segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Inútil



Essa semana eu encontrei a neve. Ia dizer conheci, mas talvez precisasse de mais tempo junto, mais cotidiano, pra escrever assim: conheci. Então, nos encontramos. Sim, ela me encantou. É estranhamente convidativo sentir o chão sugando a perna, escapando ao pé, deslizando, um chão mais macio, menos estável. É estranhamente gostoso aquele frio feito matéria. E é belo o branco nas folhas, nos galhos, nos telhados, nas ruas. Eu viajei para encontrá-la. A neve não chega na minha porta – e nem eu gostaria que. Imagino as ruas lisas e perigosas, a laminha na beira da calçada, toda sorte de problemas. Então, fico só com a beleza. Só? Dizia Lacan que a beleza é o véu que vela o horror. Foi assim que, além da neve, conheci outra beleza nesta viagem. Outra beleza que encobre. Foi na Sanabria, Espanha.

Em 1959 a barragem de Veja de Tera rompeu e uma brecha de 70 mts de comprimento e 30 mts de altura deixou vazar mais de 8 milhões de litros de água no desfiladeiro do Rio Tera. Não consegue imaginar isso nem dimensionar o que significa¿ Nem eu. Oito milhões de litros de água, arrastando rochas, árvores, terra. E inundando uma aldeia. Ribadelago. Destruindo 145 das 170 habitações que lá existiam. Matando 144 pessoas. Só 28 corpos foram resgatados. Todos os outros corpos desapareceram, assim como as marcas que os habitantes da aldeia faziam no mundo: suas casas, fotos, quadros, móveis. A água, agora acalmada junto ao Lago de Sanabria, permite-nos ver ruínas das casas e a torre da Igreja Matriz. A aldeia foi reconstruída. Novos prédios, a mesma envelhecida amargura. De ter que continuar. De ter que seguir. É nisso que penso, o dia seguinte, e o outro e o próximo. As pessoas que perderam esposa, mas ficaram com filhos e tiveram que seguir. As pessoas que perderam filhos mas ficaram com irmãos e amigos e continuaram. As pessoas que se perderam e passam os dias que atravessam com os olhos navegantes no lago. Então, estava eu a beira do lago e me sentindo tão, mais tão triste de me sentir inebriada com o belo. 

O tempo e a beleza, duas agulhas que tecem o véu. Nenhuma delas presente para fazer velar a tragédia de ontem. 233 pessoas morreram em consequência do incêndio na boite Kiss, em Santa Maria. As tragédias costumam doer e comover a todos (ou quase todos). A mim, comovem. Pelas enormes perdas. Pelo espanto. Pelo cessar inesperado do cotidiano. Pelo absoluto que elas implicam. Pelo impossível de lidar que elas demandam. Especialmente me doem as pequenas (?) coisas que uma grande tragédia dá-nos a conhecer. Lembro a enchente de 2010 e de uma mulher chorando que tinha perdido todas as fotos e cartas e documentos. Doeu. Lembro o massacre de Eldorado do Carajás e uma mulher, com uma criança no colo, com o olhar perdido, sem saber se o seu companheiro estava morto ou ferido e este olhar me acompanha desde então. Lembro o terremoto do Chile e de uma adolescente, um tênis com cadarço vermelho e outro azul, sentada em umas pedras, na frente de um prédio completamente destruído, com um varal de roupas caído atrás dela, tentando telefonar de um celular sem sinal e chorando mansamente. Sei que são tragédias por motivos e com impactos completamente diferentes. Mas isso não (me) importa quando as cicatrizes aparentemente cicatrizadas queimam o peito.

Estas tragédias aparentemente tão distantes me fazem sentir tão inútil. Não poder abraçar ninguém. Não poder segurar uma mão. Não poder acolher em casa, recolher comida, roupa, o que seja. Não poder doar sangue, tempo, companhia. Nada poder fazer a não ser ficar aqui com esta dor enorme a fazer vazios e latejar velhas cicatrizes. Da tragédia de ontem e que me inunda agora deste sofrimento impotente, fica a descrição que li: os celulares tocando incessantemente junto aos corpos. Cento e quarenta ligações em um deles. Cento e quarenta vezes alguém buscou esperança, força e fez uma ligação. Cento e quarenta vezes tentou, vendo crescer a dor, o medo, a angústia. Cento e quarenta vezes o telefone tocou e ninguém atendeu. Cento e quarenta vezes alguém respirou, pediu, acreditou e tentou. Centro e quarenta amorosas, desesperadas, esperançosas ligações. Cento e quarenta inúteis ligações.

E hoje, amanhã e depois e nos dias que se seguem, seguir. Continuar. Tentar. Um dia e outro dia, seguir vivendo. Inútil. E necessário. Humano. 

4 comentários:

Niara de Oliveira disse...

Eu ando tão muda, tão desacompanhada das palavras... Ainda bem que tem tu para me salvar da mudez e dizer por mim. Grata.

Rafael Fabro disse...

Título, foto, texto, tudo tão encaixadinho, tão bonito, tão cativante, que não parece que foi angustiante pacas escrever. A agrura de conciliar Sanabria com o Rio Grande. Beleza e morte. O peito demandando a escrita obrigatória sobre coisas aparentemente tão díspares e, de repente, saem parágrafos tão costuradinhos que parecem ter nascido sem trabalho, suor, sangue, choro.

Quem escreve, mesmo que de nunca em nunca como o amigo aqui, sabe do desassossego de tecer o véu. Identifico-me com cada letra sua e com seu suspiro ao terminar de escrever, montar, desmontar e postar no blog. Que texto, Lu. Que texto!

Muito obrigado!

Rita disse...

... Ah, Lu. :-(

Palavras Vagabundas disse...

Chorando... "os celulares tocando foram doloridos", disse um bombeiro.
bjs
Jussara

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