terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Língua




Quando se está em Outro lugar, um lugar de alteridade, de diferença, tem muita coisa pra gente ver. Pra ouvir, entender, sentir, provar. Muita coisa pra gente reparar, como se diz no meu lugar, aquele onde não sou outra quase nunca. Quando se está em Outro lugar (e aí estão os blogs da Tina (França), da Iara (Inglaterra) e do meu noivo Gui (Holanda) pra provar) há diversos aspectos da cultura que podem chamar a atenção, desde a ocupação do espaço coletivo, o uso de objetos, as formas de interação social, os costumes, a cozinha, os trajes e por aí vai. Eu queria ser bem mais observadora e partilhar mais desses aprendizados por aqui. Mas tem duas coisas em mim que atrapalham um tanto. Primeiro, esse negócio de estranhamento vira meio deslumbramento e eu vou logo me espalhando, procurando os pontos de conforto. Tenho sentidos destreinados. Ou melhor – entrando na segunda questão – meus sentidos se voltam, todos, para a língua (ui). Fico o tempo todo ouvindo e sentindo um prazer que não sei descrever pra vocês com os encontros e desencontros. Como conversar com minha colega de Doutoramento (né lindinho no lugar de Doutorado?) na cantina e ela dizer, apontando pra garrafinha: e como vocês chamam leite com chocolate? Huummm... leite com chocolate \o/. O sotaque é tão bonito. Mesmo. Gosto muito de como os lisboetas falam. E tem aquelas coisinhas que fazem cócegas no ouvido. Como quando eles dizem porque e soa púrqui. Ou quando dizem inclusivamente ou sujidade. Quando usam expressões como “perder a face” e eu vou entendo devagarzinho que significa “perder a moral”, “perder o respeito”, “passar vergonha”. Ou quando transformam palavras que me acostumei a ouvir oxítonas em paroxítonas. Você já escutou muitos discos de Élis (com sílaba tônica no E mesmo) Regina? Eu não tinha escutado nenhum até chegar aqui. Eu sempre ouvia a Elis (oxítona) Regina. E, mais que tudo, mais, mais, mais, quando eles usam o próprio nome da pessoa – que está presente – pra falar com a pessoa. Não sei explicar direito, mas é como se eu fosse falar com alguém e no lugar de perguntar Você quer um chopinho? Perguntasse: A Renata quer um chopinho? com artigo definido antes do nome e tudo. È tanta, tanta coisa que encanta, incomoda, inspira, comove que dá vontade de ficar conversando a noite inteira só pra ouvir mais e mais palavras, expressões. Os silêncios, ah, os silêncios. Os intervalos na fala. A pontuação tão parecida, mas ainda assim diferente. Tudo nessa língua Outra me atrai. Justifico assim minha inaptidão pro resto. Há beleza demais ali.

Cineminha

E eu fui ao cinema. Não me acostumo com o intervalo. Sério, bem no meio do filme param por uns 10 minutos, acendem a luz e tudo. Não me acostumo, nem mesmo em um filme realmente longo como Cloud Atlas. Que, a propósito, é um bom filme. Muito melhor que Matrix (falo isso porque os Wachowski estão lá e aqui). Também tem um pouco da doutrinação e do ar "vejam, sou inteligente" mas é muito mais divertido e sutil. A história (ou melhor, as histórias) de Cloud Atlas é boa - gosto especialmente da história do compositor, é a mais lírica e envolvente - mas isso nem é o importante. O bom é a viagem. O percurso. As interpretações nada óbvias, as caracterizações surpreendentes (não percam os créditos, é a minha dica principal), tudo isso faz com seja bom cinema. Ok, tem umas maquiagens que são meio chinfrins, mas no conjunto da obra, convencem. A parte mais chatinha, pra mim, é a da Nova Seul, talvez pelas batalhas meio Matrix. E tem uma cena bem nada a ver da jornalista e um plano totalmente bocó. Mas nada que comprometa o resultado final. Resumindo: é uma história de amor. E de mudança pessoal. E tem Susan Sarandon. E tem Tom Hanks. Tudo que eu disser do Tom Hanks é pouquinho. Gosto mesmo dele. É um filme que eu gostei de ter visto. E deu vontade de ler o livro. 

