sábado, 13 de abril de 2013

A minha. A deles. E o polvo.


Eu gosto muito de comer. Algumas vezes até gosto de comer muito, mas esse não é o foco. Gosto do que a comida me oferece de prazer, as texturas, sabores, temperaturas. Gosto também do que ela me conta sobre hábitos, relações, cultura, contexto.

Como, quando, onde e o que comemos narra, de uma certa forma, as nossas escolhas, padrões, valores e relações enquanto sociedade. A forma como preparamos, consumimos, servimos e todas as ações implicadas no comer é parte da nossa identidade como sujeitos e como grupos, acho.

 A Nikelen me disse muito nesse post em que ela lindamente esclarece como comida é nossa “cola” nacional. Sim, eu sou dessas: das que come falando em comida, que ao planejar uma festa tem na comida sua questão principal, das que faz amigos ao redor das mesas, das que mantém seus vínculos familiares partilhando cafés e almoços e jantares, das que cozinha pra materializar seu amor.

A minha cozinha é a das sobras. Tanto no sentido de que, tal como o post indica, sempre se faz um “a mais”, se depreende uma beleza do excesso, como é a cozinha das sobras no sentido de saber que há mais sabor no dia seguinte, de aprender a aproveitar o que restou, de inventar utilidades e combinações para as porções que ficaram. É o querido restô d'ontê.

A minha cozinha alheia – ou seja, o que procuro quando não como o que eu mesma fiz – é a diferença. Quando viajo, então, é uma alegria. Eu sempre procuro comer as coisas que desconheço. Na inspeção do cardápio, me atrai a possibilidade de um sabor novo, uma combinação inspiradora, um tempero diferente. Morar em Portugal, nesse contexto, tem sido uma festa constante. Comer coisas que desconhecia (açorda, alheira, francesinha do Porto), comer em combinações inusitadas (carne de porco junto com frutos do mar), comer em proporções diferentes (não um fio de azeite, mas boiar em azeite), comer o novo, o quase familiar, o completamente estranho.

Foi nesse cenário que resolvi comprar (e comer) o polvo. Fazer a combinação minha própria cozinha alheia, por assim dizer. Um polvo é um lance grande, não dá pra uma pessoa só (quando essa pessoa sou eu) comer de uma vez. O polvo já vem com garantias de sobra. E digo cozinha alheia porque apesar de já gostar de comê-lo no Brasil, foi aqui que ele passou a fazer parte da minha "rotina" alimentar. Enfim, o polvo. 



Claro que eu não sabia o que fazer com ele, daí dá-lhe procurar dicas na internet, conversar com amigas (brigada, Vevê, sua linda), tentar lembrar conversas esparsas do passado... enfim, selecionei as dicas mais fáceis e que tivessem menos riscos de eu estragar tudo. Depois que fiz, descobri mais informações legais, mas as que usei me serviram bem. 

Eu não precisei limpar meu polvo, ele veio limpinho e bonitão, daí apenas passei bastante água corrente. Para que ele não ficasse borrachudo e mantivesse uma cor bonita e tal, fiz o seguinte procedimento: uma panela de água fervente com uma cebola inteira dentro e uma panela de água gelada com pedrinhas de gelo. Segura o polvo pela cabeça, mergulha os tentáculos na água fervente por uns dois, três minutos, depois mergulha na água gelada causando um certo choque térmico. Repete isso umas três vezes, depois mergulha o polvo inteiro na panela com água fervendo e deixa cozinhar por cerca de 40 minutos (espeta o garfo e descobre se está bom). Quando estiver cozido, retira imediatamente da água (que ficou vermelhinha. Ah, não joguei a água fora pois sabia que ia me servir na confecção de algum prato).

os tentáculos encolhem no contato com água fervente











Agora a comilança. Fiz primeiro uma saladinha de polvo. Cortei um dos tentáculos, temperei com azeite (bastante azeite), sal, pimenta-do-reino moída, cebola cortada muito fininha, alho amassado, salsinha. Ficou assim:



No dia seguinte, segui com o polvo os passos que grande parte dos pratos que encontrei na net recomendavam. Com batatas ao murro, tadinhas.

Selecionei mais tentáculos e deixei reservados.
Cozinhei batatas com sal e depois as esmurrei.
Batatas esmurradas e o polvo, esperando pra ir ao forno.
Como se percebe, muito azeite. E sal grosso nas batatas.


Na frigideira: pimentão vermelho em tiras,
 cebola,  alho. Depois de  bem refogados,
um pouco de vinho branco.
Uns cogumelos e tudo vai pro forno.


arrumadinho no prato, fica assim
(mas eu comi tudo que tinha no tabuleiro)
 A partir daí complicou um pouco, porque as demais receitas que encontrei ou demandava ingredientes que eu não tinha, ou precisavam de habilidades que eu não tenho ou eram demasiado parecidas com as anteriores. Aí eu resolvi inventar mesmo (mas usando as informações já lidas, claro). 

Primeiro cozinhei as batatas na água do polvo, pra pegarem o sabor (e funciona). Elas ficam com umas manchinhas vermelhas, uma lindeza. Aí reservei.


Depois cortei o polvo em pedaços de tamanho médio e os refoguei com azeite e shoyu. Juntei com a batata e deixei os dois esperando. 


 A seguir cortei o pimentão vermelho em quadradinhos miúdos e refoguei no azeite até que os pedaços começaram a murchar, juntei alho cortado fino e acrescentei os pedaços de tomate sem pele e sem semente, ajustei o sal e deixei virar uma pasta. Quando estava quase pronta, coloquei cogumenlos (sim, eu coloco cogumelo em tudo) e manjericão.



Quando a pasta vermelhinha e cheirosa estava borbulhante, desepejei no prato que tinha já as batatas e o polvo e, prontinho, tudo quente e gostoso. Umas folhinhas a mais de manjericão - porque eu adoro. E comer, comer.


Ainda tem um resto. Sugestões de como fazer? 


4 comentários:

Allan Robert P. J. disse...

Eu gosto de comer e esse é exatamente o foco: deu fome!

:)

Palavras Vagabundas disse...

Ler esse post antes do jantar com fome é quase um atentado! Cheguei a sentir o cheiro do azeite.
bjs
Jussara

Rita disse...

Lu aventureira.

Jorge Ramiro disse...

Octopus! É minha comida favorita e comida favorita do meu cão. Toda sexta-feira eu cozinho polvo. Meu cachorro é um grande companheiro, ele me faz muito feliz. Ele é muito educado e sempre usa seus tapetes higiênicos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...