sexta-feira, 22 de março de 2013

Se Eu Soubesse Amar

 Você me pergunta sobre o que fiz no dia e eu reluto, quase não respondo. É que as miudezas me inibem.  Mas hoje me deu vontade do teu colo, do teu olho, de você. De te dizer que acordei com o pé frio, me encolhi na cama e fiquei vendo o sol brincar na janela. De contar que fiz café e ele estava tão ruim, mas tão ruim, que eu ri alto e sentei no sofá, joelhos dobrados, a xícara na mão, um livro na outra, mas sem registrar as palavras, só lembrando seus movimentos fazendo o pequeno almoço em qualquer hora que seja a nossa manhã. Depois, troquei de roupa, desci e fui ao mercado. O grande, perto da igreja. Andei, vendo os peixes, as verduras, os queijos. Sentindo os cheiros. Ouvindo os barulhos, as conversas. Comprei morangos. Havia sol, mas o vento era frio e assanhava meu cabelo. Como você faz. Respondi e-mails, perdi-me em redes, fiz, do computador, máquina de escrever. Senti sua falta. Pensei em almoçar, mas preferi comer os morangos que sujaram meus dedos, mancharam minha roupa, envermelheceram meu queixo e por um instante foi o mesmo instante em que os provei na sua boca. Gosto da sua cozinha. Coloquei roupa na máquina, lavei a louça do café. E começou a chover. Forte, com a água batucando na janela e criando desenhos aos quais eu tentava dar sentido. Não fiz mais nada, só sentei no sofá vendo a chuva, com uma certa vontade de chorar, nem tudo saudade, nem tudo tristeza, um aperto de ser bonito. Depois sol, sol, sol e rua. Muda o tempo. Presente. Vou ao Jardim onde outras cores além do verde e marrom já começam a fazer algazarra. Bebo um café melhor e rio da bagunça dos patos na pequena lagoa. Abro a bolsa, encontro e folheio o livro, O Livro, rio baixinho do jogo de palavras quando o ofereceu como presente, assim não podia mesmo errar. Acaricio as páginas, não leio, é um objeto-portal. Rio mais um pouco das minhas tolices. Volto pra casa preparando mentalmente o jantar: massa com cogumelos e bacon. Paro na vendinha da esquina e compro um doce que não como. É noite e a lua brinca nas pequenas poças d’água que, como um jogo de amarelinha, imitam minha secreta calçada de tijolos amarelos. Se eu soubesse amar, seria assim: pulando de um pé só, um vidro de doce no armário e acordar de mãos dadas.







A distância faz miragens. 

E se pudesse ser o antes? Antes do jardim, do cigarro, do café. Antes do querer. Antes. E se pudesse voltar a palavra, o abraço, o aprender? Sinto falta do quase. 

Se não for a boca do poço ou um trem vindo em minha direção, parece que há luz no fim do túnel.

Talvez um pouquinho de mar. Sal e um azul em mim. O que permanece justamente por ir e vir. 

É que sua voz faz cócegas no meu juízo.

E eu sinto tanta falta de ser velha. Eu quero meus anos todos e quero mais, por favor, senhor relógio, dá-me logo o conforto de mãos dadas na varanda e a história do mundo desenhada no rosto. Os dias de 18 anos me cansam.

Eu sei de todos os finais. Mas não tenho pressa. E sorrio, silenciosa, quando você faz a promessa: todo dia.

Seguro com as duas mãos meu guarda-chuva colorido e sussurro pra corda bamba: já estou pronta.

Café com leite. Pão com manteiga. Mastigar devagar a saudade.

Na cama cabe um mundo. 

7 comentários:

Renata Lins disse...

Eita, quanta boniteza junta... que a gente vê e sente e tá aí pra (quase) viver isso tudo contigo.
Ainda mais que.
Né.
Muitos muitos beijos.

P.S.
Na hora em que vc tuitou esse, na horinha, eu bem tava tuitando o do Biscate. Encontros.

Tina Lopes disse...

Amei, Lu.
(e você já fala "pequeno almoço"? - tá dominada)

Izabela Cosenza disse...

que bonito. seu texto foi companhia perfeita para o meu café da manhã.

beijodoce

iza

Palavras Vagabundas disse...

Lindas reflexões!
"Na cama um mundo"
bjs
Jussara

Iara disse...

Que delícia. O post todo. <3

Elnath disse...

Que palavras lindas...é possível vivenciá-las mentalmente.

Beijos

Ana disse...

Meu Deus, você parece que você está num plano mais elevado que outras pessoas.
Não acredito em coincidências, mas vou deixar eu ler e entender se é realmente o que eu estou pensando.

Você não é qualquer uma, não é qualquer pessoa que pensa desta forma que escreve e pensa tais coisas como você.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...