sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Eu Minto


Hoje me peguei pensando em quantas vezes já menti e perdi as contas. Eu minto todas as vezes que me perguntam: quantos filhos você tem? E eu respondo: um. Mentira, gente. Que um que nada. Mas como explicar pra uma pessoa que me conhece pouquinho (dificilmente um grande amigo não sabe como é minha vida pessoal) os Samuéis todos? Eu tenho um filho recém-nascido. Minha irmã o chama de lomb, ele tem 51 centímetros e está aprendendo a mamar com furor.  Ele tem a pele rosadinha e é cabeludo. Eu tenho outro filho que mama segurando meu peito. Tem o filho que pede dinheiro pra levar a amiga ao cinema. E tem aquele filho que engatinha que nem uma minhoca. Ele é meio magrelo e come sopinha de beterraba decorando a cozinha inteira com seus traços de Picasso. Eu tenho um filho que é escolhido pra jogar basquete porque passou do 1,90 com 14 anos.  Eu tenho um filho aprendendo a andar com o tio dele. Ele anda em diagonal e chora muito quando eu dou gargalhadas. Tenho aquele outro filho de um ano fantasiado de Pequeno Príncipe e fazendo pose pras fotos. Ele dorme à tarde em cima de mim e seu cheiro me enternece. Tenho um filho aprendendo a andar de bicicleta. Tenho aquele outro, de dez anos, deitado no escuro e quando eu pergunto o que foi me responde: estou pensando na vida. Tem também aquele outro menino, de blusa, fralda e sandália, correndo no sítio do meu pai e testando as palavras que acabou de aprender: lua, lua, lua. Meus filhos gostam de correr, parece, tem aqueles outros que chamam o avô pra corrida: um com dois anos, outro com três, outro com quatro...vários, até que ele começou a chamar o avô pra jogar caça-palavra. Tem o filho pronto pro primeiro dia de aula, farda, lancheira, pasta. Tem o filho de braço quebrado. Tem o filho que escreve o livro da cobra Lalá. Tem aquele outro que viaja com o pai nas férias e não sente saudade de mim. Tem o filho que conta história pra outras crianças na Biblioteca Pública da cidade. Tem aquele que é meu chapa e vai comprar pão na bodega da esquina. Tem o filho que faz de conta que vai dormir e fica jogando a noite toda na internet. Tem o filho com quem eu tomo banho na piscininha de plástico. Tem aquele outro que chorava com medo do trenzinho elétrico que ganhou no aniversário de dois anos. Tem o filho que joga a roupa suja em cima do guarda-roupa. Tem aquele que pergunta: mãe, quer cafuné? Tem o que dança comigo a música do rói-rói. Tem um filho tão pequeno que o pé cabe na página do álbum, ali, carimbada. Tenho um filho tão grande que a cama tem que ser feita por encomenda. Tenho um filho banguela com o sorriso mais fofo do mundo. Tenho um filho escolhendo seu primeiro óculos. Tenho outro filho que finge ler comigo, deitado ao meu lado na cama, com o livro de cabeça pra baixo. Tenho um filho que lê ao mesmo tempo que eu As Crônicas de Gelo e Fogo. Tenho um filho que teve uma festinha de aniversário com o tema, Palhaço, escolhido por mim. Tenho um filho que teve uma festinha de aniversário decorada com caveiras, tema escolhido por ele. Tenho vários filhos que me respondem enjoados, grosseiros, abusados. Tenho outros carinhosos, prestativos, amorosos. Tenho um filho que frita hambúrguer pra mim. Tenho um filho que segura minha mão quando dorme. Tenho um filho que aparece no skype e diz que está com saudade. Tenho um que rói as unhas. Outro que prefere suco a refrigerante. Um filho que nunca me deu trabalho pra comer. Um filho que precisa de aerosol. Um filho que canta na escola. Um filho que dá massagem nos pés da avó. Um, outro, aquele, esse.

Tenho tantos filhos que não cabem nessa postagem e esse sentir no peito, que eu chamo amor porque não sei outro nome pra dizer dessa vontade de que todos eles tenham uma vida tão, mas tão boa, sabe. Tenho tantos filhos, não aprendi a responder quando me perguntam: quantos filhos eu tenho? Eu minto. Um.


5 comentários:

Ana S disse...

Chorando aqui. Tão verdadeiro.
Que todos esses meninos tenham sim uma vida muito, muito boa.
E vc também. :)

Palavras Vagabundas disse...

Saudade dói!E não é só pela distância.
Lindo. Samuel certamente terá uma vida muito boa, conheço a mãe!
bjs
Jussara

Lílian disse...

Fazia tanto, tanto, tanto tempo que eu não passava por aqui!... Daí vim e fui lendo um, e outro, e outro post até chegar a esse. E decidi agora mesmo que vou ler mais não, pelo menos por hora: acho que chegou ao meu limite de lindeza diária - e eu nem sabia que isso existia, hahahahaha. Bju, borboleta.

Rita disse...

Ah, Lu.... que coisa mais linda, amiga. Que coisa mais inteira. Sua bruxa. Te amo.

Rita

Danielle Martins disse...

Samu tem sorte de ter tantas mães maravilhosas! Saudade grande de você! ♥

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