sábado, 9 de fevereiro de 2013

Vício Solitário

Escrever é solitário. E, ao mesmo tempo, é uma algazarra. Já pensou no tanto de gente envolvida quando a gente simplesmente pega num lápis ou toca numa tecla do computador? O mundão de gente? Todas as pessoas envolvidas na criação dessa tecnologia (ou você acha que pegar no lápis assim como a gente pega  é um dado natural?), depois todas as pessoas que aprenderam, aprimoraram, transmitiram tal tecnologia até chegar bem aqui. Sem falar nas que construíram e constroem os instrumentos mediadores. Todos os trabalhadores das fábricas de lápis, de canetas, de papel, das madereiras, das indústrias de notebooks…

E não só, tem aquelas pessoas envolvidas diretamente na nossa – na minha - aprendizagem da escrita: pais, professores, coleguinhas, Daniel Azulay, escritores… E a linguagem? Ela só existe encarnada, não é? Em pessoas. Pessoas que a construíram, remodelaram, usaram, abusaram. Cada palavra que escrevemos – que escrevo – passou de língua em língua, de letra em letra. Todo esse povo envolvido no que chamamos de trabalho solitário. E nem falo (já falando) de que nosso tempo, nosso lugar, nossa classe social, nosso entorno ajuda a moldar sobre e o que escrevemos. Uma multidão.

Não diria que isso se acentua na escrita acadêmica, mas certamente ganha nuances específicas. Não só tem todo esse povo envolvido como o estilo demanda que nós chamemos outros para falar em nosso lugar ou com a gente. Seja em forma de citações, orientação, debates em congressos, avaliação em revistas, o certo é que o dito se modifica no processo. Solitário, né? Pois bem.



E, ao mesmo tempo, ah, aquela procura da palavra exata. A busca da forma certa de estruturar um parágrafo. A noite inteira atrás da ligação mais redonda entre um capítulo e outro. A nossa – de cada um – escolha de palavras, de formas, as interpretações, os nexos, as construções. Únicas. Peculiares. Particulares. Aquela alegria de ler uma página que diz com precisão (no momento, no momento) o que queríamos dizer. O sofrimento inquieto de não “fechar” uma ideia. A angústia do não todo. As incertezas. A sensação de agora vai. Tudo ao mesmo tempo em que a vida ainda corre e as pessoas estão até interessadas no que escrevemos mas não com a entrega, o mergulho, o foco, a energia…o tempo que gastamos nisso.  Isso que é quase nada: um artigo, uma dissertação, uma tese. Isso que é quase tudo: o que podemos dizer. O que queremos dizer. O nome certo pr’aquela hora em que é preciso colocar o ponto final e a gente não sabe se, mas segue: solitária. Escrever é solitário, saber quando parar de escrever é ainda mais.

Um artigo, uma dissertação, uma tese, nossa escrita encarnada, cristalizada. Solitariamente escrevemos. Essa solidão de ser parte. Contradição mais bonita e dolorida.

E a seguir, os outros, o mundo, mais gente. O salto pro colo de alguém: terminei! Os abraços: terminei! As leituras, as congratulações, as críticas: terminei! O solitário se fazendo o que sempre foi: coletivo. É no Outro, no olhar do Outro que se faz o sentido.

Não sei se algo disso correu assim pra minha amiga Marília. Não pretendo falar por ela. O que eu queria era dizer, amiga, nessa minha solitária escrita feita de uma multidão de antes e depois e durantes, é que fico feliz com você e por você. Quero é dizer que é festa no meu coração. Que é orgulho de te ter na minha vida. Que eu sei, desta solitária certeza feita de multidões, que teu texto é.  

Meu parabéns entusiasmado, emocionado, meio atrasado. Minha admiração feito letra por não poder ser abraço. E na hora em que os membros da banca disserem: apresentamos a Mestre Marília, pode escutar meu YUUUUHHHUUUU!!!! 



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