terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Mangueira


Paixão é um troço inexplicável. Tá na lista daqueles impossíveis de dizer (tudo) que eu vez em quando menciono. Pode-se passar horas e dias e páginas falando ou escrevendo e o máximo que se consegue é um pálido arremedo da intensidade com que ela nos assalta. Sim, há boas poesias, Camões e Vinícius bem a diziam, mas dizer bem ainda não é dizer tudo.

Enfim. Sou apaixonada por Escolas de Samba e, de forma completa, arrebatada e entregue, sou apaixonada pela Mangueira. O que, claro, é bem esquisito já que nunca participei de um ensaio, de um desfile, de nada. Nem cheguei perto. Nunca foi necessário. Não lembro, mas imagino, eu-menina, o verde e rosa na passarela e o coração perdido. Ano após ano, não importa onde eu esteja ou o que esteja fazendo, eu paro e assisto o desfile da Mangueira e canto e choro e me encanto. Há anos em que outras escolas vêm com melhores carros, fantasias mais bem acabadas, enredos melhor desenvolvidos, sambas mais bonitos. Eu reconheço, admiro, aplaudo. Não importa. Chega a Mangueira e eu deixo de pensar.


O que mais gosto no Mangueira é que ela parece nunca esquecer que o Carnaval é uma festa. Seja batendo o pé na tradição e mantendo seu surdo de primeira, seja fazendo uma parada inovadora e enlouquecedora como a do ano passado. Do sempre ao depois, a Mangueira faz farra. Enfia o pé na jaca da competitividade muitas vezes e desperdiça a chance de ser campeã, é verdade. Com isso perde dinheiro, os integrantes lamentam, a diretoria ouve críticas. Ano após ano, na hora de optar pelo seguro ou pela festa, lá está a Mangueira outra vez com o coração na mão.

Não é a única Escola que tem chão, comunidade, magia. Portela e Vila, por exemplo, tem tudo isso a rodo. Mas a Mangueira, tem, pra mim, aquele quê que nos tira o sono, nos faz arfar, arrepia a pele...

Ontem foi o desfile da Mangueira. E como ela estava bonita. Belas alegorias, belas fantasias. Um samba ruim, é verdade, e um enredo parido a fórceps pelo dinheiro, abandonando o que deveria ser: Jamelão, mas na hora que o surdo chamou, passistas, alas, arquibancada, o mundo foi sambar com a Mangueira. Uma bateria dupla e emocionante. Escola enorme, pequenos contratempos e o atraso. Deve perder, além dos décimos decorrentes da punição, outros pontos em evolução e, talvez, em harmonia. Provavelmente não estará no Desfile das Campeãs. E, no entanto, pergunte a cada folião que sambou em verde e rosa e ele dirá que valeu a pena, aposto. Porque foi mágico. É mágico.

Tão mágico que um moço que tem "da Vila" no nome fez um dos sambinhas gostosos sobre a Mangueira dizendo assim: 
  


Vão dizer que outras escolas foram melhores, que Vila e Portela e sei que lá e eu digo: sim, sim, e daí? Vão dizer títulos e números e sei que lá e eu digo: sim e daí? Vão dizer competitividade e marcação no meio do campo e sei que lá e eu digo: ainda prefiro jogar bonito, ops, é samba, não futebol, mas o lance é esse: eu prefiro jogar bonito. 

É isso, paixão é um negócio difícil de explicar, mas se eu tivesse que nomear, um dia, olhos borrados, respiração incerta, pele morna, coração em batuque, diria assim, entre suspiros e desejos: Mangueira. 

Foto do querido Augusto Mozine


Pra quem ainda prefere títulos a beleza e magia, Mangueira é campeã do Estandarte de Ouro, 2013. Foi escolhida como melhor Escola, o melhor desfile do ano. E foi. 





3 comentários:

Danielle Martins disse...

No amor é assim... pra que explicações.
Linda mangueira!

Juliana disse...

eu li no ônibus, voltando do desfile, fantasia na mão. Me arrepiei. Que lindo!

não sou particularmente apaixonada pela mangueira, mas, meu deus do céu, é indescritível o que se sente no meio dessa escola.

Palavras Vagabundas disse...

Como disse o Ivo Meireles, o presidente, "optamos por desfilar bonito e não estragar nem a evolução nem a harmonia", o que são cinco minutos naquele show?
Saudações verde e rosa!
bjs
Jussara

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...