sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Lendo

Eu gosto muito das colunas da Eliane Brum. Ela costuma ser precisa tanto na escolha dos assuntos como na abordagem. É, concomitantemente, confortável e inquietante ler alguém que, constantemente, parece falar por nós. E é assim que ela me faz sentir. O texto “Um Embrulho de Papel Brilhante”, eu lembro, foi como um soco no estômago. Me deixou sem respirar por um momento. Aquela sensação de que atravessei um limiar e queria ficar - só mais um instante, só mais essa vez, só mais um pouco - no momento anterior, onde tudo parecia que ainda podia dar certo, parecia colo, parecia seguro. E a estrada, sedutora e imprevisível, ali à frente, descortinada, não, já trilhada - quando percebemos a partida, já há um tempo que fomos. Um caminho de memórias. E palavras por dizer. Por mais que se diga, não basta.

E há outras colunas que parecem dar forma e matéria a ideias que nem se sabiam bem: A ministra e a prostitutaDe passagemA rainha má e o terror de envelhecerChega de torturar mulheres e por aí vai. Já me acusaram (?) de gostar tanto dos textos pelo que estão impregnados de psicanálise. Parece-me um bom começo de conversa. É isso. Também. Mas não só. É como ela chega ao cerne tão fácil e o desnuda. Como o texto que fez nascer esse comentário todo que escrevo e que li algumas vezes durante o dia de hoje: A dor dos filhos. Se você não leu, pare agora, leia. É muito melhor do que vem, aqui, a seguir.



Eu lia letras e só via aqueles olhos tão vulneráveis. E minha sensação de impotência. A certeza de que não ensinei nada pra ele. E o anseio avassalador de que ele consiga, embora nem eu nem ele saibamos o quê. A certeza daquela dor, minha, sua, de todos, que seria, que era, também, dele. A dor de não conseguir. De não bastar.

Eu lia letras e só pensava em todos os passos que dei pra trás, me afastando de suas mãozinhas, de seus abraços, para que ele desse mais um passo, só mais um, um pouco mais, venha mais longe. E eu via aquela incompreensão, o andar feito pergunta: porque minha mãe nunca está ao meu alcance? E cresce tão rápido e eu continuo sem poder fazer nada a não ser me afastar mais um pouco para que ele possa seguir andando, procurando, crescendo, sendo. Eu faço espaços: pra ele, pra mim, espaços imensos cá fora pra não saber os abismos, meus e dele.

Eu lia letras e só ficava querendo que, um dia, ele possa dizer. