sexta-feira, 19 de abril de 2013

Distâncias



Não tenho tempo, corre, corre, rápido, vai, ligeiro, não tenho tempo, não dá, não cabe. E, de repente. Todo esse nada diante de mim. Tudo errado, hora, lugar, jeito. Errada, torta, manca, esquerda, todos os planos feito papel amassado no fundo da bolsa e o tempo, alto, largo e fundo, feito zombaria.

Tempo material, pedra na vidraça, cotoco, careta. Tempo que sobra, que cutuca, que pergunta, que é, impávido, e eu aqui, sem saber, sem fazer, sem dizer. Querendo o “e se”. O mundo paralelo. Aquele dos finais felizes. Das coisas que encaixam. Do universo que conspira.

Passa tempo tic-tac, tic-tac passa a hora, podia aproveitar, útil ou gozo, tempo, tempo, tempo, vou te fazer um pedido, mas só quero o que queria, tento e agora nada me tenta. Vejo a noite se fazer lá fora, se fazer em mim, manta áspera, limite. Noite sem suspiro, sem anseio, sem vontade. Sem soluço, sem tristeza, sem agonia.

Penso nisso amanhã, penso nisso amanhã, scarlett tupiniquim. Mas o que faço com todos esses minutos que insistem em não sair do peito?

*****

E sou, ainda a menina de rosto colado na vidraça. Todas as manhãs, a confeitaria com seu enorme e colorido convite de sabores que só posso adivinhar. Menina, nunca deixo de ser menina de nariz colado naquela vitrine, o desejo se fazendo saliva. Tão perto: nariz, vidro, sabor. Na ponta da língua o gosto do quase e a certeza do nunca escorrendo em sal.

*****

E tem esse embaraço que, tal como a tristeza, não sei carregar sem sentir que é desnecessário e desconfortável fardo.  E agora que o sabes, já não há como ignorar o cadáver no jardim.

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