quinta-feira, 11 de abril de 2013

Eu, Quasímodo ou Paris III


 Quem me conhece pessoalmente sabe que “estabanada” é um bom termo pra me descrever. E não há nada mais anti-Paris do que isso. Entretanto e apesar, gosto muito de lá. E, suspeito, ou Paris me retribui ou é demasiado educada pra demonstrar o contrário.

Há muito para se gostar em Paris. Paris é bonita, do jeito óbvio, com uma arquitetura encantadora, ruas largas, jardins cativantes até no inverno quando se vê apenas a promessa de cores. Paris é, também, bela, do jeito que se revela no entre, um pouco terrível em suas inesperadas sombras e vazios. Paris tem história, aquela com h maiúsculo e antonietas na sacada, e tem também crianças andando de bicicleta bem ali, no parque da esquina. Mas Paris é, sobretudo, discreta, e sua paleta de cores recebe o vermelho ou o laranja, por exemplo, como excrecências e contraponto ao seu regular e comovente conjunto: preto, bege, dourado. Paris faz shhh! é só você parar um pouco que você escuta. E sempre me lembra que sou demais: grande demais, barulhenta demais, esquecida demais, deslumbrada demais, que gesticulo demais, rio demais, bebo demais. Paris faz um ar blasé mas fica me fitando, impressionada com os excessos. Eu sei que fica, nem adianta virar a cara pro outro lado e tentar disfarçar. De alguma forma, é como a relação Quasímodo - Notre Dame - Paris. É tudo lindo demais, grandioso demais, solene demais, não combina com a gente. Mas não dá pra imaginar o Quasímodo em outro lugar, né? Pois, quando estou lá, estou. E em nenhum outro sítio.

Há, pois, muito do que se gostar em Paris. Mas se eu tivesse que dizer, assim, na bucha, acho que o que eu mais gosto é a intimidade com o tempo. Como se ele tivesse ali, de bobeira com a gente, tomando um copo no café. Como se sua passagem não fosse nem cruel nem benfazeja, apenas um colorido a mais. 


Tempo do que pode ser esquecido

Tempo do que não cessa de ser lembrado

Tempo das Ausências

Tempo do que ainda vem chegando


Tempo do que parece sempre

Tempo do que já foi


Tempo, de novo


E apesar do tanto que há pra se gostar em Paris, ir embora não me deixa triste. Um tanto porque é sinal que lá estive. Outro tanto é pela alegria intrínseca à possibilidade de poder voltar. E ver, com olhos sempre novos, a Paris que me espia. E o tempo, ali, rindo, como na canção, diz que somos iguais, se eu notei, pois não sabe ficar e eu também não sei. E eu calo a resposta, cantarolada no peito em vôo...



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