terça-feira, 19 de março de 2013

Dos Filmes. Das perspectivas. E o fio que garante.


Além disso, Mathilde é uma otimista.
 Tem para si que, se aquele fio não a levar ao seu amante, 
paciência, não importa, 
ela ainda pode se enforcar com ele.


O cinema (o cinema são os filmes, eu aprendi, eu repito) me ajuda a pôr a vida em perspectiva. Pelo menos a minha. Todas as pequenas dores fazem uma história. Todas as imensas alegrias. Todo desvio. Todo encontro. Grandes crimes. Minúsculos atos. Jornadas ou acasos. Qualquer coisa. E a minha vida aqui, ao lado e eu tentando dar conta, dar sentido, fazer narrativa.

Este fim de semana vi cinco filmes daqueles que puxam o tapete e, justamente por isso, colocam tudo no lugar: medos, amores, saudades, projetos, necessidades. Daqueles filmes que demandam que eu seja e diga e pense e sinta. Não são, todos eles, bons da mesma forma, com as mesmas qualidades técnicas ou pelos mesmos motivos. Mas me chegaram de uma forma intensa.

Vi: Nada a declarar, O Jardineiro Fiel, A estação, As irmãs de Maria Madalena, Um longo domingo de noivado.

Nada a declarar é um divertido filme sobre as relações entre dois homens e o surgimento de uma inusitada e necessária amizade na fronteira França-Bélgica pré-euro. Com um pé (e algumas vezes com os dois) na comédia pastelão, com situações que não só flertam, mas namoram e casam com o ridículo humano.




As Irmãs de Maria Madalena conta a história de quatro meninas/moças/mulheres que são internadas junto às freiras da Misericórdia (vejam a ironia) em conventos/colégios que vieram a ser conhecidos como lavanderias madalenas. Nestes locais as meninas-moças-mulheres trabalhavam sem remuneração e eram alvo de torturas físicas e psicológicas. Seu crime¿ A sexualidade, claro. Por exemplo, bastava ser estuprada, mãe solteira ou, simplesmente, ser bonita para que isso tudo se tornasse legítimo. As Irmãs de Maria Madalena é um filme de horror. Porque é aterrorizante lembrar que estas lavanderias funcionaram até 1996. É aterrorizante pensar que as famílias internavam voluntariamente filhas, irmãs, sobrinhas por não poder aceitar a liberdade e o prazer feminino. É um filme de e sobre ódio. Que joga na nossa cara a forma cruel e desumanizante com que a sociedade lida com a sexualidade feminina. Um filme sobre a escravidão de mulheres. Não há muito tempo, mas ontem. Um filme sobre a Igreja que legitimou e legitima esses abusos e, no caso, ela mesmo os impetra. Um filme que nos cobra esse crime. Hoje. Sempre.

N’ A Estação eu reencontrei o Peter Dinklage (o querido de Guerra dos Tronos) e um dos temas que me é caro: a solidão de ser. A solidão que é agravada, qualificada, dimensionada pelo grau de pertinência a determinados padrões socais. A história é, aparentemente, simples: Peter recebe uma herança que consiste em uma pequena e desativada estação de trem. Ele decide mudar-se pra lá e ter a menor quantidade de contato humano possível já que esse tipo de dinâmica não costuma lhe ser favorável. E é lá que ele conhece o adorável Joe e mais algumas pessoas que nos fazem pensar que, sim, a solidão é a característica humana por excelência mas que a solidão acompanhada é um vislumbre da possível felicidade.

Se você não viu “O Jardineiro Fiel” veja, veja, veja. Eu tinha lido o livro e achava que não precisava ver o filme. Bobinha. O filme tem tudo que precisava ter: suspense, crítica social, densidade política, abuso de poder, questões financeiras e tensão, muita tensão. Tem também uma vibração que eu credito à direção do Fernando Meirelles, com uso de cores, uma câmera ágil e meio inquieta e nada do sentimentalismo que um diretor ou outro podiam cair na tentação de usar. É uma história de amor. De amor um pelo outro. De amor à verdade. De amor ao diferente. Um filme de entrega. Tão bom. Tão necessário. Tão dolorido.

E, de livro em livro, cheguei a “Um Longo Domingo de Noivado”. Quando comprei esse livro nada sabia da história, apenas gostei do nome. Me comoveu. E quando vi o filme, um encanto semelhante. Há tanta coisa que me toca que nem sei como listar. Os jogos mentais que Mathilde faz “se acontecer X então Y” são de uma tal vulnerabilidade, de uma ternura...é daquelas muletas necessárias. Os personagens que contem um mundo, tão vastos, tão inexplorados, tão belos e horríveis e trágicos e simples. A esperança, essa droga perigosa. O esquecimento. Tudo com interpretações tocantes e uma fotografia arrebatadora. Os horrores da guerra. O horror da incerteza cotidiana. As imensas tragédias. As pequenas perdas. A cena do farol, que justifica todo o amor, toda a espera, todos os amores que você e eu vamos sentir ou já sentimos, todas as lágrimas que choramos, todos os sonhos que cultivamos. Gostei mais, muito mais, desse filme (que conta com a mesma beleza e talento de Audrey Tautou e direção de de Jeunet) que do Fabuloso Destino de Amélie Poulan.

O cinema me ajuda a pôr minha vida em perspectiva. Me faz lembrar que, fora os filmes, é isso mesmo: um dia e outro e outro e outro e, se puder, um pouco de alegria. Enfim, para além de Pollyana, me descobri Mathilde. Seguro, firme, o fio. E sigo otimista. 




Um comentário:

Rita disse...

Ah, Lu. Que vontade.

Já vi Jardineiro, mas não os outros. Peter? Quero! As irmãs, idem. E Um Longo Domingo. Se não estiverem disponíveis na minha locadora, volto aqui pra te xingar. Esteja pronta.

bj
rita

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