sexta-feira, 26 de abril de 2013

Peladonas


Eu queria muito ser mais sabida ou, pelo menos, ter uma memória melhor. Porque o ser humano já fez tanta, mas tanta coisa especial, né? E me escapa tanto por ser assim, meio burrinha, esquecida e desinformada. Mas o que não me escapa, ah, o que não me escapa. Eu me deixo levar. Inebriada. Feliz. Grata. Sou grata, por exemplo, pelas peladonas. Especialmente as peladonas limpinhas. 

Talvez o que mais goste em todas essas peladonas flagradas no banho seja a sensação de  espreitar a intimidade. Quase como se o olhar não estivesse presente na cena. 

As peladonas limpinhas que mais me tocam são as de Degas. Gosto dos seus corpos, tão banais, das poses triviais e despreocupadas, gosto da não glamourização. Há quem julgue que ele não valorizou a beleza. Eu digo que acho belo justamente a simplicidade. A forma como as imagens se apresentam me dão a sensação de atualidade, que flagro a mulher no momento exato em que ela age. E o olhar que ele nos convida a ter é sempre delicado, como se abrisse uma fresta, suavemente, pra não atrapalhar o momento presente. Por exemplo?


Tudo nesse quadro me agrada: a banalidade do gesto, a mulher indiferente ao nosso olhar, as cores do tapete (?),  a rima entre o fundo da tina e as cores da cortina lá atrás. Gosto do quadril da mulher, das linhas das costas, dos ossinhos do ombro, tão proeminentes ... A próxima também é banho na tina (banho de cuia, como a gente diz no Nordeste) e é daqueles que tenho vontade de olhar horas e horas. Não é bonito todos estes tons cobres realçando o cabelo dela? E o encanto dos objetos cotidianos, a escova, a jarra pra derramar água...? Ela, distraída, esfregando-se com a bucha (é uma bucha, né, nunca tenho certeza se é o cabelo ou um acessório). Gosto imensamente.


E Degas tem mais uma porção de mulheres tomando banho e fazendo pequenas operações ligadas a este momento, todas elas lindamente ignorando o nosso olhar e, ainda assim, hipnóticas:






Mas Degas não é o único chegado à combinação mulher e banho. Temos banhos que se debruçam na intimidade do mulherio, desde Betsabá às rechonchudas de Renoir, passando pela posuda de Stevens e pela descalça gordinha de Botero.


Rembrandt
Stevens

Renoir
Renoir












Botero

E tem o meu xodó, Hopper. Não que as suas mulheres estejam no banho. Mas há, no registro que ele faz, um quê que me faz lembrar das banhadinhas do Degas: a indiferença ao expectador, a postura cotidiana e banal, uma individuação que vem, justamente, do quão trivial é a existência. 

E há um a mais que me comove: enquanto a solidão das mulheres de Degas (me) parece ocasional, eventual, possivelmente passageira (consigo imaginar várias historinhas e interações para o pós-quadro), as mulheres de Hopper trazem uma solidão consistente, perene, que não se depreende apenas se aparecerem sozinhas no quadro. Gosto e me entristece como lhes adivinho o olhar que anseia, o vazio, a angústia.



Sinto uma ternura que chega às lágrimas quando olho as sapatilhas dela.  O quadro é todo lindo, a luz lá fora, os tons escuros cá dentro e a mulher quase translúcida, sem rosto que possa nos indicar o que sente. O que sei (invento!) vem da postura do corpo: uma ansiedade desesperançada que suspeito na inclinação do corpo contradizendo as mãos entrelaçadas, meio resignação, meio prece. O que sei (invento!) vem da poltrona tão perto da janela, o olhar voltado pra fora: o desejo de embaçar fronteiras, de fazer do dentro, fora ou trazer o que está fora pra si, mas isso em ombros que, cansados, parecem contar a história de negativas.

Mas, dizia: as sapatilhas. Tem tanto a se pensar a partir daí: uma pressa que não permitiu tirar essa última peça ao chegar da rua já em esperas? Ou a inconsciente escolha de estar pronta para um improvável encontro? o que eu sei é que vejo os pés e penso em danças que não foram, estradas não trilhadas e uma tristeza sem nome.





Mais janelas, né? Mais mulheres que olham, mais luz lá fora. E o banal, que já estava no sentar-se, assim, sem pose ou cálculo de efeito, aqui de novo presente: quase as sentimos, uma e outra, a vagar no quarto, fazendo qualquer coisa cotidiana e, de repente, parar, distraída, em frente à janela, espreitando o tempo e suas impossibilidades. Nuas (iam ou vinham do banho talvez?) não é o seu corpo nu que mais as revela, mas o que procuram além de si mesmas e do seu espaço.





 E quando não estão sozinhas, aí mesmo é que mais gritam solidões. Como se o encontro fosse uma das rimas possíveis pra o vazio. Todo mundo distraído (ado, ado, ado, cada um no seu quadrado), as pequenas ações triviais, tais como ler, funcionando como abismos, muros, cercas de si mesmo. Dividir os espaços não os aproxima, mesmo com as ligações sugeridas (o vestido dela, no primeiro quadro da cor, quase, da poltrona dele; a poltrona dela no segundo quadro da cor da roupa dele). E as janelas, as janelas, todo um mundo lá fora que promete (sem nunca cumprir), futuro ou memória, não descubro, não sei, angústia. 

Mulheres de Degas, de Hopper, comuns, cotidianas, eu, mulher de ninguém, minha mesma, a me desenhar sem técnica ou capricho, rascunho de carvão. Na janela, na varanda, vendo a banda passar.Peladona. Nua. À vista. A ver se alguém me vê. 

Ou são, janelas, espelhos?


7 comentários:

Iara disse...

Gostei demais, da seleção e do texto. Pra quem diz que não manja de artes plásticas, tô te achando uma crítica muito eloquente. ;)

Rita disse...

Que lindo, Lu. Gostei de tudo, mas principalmente do último quadro, aquele que você desenhou com suas palavras no (pen)último parágrafo.

Bj
Rita

Roseli Pedroso disse...

Maravilha de texto e imagens! Parabéns Luciana! Mergulhei em cada viagem que fez junto a essas mulheres que nos representam tão bem. E realmente suas pinceladas sobre você fecharam com chave de ouro.
Bjs

Daniel Nascimento disse...

Concordo com a Iara sobre esta tua crítica às artes plásticas. Achei tão terno esse texto. Lindo!

E acrescentaria à sua dúvida: janela ou varanda? ;-)

(e acho que falta uma pintura de uma peladona tomando um trago e fumando um cigarro nessa solidão toda aí - ou, ao menos, ainda não vi)

Luciana Nepomuceno disse...

Daniel, concordei com a demanda e já estou na busca ;-)

Verônica disse...

As janelas para mim sempre deram um tom de contraposição. Elas são o viés por onde se escapa do mundo interior, mas as pessoas parecem ignorá-las, mesmo quando olham para elas, como se não estivessem ali. Acho interessante o fato da luz quase sempre vir pela janela , no entanto, tem obras, onde a escuridão envolve o entorno e a luz vem de objetos banais, como Automat, de 1927, em que a moça encara a mesa, de um branco quase sepulcral, com o semblante de desistência.

Renata Lins disse...

não tinha lido esse antes....
e aproveitando o comentário da Verônica, eu diria que as mulheres de Hopper, pra mim, sempre tão olhando pra dentro. Mesmo quando não tão.

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