domingo, 3 de fevereiro de 2013

Banal


Eu tenho uma certa inveja de quem vive as coisas com intensidade. Quem tem perguntas perturbadoras e alegrias ensurdecedoras. Quem vive grandes casos de amor. Quem tem desencontros dramáticos. Eu sou do feijão com arroz. Não, eu sou do feijão com farinha. E ainda faço capitão. Juro. Enfio a mão no prato, amasso e faço os bonequinhos. Mas, enfim, eu ia dizendo, tenho alegrias pequeninas: o cheiro do café, a primeira colherada do iogurte sabor desconhecido (quem faz iogurte de strawberry?), o envelope na caixa do correio, a mensagem no celular, o barulho do eléctrico, o cafuné. Essas alegrias que amanhã serão passado e não deixarão memória, a não ser aquele morninho no peito que, às vezes, por falta da palavra mais certa, a gente soletra: bom.






Não tive uma infância idílica, mas também não recordo nenhuma dor mais expressiva: passei por ela. Passei brincando de carimba, fazendo festinha de batizado pras bonecas, fazendo poses divertidas para fotos de momentos dos quais não me recordo. Passei na casa dos primos, na praia com a família, na rede no sítio. Passei comendo pastel com caldo de cana. Minha infância tem sabor de feira. 




Não tive uma adolescência digna de nota. Não tive o coração partido, não vivi grandes esperanças nem enormes desenganos. Passei por ela. Passei beijando meu melhor amigo, vendo filmes no Corujão da Globo, devorando as letras na estante. Passei tomando banho de bica, decorando as músicas da Bethania, treinando os olhos da Maysa. Passei viajando pra Bahia, pra Minas, pro interior do Ceará, pra dentro dos livros, pro interior de mim mesma. Minha adolescência tem sabor de estrada. 




Daí pra cá, nada de heroico ou trágico: casei, descasei – mas com um moço tão bom que ficamos amigos. Tive um filho – que amo, que todos amam. Fiz faculdade, trabalhei, amei, fui e voltei. Aprendi a fazer peixe. Escrevi umas coisas aqui e ali. Dei uns beijos, ganhei outros. Perdi projetos, ganhei amplitude. Mudei de cidade. Mudei outra vez. Comprei casa. Vendi (ou quase). Procuro o mar quando estou dolorida. Procuro o mar quando estou contente. Me encontro. Deito no colo da mãe, faço chamego no pai, cutuco e sou cutucada por irmãos e amigos. Tenho as alegrias do dia: uma cozinha ocupada, uma cama bagunçada, as roupas no varal, um livro aberto no sofá, um filme que quase cheira a guardado. Nenhuma lembrança para o amanhã. Nada do que recordar. Vou passando. Faço pesquisas, faço charme, faço linguiça com batata ao molho.  Às vezes queria ter uma história melhor pra contar. Mas me distraio buscando um abraço.


6 comentários:

Renata Lins disse...

Delícia de texto de sabor sabedoria pisciana, que sabe que o fim é outro começo e que a gente vai e roda... a roda é pra girar, mas gira/ na roda da vida... <3 <3

http://letras.mus.br/martinho-da-vila/287472/

Daniel Nascimento disse...

Delícia de texto sim. Mas mais delícia ainda o feijão com farinha, que me parece um excelente Leitmotiv para uma boa vida ;)

Bjs. (falta muito pra semana santa?)

Juliana disse...

eu quase não comento aqui porque meus comentários seriam redundantes, sempre os mesmos.

Luciana, como tu escreve bonito, como tu sabe das coisas.

Iara disse...

"Me distraio buscando um abraço". Me chamou, Lu? ;)

Inaie disse...

ah menina, você foi vivendo, vivendo, vivendo cada momento, aproveitando cada pessoa que passou pela sua vida.
Eu sou a arrebatada. Minha vida tem tantos gritos de susto e alegria, que com certeza o vizinho não dorme. nem as minhas filhas - muito menos o marido. esse segundo, com quem estou há 17 anos e com quemando por esse mundão há quase 14.

Acho que um pouco de rede na minha vida ia fazer bem!Pé na estrada também, cansa.

Rita disse...

O que sei é que quando a gente lê suas letrinhas, o dia fica assim, menos banal.

Bjinho
R.

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