domingo, 6 de janeiro de 2013

Primeirão


O primeiro post do Borboletas esse ano não é meu. Não no sentido estrito, porque não fui eu quem escreveu cada letrinha. É um texto da Jeanne, jornalista, poeta, blogueira feminista, mulher linda e inteligente – como a descrição anterior já fez supor.

Por outro lado, o post é bem do Borboletas, porque encarna o que, dia após dia, eu pelejo em escrever aqui. Algo que insisto em procurar: o belo. O bom. Como valores éticos e estéticos. E a crítica. O pensar sobre si mesmo. E, olha, é negócio complicado. E quanto mais se pensa – e se sente – mais complicado fica.

O fato é que a Jeanne vem aí falando do belo, de arte e do velho Buk. E eu fico aqui com meu Nelson Rodrigues, meu Vinícius de Moraes e uns outros afetos nessa mesma toada: se todo mundo sambasse seria tão fácil viver.

Ler ou não ler, eis a questão (título brega, mea culpa, não da Jeanne)

então, gente, que dizer? eu gosto do velho buk. tem coisas machistas nos textos dele, tem. como tinha em toda a cultura da época dele - que nasceu em 1920. mas na real, nem acho tanto assim. esse poema (garotas calmas e limpas em vestidos de algodão) por exemplo, eu acho que é super irônico. porque quando ele tá falando de putas, ele não tá falando de um jeito óbvio; pelo contrário, ele está fazendo sua declaração de amor a elas. o buk não era nenhum santinho, também. ele tem poemas de amor lindos, e nada óbvios, e em que ele pega todas as picuinhas do dia a dia e transforma em uma coisa bacana. a poesia dele não tá num pedestal, ela parte da vida, dos subterrâneos do dia a dia. fala dos marginais, dos loucos, dos bêbados - e as mulheres são assim também, nesse mundo. pra mim, a relação que ele tem com as mulheres em seus textos é muito mais respeitosa que a de muitos autores, porque ele fala delas como sujeitos, em muitas vezes. nos beatniks, que vieram depois, é o contrário: as mulheres significavam a vida chata do casamento e a sujeição a uma sociedade conservadora; elas não aparecem como sujeitos nos textos dos beats, como kerouac e ginsberg. o ginsberg, mesmo, é super misógino (ele era gay e odiava que os caras por quem se apaixonava ficavam com as minas). mas fazer o quê? o uivo, do ginsberg, é um dos poemas mais lindos que já li nessa vida.


sei lá, pra mim é muito diferente um texto de ficção ou poema que tem elementos machistas e um discurso de um filósofo numa revista, deliberadamente machista e enganador. o segundo tem objetivo de influenciar as pessoas a pensar e agir de certa forma; o primeiro não. é uma expressão de um mundo, e poetas e artistas não são perfeitos. 

o que não quer dizer que não dá pra criticar um poema por ser machista, não é isso. se um texto expressa uma visão de mundo específica, cada pessoa tem direito de gostar ou não daquela visão de mundo. mas pra mim o lance é a forma como a coisa é feita. um poema ruim e machista é indesculpável. um poema com coisas lindas e algum toque de machismo pode ser perdoado. claro que tem coisas que me incomodam em todos os livros que leio, mas pra mim não é esse o critério de escolha - não sobraria livro no mundo pra se ler, sabe. acho o buk um puta artista, e eu vejo o machismo dele em alguns momentos, mas a mim, particularmente, isso é uma ressalva, não um impeditivo para ler o texto. 

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