sexta-feira, 15 de março de 2013

Era Uma Vez


 Na contramão da história, eu gosto dos contos de fadas. Gosto deles ainda mais arcaicamente, na sua versão de tradição oral. De preferência, na hora de dormir. Podem ser os obviamente europeizados chapeuzinho vermelho, joão e maria, ou os anordestinados que trazem um menino de ouro, uma tolha mágica para quem se diz “põe-te mesa!” e há comida em abundância, uma mulher que vai buscar água com pote de barro.

Fecho os olhos e lembro a minha avó contando-nos histórias à beira de uma fogueira. Lembro o riso na sua voz, o brilho no seu olho e a recomendação: não se pode contar história "de dia" senão cresce um rabo. Mas essa lembrança ainda é eco de outra que só suspeito sem materialidade: minha mãe ao lado da minha cama, passando a mão nas minhas costas e sucedendo narrativas. 

É também por isso que gosto dos contos de fadas. Pelo que foram na minha própria história. Mas não só. Penso que eles oferecem uma possibilidade de vivenciar, simbolizar e organizar sentimentos que costumam ser doloridos e dolorosos e, em narrativas, podem ser permitidos e incorporados à subjetividade.

Sem falar que o “e foram felizes pra sempre” é tão tranquilizante. Pronto, resolvido. Há quem pense que isso é alienante já que a vida nunca é, assim, estática. Não sabem que é apenas um tempo pra respirar. Logo, no prazer da repetição, os protagonistas estarão – de novo e de novo e de novo – enfrentando as dificuldades, perdas, desafios, dragões ou fome, medo, medo, medo.

Esse devaneio aí é pra dizer que ano assistindo Once Upon a Time. No ano passado vi, esporadicamente, alguns episódios e achei bem médio, tendendo para o chinfrim. Deixei de lado. Mas resolvi dar outra chance (agora que estou banida do reino encantado) e me surpreendi. Não que eu tenha achado melhor interpretado ou qualquer coisa assim. Mas é que, vendo em sequência e tal e tal, percebi que os roteiristas podem até ser fraquinhos em enredo mas sacaram a essência de um conto de fada com brilhantismo. Em cada história vamos vislumbrando o medo da perda, o desejo de reencontro, as provas que um herói precisa passar, está tudo lá. 

Estou apreciando a forma como as histórias repetem um eixo de forma discreta. A sensibilidade como é usada a repetição pra dar consistência de história única a todas as tramas sem ser uma mimetização dos eventos, mas do mote para os eventos. São todos aqueles pais demandantes, aquelas famílias apartadas, aquela impossibilidade de ser completamente responsável pela completude e felicidade do outro. 

E, o mais legal, mais legal, mais legal: a ideia de que, enquanto estamos presos na nossa narrativa sem reconhecer seu padrão, sem reconhecer os limites, sem reconhecer o que repetimos à exaustão, somos incapazes de mudar, de passar o tempo, de encontrarmos a possibilidade do feliz. 

Robert Carlyle

E se mais nenhum motivo tivesse, só assistir Robert  Carlyle já estaria valendo a pena. Seu personagem consegue transitar pelos mais diferentes estados de espírito e sentimentos com consistência e aquele necessário pé na magia.

2 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Lu, ando preguiçosa e completamente sem qualquer humor, sendo assim o senso crítico corre a mil, com e sem razão, vi alguns capítulos de Era uma vez e achei fraco e chato, só o guarda-roupa se salva, às vezes... depois desse post vou tentar dar uma chance a ele.
bjs
Jussara

Lunna Guedes disse...

Assisti a essa série "once upon a time" - gosto mais dito em inglês. Em portugues fica estranho. Eu sou uma pessoa sonora.
Enfim, não gosto de conto de fadas, mas gostei da maneira como as coisas se desenharam por ali. Assisti a primeira temporada toda de uma vez porque nunca me lembro os dias que a televisão espera que você assista as coisas que ele querem mostrar. rs
Amo o Carlyle e gosto muito da atriz que faz a personagem principal desde os tempos de House e foi por causa dela que fui pra frente da televisão, mas como pouco entendo de contos de fada, as vezes acabo perdida nas idas e vidas do real para o imaginário - mas isso é objeto comum pra mim.

Ps. Mas achei "bastante original" as maldades da rainha má serem culpa da mãe dela. rs Dio santo, mas até nos contos de fada as mães carregam as culpas dos erros dos filhos.

bacio

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