Aqui tem um texto bem melhor sobre o filme.

Segurança

E tem a história do meu cartão. Você imagina o que é estar em um outro país, sem outra forma de manter-se (pagar contas, comer, deslocar-se) que não seja o seu cartão de crédito/saque? É assim que eu vivo e provavelmente vou viver nos próximos dois anos. Então, antes de vir, perguntei umas duzentas mil vezes o que eu precisava fazer. Simples: cadastre os países onde você acha que vai usar o cartão. Cadastrei. Passa um mês. Passa dois. E aí vou tirar dinheiro pra pagar o aluguel e, tchanrã: um aviso de que o valor ultrapassou o limite. Vá lá, eu pesquiso e descubro que os caixa rápido daqui (vulgo Multibanco) tem um limite diário e um semanal - que eu não consegui descobrir de quanto é nem como se conta a semana. Espero passar sete dias, a pior hipótese na contagem de tempo, vou sacar de novo e: nada. Entro no site do banco: tenho dinheiro na conta. Entro no limite do cartão de crédito: um monte de limite. É isso: moedas na bolsa e nenhuma forma de conseguir mais um dinheirinho. Mexo com todos meus irmãos, com a gerente do banco, com os amigos do Fb e descubro: a operadora bloqueou meu cartão - sem aviso - para minha segurança! Afinal eu estava fazendo operações onde? onde? onde eu disse que ia fazer. Muito suspeito, vocês não acham? Pois é, suspeita de clonagem, nenhum aviso e eu fico assim, vulnerável. Essa foi a segunda vez que estar aqui me doeu (a outra faz tempo e nem se comparou a essa). É estranho não ter aquela rede de proteção com a qual se está acostumada. Bom, a situação não se resolveu de todo mas a rede de proteção funcionou mesmo de longe. Além de todo cutucão que o Lucas e a Liana deram no banco e na operadora, estou vivendo às custas do cartão do meu pai (nós temos cartões na conta dele pra emergências e ele mandou desbloquear o uso pra fora do país). Ou seja, não vou morrer de fome nem sem banho (porque o gás vai acabar essa semana: sem gás sem banho quente, sem banho quente, sem banho; sem banho... o horror, o horror!). Ou, resumindo:


7 comentários:

Caminhante disse...

Fiquei com o coração na mão de imaginar essa situação do teu cartão. Não tenho saúde pra essas coisas. Dá vontade de sentar no meio fio e morrer ali mesmo.

Alessandra disse...

Que sufoco, hein Borboleta?! Gostei bastante da parte da língua, que é a mesma e é outra. Ficar sem dinheiro e sem informações em um país estranho me soa desesperador. Ainda bem que as coisas se resolveram e o banho tá garantido :)

Juliana disse...

em vez de dinamite, li diamante!kkkk

olha, chuchu, vc é ninja! eu já teria surtado.

Palavras Vagabundas disse...

Lu,
gostei da parte da língua, deve ser muito legal, ver a mesma língua com significados diferentes!
Eu nem posso me imaginar na mesma situação que a sua com o cartão, acho que estaria aos berros com a operadora, se não resolvesse pelo menos desestressava.
bjs
Jussara

Renata Lins disse...

Putz, sem gás pra banho quente é inimaginável.
Beijos, conta quando tiver resolvido. E viva seu pai.

Daniel Nascimento disse...

Cada vez que você cita teu pai, dá uma coisa boa dentro da gente que faz entender um dos porquês de você viver tão leve e (quase) sempre com um sorrisão no rosto. Aquele véim tem uma presença arretada!

E o sotaque, o som, a língua... deu uma saudade boa da faculdade agora. De estudar como nosso idioma se enriqueceu tanto e com tantas variantes. Sons. Jeitos.

Lindo texto. E vou dormir mais cedo hoje pra faltar só quatro dias :)

Bjo.

Rita disse...

Ai, amore, tô tão atrasada nos comentários, só posso torcer pra tudo já ter se resolvido. Aff, preciso de um skype com a senhora, urgentemente. Tá, pode ser depois que essa agarração toda com a Iara passar.

saudades
bj
rita

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