quarta-feira, 20 de março de 2013

Abrindo o Jogo


O mundo está mudando. E rápido, acrescentam alguns. Sob os holofotes: é a globalização! é a globalização! (que é o nominho mais querido pra tratar da mundialização do capital, mas, enfim, divago) e, claro, as tecnologias de informação e comunicação. Pra muitos, um fenômeno natural, autônomo, unidirecional e sem solução, só nos resta ou aplaudir ou lamentar. Pra outros (affe, esse povo que gosta de problematizar) um contexto em que as relações sociais e de trabalho se reconfiguram de forma complexa demandando um posicionamento político (e acadêmico, parte que me toca nesse latifúndio) crítico. 

Estas mudanças todas aí acontecem sob a égide da reestruturação do capital, dizem eles, digo eu, um negózi batizado de capitalismo flexível que tem seu ciclo de acumulação baseado principalmente na especulação do capital financeiro. Na onda da flexibilidade surfam a produção flexível (oi toyotismo, oi inserção de tecnologia de base microeletrônica) as organizações flexíveis (reinvenção descontínua das instituições, especialização flexível e concentração do poder sem centralização) e, claro, a gestão flexível (todo mundo virando superhomem pra trabalhar de forma livre, flexível, comprometida e colaborativa djá e olha a reengenharia, reestruturações e enxugamentos fungando no seu cangote). E se tá tudo bem pra alguns, olha, pra classe-que-vive-do-trabalho o buraco é mais embaixo: dessa onda constituem-se novas formas de subjetivação qualificadas pela incerteza, sofrimento e patologias sociais.

Nesse cenário tem quem lamenta e tem quem celebra o fim do trabalho. Clauss Off, André Gorz e Dominique Méda são uns dos que dizem: mané trabalho, ficou pra trás, o lance agora é fazer romance (tô de brinks, dizem que é preciso encontrar outras atividades de organização social e outras categorias de análise). Mas tem aqueles, os resistentes, que dizem olha, pera um pouco, não é porque o capital necessita cada vez mais de menos trabalho estável e de mais formas diversificadas formas de trabalho parcial, terceirizado, crescentemente constitutivos do processo de produção capitalista que o trabalho e seus sentidos coletivos e individuais deixam de ser relevantes seja na estruturação individual, social como nas análises dos processos micro e macros. Ainda é trabalho, mesmo precarizado, diluído, explorado, segregado. 



É com essa galera zoadenta que eu me alinho, ainda acho o trabalho mediador das relações homem-natureza, homem-ele mesmo e homem-cultura, caracterizando-se como categoria cuja centralidade se dá tanto na esfera social, política e econômica. É por isso que com a minha pesquisa pretendo discutir o trabalho e as relações de trabalho em sua inscrição histórico-cultural, buscando compreender os sentidos conferidos ao mesmo no contexto do capitalismo em sua fase flexível, desde a ótica de quem o realiza. Hein? Quero compreender quais os sentidos que os trabalhadores da indústria automobilística conferem ao seu trabalho, ora. 

Podem perguntar, podem perguntar: 

e porque sentidos? porque não significados ou representações ou whatever? porque eu simpatizo com uns russos aí que marromeno indicam que os significados são os lances construídos coletivamente em um certo contexto histórico, social e econômico (no meu caso, no Brasil e em Portugal, em tempos de capitalismo flexível), e os sentidos se caracterizam como produção pessoal decorrente da subjetivação dos significados coletivos, a partir de experiências concretas. Ou seja, encontro o significado nos sentidos, mas não só. Encontro a forma como isso tudo é vivido pelo sujeito. legal, né?

e porque os trabalhadores da indústria automobilística? Porque esta é uma indústria que sempre esteve imbricada na forma de dividir o trabalho no capitalismo e, assim, constituir as relações dele advindas, é só a gente lembrar a denominação dos movimentos de organização do trabalho: fordismo, toyotismo. E porque dois países em dois continentes diferentes¿ Porque uma coisa que me encuca é o discurso mainstream sobre a globalização como um fenômeno homogêneo. Tenho cá minhas suspeitas que devido ao momento histórico, economia, porte, relações políticas, tipo de sindicalismo e vários outros elementos constituintes da vida social, os sentidos atribuídos terão aspectos em comum e outros bem distintos, escapando da lógica do discurso único da literatura prevalente. 

E como é que vai acontecer essa pesquisa? perguntando, ora. Acho que tentar compreender como as pessoas, sentem, pensam e agem ultrapassa a possibilidade da quantificação, porque um número é sempre a representação de uma representação, né. Daí eu pergunto, as pessoas falam, eu escuto, transcrevo, interpreto, volto lá, faço grupos focais, pergunto se é por aí e assim a banda toca. 

Dia 15 tenho que apresentar essa ideia aí toda em slides bonitinhos e bem acadêmicos. Se alguém que leu este post tiver entendido, me diz aí, já ajuda minha autoestima. Beijos, me liga.


2 comentários:

Caminhante disse...

Uia, adoro quando você fala sério.

Rita disse...

Eu escrever alguma coisa, mas a moça do quadrinho me fez pensar...

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