terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Porra, que cidade linda!

Eu queria dizer que estou contente. Que sinto uma saudade diária, constante e profunda, mas que estou contente. Que me sinto incapaz, impotente, protelando, com medo de não conseguir, mas que estou contente. Que sinto frio, que me visto mal, que não compro tudo que preciso, mas que estou contente. Que me sinto perdida, insegura, em dúvida, mas que estou contente. É isso.

E quando ela disse: porra, que cidade linda! Eu percebi a imensidão do meu querer bem por Lisboa. Se alguém elogia Paris, Johannesburgo, Salvador, Pequim, Roma, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Praga... eu concordo. Conhecendo pessoalmente ou por fotos, sinto que são, inegavelmente, lugares lindos. Impressionantes. Mas quando alguém elogia Canoa Quebrada, Matera ou Fortaleza, recebo como um elogio pessoal. Louco, né? Como se eu fosse parte ou responsável por aquele encanto. E não é uma questão de tempo ou intimidade. Fortaleza é meu quintal, mas Matera eu só fui uma vez. Enfim, quando ela disse: porra, que cidade linda! eu percebi que também me sentia assim por/com Lisboa. Que me sinto em Lisboa e a sinto em mim. Que ir à feira da Ladra é estar com as pessoas que eu gosto, mesmo que absolutamente desconhecidas. Que sinto a alegria do Chiado como se fosse minha. Que tenho as paisagens dos miradouros nos meus olhos e os azulejos espalhados na cidade também o estão no meu peito. Que sinto um orgulho danado quando confirmo: Lisboa é linda mesmo. Que quando alguém elogia Lisboa é como se estivesse me fazendo um afago.

Não que eu não tenha meus probleminhas. Tenho. Um monte. Por exemplo, das vezes anteriores do lado de cá do Atlântico, seguir a regra: quem converte não se diverte, era fácil e necessário. Quando eu voltava pro lado de lá do mar, bom, vamos nos entender com cartão de crédito e tal. Tem tempo, né? Que custa dois, três meses mais apertadinhos se foram dez ou vinte lindos e divertidos dias? Mas morar é outra coisa. Eu ganho em reais. E pago em euros. E converto, diariamente, pra não perder o senso de proporção. Não esquecer que estou pagando quatro reais em uma garrafinha de água. Que a blusa sem qualidade e “baratinha” no chinês da esquina custa sessenta reais. E que nem adianta entrar nas lojas "de verdade". Que um croissant frio com café na cantina da Universidade é quinze contos. Converter, converter, converter e, ainda assim, me divertir. Permanecer contente. E não é nada difícil, é até bem fácil: os lugares são lindos, as pessoas são gentis e interessantes, o transporte é acessível, o sotaque é bonito. Viver é uma delícia.

Então não tenho nada do que reclamar? Tenho. Guardei o direito de reclamar desde o outro post, lembram? Vou exercitar agora. Comprar carne. Comprar carne de gado. Impossível. Mesmo. Juro. Peixe aqui é uma maravilha. Carne de porco? A gente come babando de tão delícia. Frutos do mar? Espetacular. Mas ainda não consegui arrumar um jeito de gostar da forma como encontro carne de gado pra comprar ou de como fazem e servem nos restaurantes, mesmo o famoso bife da Cervejaria Trindade. Minha primeira dificuldade é com a nomenclatura. Daí que a seguir vou prestar um serviço de utilidade pública. Quer saber como se chama aquela parte do boi que você se acostumou a comer no Brasil e que não encontra aqui em Portugal mas nem que a vaca tussa? Tchanrãm:


Em Portugal


No Brasil
(e é porque no desenho não tem o Cupim, hohoho)

O segundo problema é com o corte. Pode ser que em algum lugar se corte totalmente diferente e eu esteja dizendo uma redonda besteira. Por favor me perdoem a generalização e me indiquem se não for como minhas estritas experiências indicam, mas, até agora, no talho (açougue) aqui da esquina, nos três supermercados que já fui (Continente, Pingo Doce e Minipreço) os cortes são sempre muito fininhos. Bifes. Se faz bife de quase tudo. Não encontrei uma boa peça de filé. Ou de lagarto pra fazer assado de panela. Como o mundo não gira ao redor do meu umbigo, mesmo durante o #mimimi já estou tratando de descobrir como aprender a cozinhar, o mais razoavelmente possível, as peças que tenho a meu dispor. E a entender quando se diz que uma carne foi estufada ou guisada e que refogar não é termo usual aqui. 

Pra chegar no talho com ar de entendida e não passar vergonha, segue a dica:


Também achei esse link que indica como fazer cada peça. E esse que explica o que é estufar e a diferença de guisar. Outro que explica as técnicas.

Mas na dúvida, pede um bacalhau. Garanto que não tem erro.



6 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Lu, tão feliz por estar contente!
Após minha longa experiência gaúcha, nem aqui no Brasil o corte é igual no país todo, muitas peças que conhecemos não existem no Sul. O jeito é ir se adaptando, mas que dá saudade, ah isso dá!
Na dúvida pede um peixe com marisco, risos
bjs
Jussara

Anônimo disse...

Feia, no fim de semana comerei um churrasco em sua homenagem...kkkk O negocio deve ser lindo e joia mesmo , pra prestar ate sem carne....

Ana Vieira disse...

Morena, voce foi brilhante (ô novidade...) quando disse que sente como pessoal quando o elogio é para um lugar familiar/querido. Bingo.

Daniel Nascimento disse...

"Ô meu amigo, me vê um litr..quero dizer, um kilo de cachaço aí, ó pá!"

Hahahaha! Adorei! E fico feliz por você estar bem por aí!

Nos vemos em breve (tá chegando \o/).

Beijos

Daniel

Rita disse...

Ai, Lu, desculpa. Eu li tudinho, mas vou perguntar: cadê o post contando TUDO sobre a pororoca das Lucianas?

Aguardo.
Grata.
Rita, pautando os blogs desde ontem.

Borderline Transtorno de Personalidade disse...

Gostei do blog!!!

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