terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Raio X


Eu não gosto de ir ao dentista, ginecologista, de bater raio-x, de fazer exame de sangue. Não gosto que me vejam por dentro. Tenho dois medos que parecem se opor, mas suspeito que são o mesmo. Tenho medo de que achem alguma coisa errada. E tenho medo, maior, de que não encontrem o que eu sei que lá está. A sombra. Ruptura. Vazio. Oco. Torto. Vórtice. É esquisito porque tenho esse distanciamento das coisas concretas que, bem sei, não podem encontrar o que é intangível e que realmente me amedronta. Porque o medo não é que achem um tumor ou uma cárie, mas que saibam que eu sou falha, errada, esquisita. Não tem lógica alguma, mas sigo me esquivando o quanto posso. Ao mesmo tempo, insisto em revelar-me: escrevo e falo. Muito. Exercito, com regularidade e amplitude, o que me vira do avesso e traz pro foco o que não quero que saibam. É que assim, segurando o fantasma pela mão, parece que consigo lidar. O que me assusta não é apenas que vejam, acho, mas que vejam o que não posso ver. Que saibam antes de mim.

Então, insisto em tentar (d)escrever essa que quero dar a ver, mas sei, com absoluta precisão, que estou dando corda pra me enforcar. Porque o que quer que se diga, diz-se sobre nós mesmos – seja em conteúdo, forma, timming – de maneira incontrolável. E os que lêem e escutam estão sempre espreitando o que não devia vir na linha de frente, as pequenas mesquinharias, o titubear hesitante, as desatenções, a letargia. Se ao menos fossem os grandes pecados que incitam a imaginação: alguma soberba, uma exaltada luxúria, a gula de viver e provar, saborear, regalar-se... mas não. Só as pequenas e desagradáveis inconveniências, a pessoa que usa regalar-se, aí para, percebe que é palavra fora de uso e que já não cativa, mas de teimosa, deixa.

Quando eu era mais jovem ainda tinha a tampa de fazer a piada: "ah, bonita por dentro? quer dizer que tem boa estrutura óssea, né" só pra não me deparar com o que me passeia: por dentro não sou bonita, rosa e branco, suave, um quadro delicado. Não. E quanto mais conheço pessoas admiráveis, inteligentes, bem-humoradas, sagazes (do tipo que, sei lá, transforma palavras em bela conversa, como se fossem a folha de papel alumínio que cobrimos a travessa com lombo e colocamos no forno e, de repente, a carne está tenra e suculenta e gostosa e tal e tal) mas percebo minhas enormes rachaduras.

Sei que todos somos em construção. Sei da incompletude. Do buraco. Mas sei, também, que o meu é sinalizado em negro. Feito de infâncias atemporais, se me debruço a escutar, no oco ressoa aquele choro insistente de quem acha que foi abandonado porque não merece amor. E, assim, cachorro correndo atrás do rabo: para ser amada, (me) digo e, ao dizer (me) desvelo os vãos por onde se esgueira a solidão (ão, ão, senhor capitão, espada na cinta – é feio quando uma rima quebrada entra no texto, não é? lá se vai mais um pouco do amor, suspeito).

E a cada letra aqui sinto-me como a canção: vai, vai mesmo, eu não quero você mais, nunca mais  como quem diz: ai que dor, você machucou meu peito, mas na versão da Marília Pera em Elas por Ela

E o que eu quero mesmo é tão simples. Só ser uma tirinha:


E o que eu quero mesmo é tão simples, só não é possível nomear, porque escapa. Tomara que em assovios, de vez em quando. 









3 comentários:

Fernando Amaral disse...

Posso fazer um "fiu... fiu..." para o texto?

Renata Lins disse...

E eu, que ando a conviver com a sombra do meu próprio buraco negro, me sinto tão acolhida por esta postagem.
Um beijo.
No povo do Chopinho, muitas fãs (que não comentam por escrito).

Palavras Vagabundas disse...

Lindo... adorei o buraco no peito.
bjs
Jussara

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