. Lenski e o mocinho mau duelam, Lenski morre. Olga casa-se com outro, que essas despreocupadas acabam por saber que vida que segue, né? Passa o tempo tic-tac, Oniéguin vai e vem, chega na cidade grande anos depois e se encanta com uma moça que é quem? quem? quem? Tatyana, laralilalá. Que o manda pastar. Agora imagina isso em movimento. Em movimentos, porque cada personagem é dançado/interpretado por vários bailarinos, às vezes de forma alternada, às vezes concomitantemente. E ainda tem o narrador da história, também dançado, que se comove, se mistura com a trama.

Gostei muito. Gostei do objeto-cenário que é suporte e personagem, quase (tem uma espécie de árvore no primeiro ato e, no segundo, um jogo com tela/véu). Gostei da luz que busca os bailarinos, meio que os persegue, chega quase um segundo depois do movimento, é como a gente tentando dar conta do desejo que se desloca. Gostei de um momento em que os moços estão lá, dançando com o leque, movimentos diferentes, mas o “flaaap” do leque cortando o ar em sintonia. E a música, comovente e, às vezes, meio irônica. Eu juro que em algum momento eu quase identifiquei All By Myself.

O Balé foi apresentado no palco do Teatro Municial São Luiz. É lindão. Não tão lindão quanto o Teatro Nacional D. Maria II (nem quanto meu querido José de Alencar, em Fortaleza) mas cheio dos veludos vermelhos e ouro velho. Curti. Acho que na próxima semana volto lá pra ver o Balé da Cidade de São Paulo.






Penso que esse balé consegue ser tão marcante pra mim porque trabalha com o desejo, o questiona, o interroga, o acompanha e, principalmente, o contextualiza. Ele, desejo, é entendido como expressão individual de uma construção que se dá em um cenário coletivo. Não é do nada o tédio de Oniéguin, não é uma característica individual apenas a entrega e depois a firmeza de Tatyana ou a displicência da Olga. São materializações possíveis de uma dinâmica cultural.

Essa compreensão do desejo e da sua expressão - muitas vezes denominada escolha - me é cara. Porque me cansa um pouco o discurso da escolha como manifestação individual autônoma desenraizada. A escolha como um processo livre, consciente e autônomzzzzz. Sem classe, sem etnia, sem gênero, sem história nem geografia. E eu, que ando aí por perto das feministas, eu que me identifico no termo e sou, nele, identificada algumas vezes, me perturbo quando o termo escolha se torna a primeira escolha (rá), a lente de todos os fenômenos, a denominação ligeira pra legitimar toda e qualquer ação.

Então, pra mim, o deslizamento é simples: não é porque uma escolha é feita por uma feminista que se torna, automaticamente, uma escolha feminista (ou machista, quem trata isso como opções únicas esquece que não há simetria entre machismo e feminismo). Não é porque uma feminista fez uma escolha não feminista (ou mesmo machista) que ela se torna menos feminista por isso. Não é porque se questiona uma ação que se está questionando a pessoa. E, principalmente, não basta ser uma escolha livre, autônoma, refletida, consciente e tais e tais pra fazer, dessa escolha individual, uma demanda feminista. Isso não é deslegitimar trajetórias individuais, acho eu, mas entender que tais trajetórias não se fazem em abstrações e escolhas livres. Elas tem contingências, relações e determinações sociais. E tem visibilidade e interpretações que escapam ao controle de quem escolheu.

E aí entra, um pouco, uma forma de manifestação da capacidade que minha mãe e a Deborah Colker tem: ver, materialmente e adiante, as implicações mais amplas de uma opção. E eu, que sou um fracasso quando se trata de tecido, móveis ou dança, até tento no que se refere à cultura. Nem estou dizendo que acerto, estou dizendo que tento. Por exemplo, eu não acho que é igual – para efeito de cultura – uma mulher afirmar: sou biscate mesmo, e daí¿ de uma mulher afirmar: sou mãe mesmo, e daí? E essa diferença não passa por uma hierarquia pessoal minha (acho) mas por uma compreensão de que o lugar de mãe  - para a mulher - é o lugar legítimo e validado historicamente nas sociedades machistas e que demandá-lo (mesmo que a partir de uma ressignificação pessoal da maternidade) acrescenta pouco (acrescenta muito, acho, as questões de como maternar, se é possível pensar em cuidadores de forma mais comunitária, entender o lugar de objeto narcísico do filho investido libidinalmente, etc) e o lugar de biscate é uma reinvindicação do lugar marginal, do lugar desprezado, do lugar que é diminuído e deslegitimado como lugar de valor e solicitá-lo acrescenta perguntas, inquietações na cabecinha das pessoas confortáveis no status quo.

Sabe aquela frase: nada do que é humano me é estranho? Nada do que é humano, pra mim, é sagrado (e eu acho que tudo nesse mundão é humano, porque apesar da existência material ser determinante da linguagem, a linguagem forjada nessa interação dá sentido e significado e age sobre a materialidade). Então, nessa vibe da dessacralização, acho bom mesmo perguntar. Inclusive sobre as coisas que nos ofendem e porque nos ofendem. E não que elas estejam, a princípio, certas ou erradas, mas entendendo que até o certo e o errado são construções sociais e, a partir daí, entender um pouco mais a partir de que olhar estamos identificando como certo e errado.

Eu, por exemplo, ando chacoalhando várias certezas, colocando no sol, tipo cobertor mesmo, sabe? pra tirar o cheiro de guardado e, principalmente, pra ver se ainda me cobre. E, se interessa a alguém, chequei e O Chefão continua a bíblia perfeita e A Nova Onda do Imperador o melhor fornecimento de frases divertidas e reutilizáveis. E minha mãe ainda me impressiona.

E na sessão: você, leitor, quer fazer esta blogueira mais feliz, pergunto se alguém sabe como eu posso ter o balé inteiro: "de repente, não mais que de repente" que eu vi na Tv Cultura mil anos atrás e que era em homenagem ao Tom Jobim? Ou, se não posso ter, pelo menos se posso ver inteirinho de novo? Achei esse trecho no youtube:



3 comentários:

Mary W. disse...

Que post bonito. Gostei demais, refleti demais. obrigada.

Palavras Vagabundas disse...

Tanta coisa nem sei comentar. Adorei o passeio no jardim, flores dão alegria e cor, um inverno rigoroso faz com que admiremos o reflorescer em nós e na natureza.
bjs
Jussara

Cláudio Luiz disse...

bem achei dona Rita especial.
bem achei que devia ter ficado mais.
já "dancei" está música num espetáculo.

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