domingo, 10 de fevereiro de 2013

Sobre o engenho humano, ciência e a latinha de leite condensado




Eu admiro o engenho humano. Sou fã. Engenho que faz surgir mitos, as pirâmides, a penicilina, Moby Dick, as pipas. Assim, tudo junto mesmo. Mas, pô, Luciana, a ciência no meio do balaio. Pois é. Considero que o conhecimento produzido de forma científica é jóia. Belezinha mesmo. Afinal, né, o leite condensado, o sabão em pó, pô, o avião, o avião! Mas considero o conhecimento científico um conhecimento a mais. Eu sei, heresia das heresias, ainda pior porque ganho a vida com isso, mas fazer o quê, é o que penso.

O conhecimento científico é um conhecimento a mais, um conhecimento com o qual lido da forma como acho que se deve lidar com o saber: com perguntas. E com uma em especial: a quem serve? Porque faz tempo aprendi: conhecimento é poder. E o poder não é - apesar das cortinas de fumaça que insistem em espalhar e das cinzas nos olhos que insistem em me fazer chorar – uma abstração. O poder se encarna. Então quando se produz conhecimento ele advém de um lugar concreto e serve, concretamente a alguém, a um grupo, a uma classe. A ciência – ou ainda, quem a faz - é expert nisso. Nem falo de outra pra não chatear ninguém, lavo a minha própria roupa suja: cês acham que a psicologia começou a ganhar status “caus’ de quê?” Hoje está aí, libertária em algumas frentes, tem até psicologia de base materialista dialética, mas eu sei que você sabe que eu sei que você sabe que lá bem ali o que se queria mesmo era responder: como ensinar a trabalhar? como motivar? como apaziguar? Sem esquecer que é de menino que se torce o pepino.



A ciência não existe independente dos homens e mulheres que a fazem. E os homens e mulheres não existem independentes da classe social, momento histórico e lugar em que vivem. Ciência precisa de grana. E produz grana. É meio o que o Caetano cantou sobre o dinheiro: ergue e destrói coisas belas. A ciência precisa de um discurso que a legitime. E legitima, via discurso, o que a sustenta.

Afinal, do que estou falando? Estou falando que a ciência, assim como o conhecimento construído a partir do seu método, não é pura e isenta. São, um e outro, parte e formadores de processos históricos, ideológicos, sociais e políticos. Assim o que escolhemos, como cientistas, pesquisar, conta uma história para além de si mesma, além do momento imediato, narra os valores, as inquietações, os conceitos, as diretrizes do grupo hegemônico ou contra-hegemônico que sustenta – de forma direta ou indireta – os meios de produção de conhecimento e disseminação de informação.



É claro que todo este post não me faz uma anti-ciência. Acho que a ciência, como a temos construído, formado, deformado, transformado é um ganho significativo para a humanidade (não podemos esquecer o leite condensado, né gente). Não é deslegitima-la perguntar sobre, acho eu. E ter em mente que o conhecimento científico é, por auto definição inclusive, falível, incompleto. O conhecimento científico é um vir a ser. E tomá-lo por verdade e, pior, por única verdade possível é – penso eu – de um perigo hipnótico. Tentador porque é tão simples e confortador entregar-se a uma resposta única, especialmente uma assim, com um ar tão casto: “mas é científico!”

Isso tudo não significa que eu ache a ciência irrelevante pra todo mundo ou pra qualquer um. Pelo contrário, acho que a capacidade de nomear nos instrumentaliza melhor pra lidar com o mundo, seja o concreto-concreto, seja o concreto-relacional. Quanto mais sabemos nomear, mais somos capazes de intervir e mudar. Quanto mais soubermos dizer ciência e sobre ciência, mais autônomos em relação a ela. Quanto mais reconhecermos seus limites, mais podemos reconhecer que é uma das leituras possíveis. E sabê-la parte do engenho humano.

O engenho humano, sabem? Aquele das pirâmides, da penicilina, de Moby Dick, das pipas. Aquele que nos faz demandar mais de nós mesmos. E, quem sabe, construir um fundamento ético para além da verdade que subjuga. Ou, pelo menos, manter o leite condensado, sabecoméqueé: prioridades.

2 comentários:

Rita disse...

Onde assina?

Renata Lins disse...

bora conversar sobre isso... porque o que eu gosto mesmo é de história da ciência. Sabe, aquela história do porque tal coisa é de um determinado tamanho e não de outro, tipo os trilhos de trem que tem uma distância vinculada à das rodas de carruagem. Ou a história dos cientistas: li e fiquei amiga de Mme Curie, Edison e outros. E acho que a história de pessoas às vezes explica: pessoas em determinado lugar, com determinada cultura, certas preocupações.
E seria tão mais legal se isso fosse ensinado na escola.
E não a "ciência desincorporada".
Beijo.

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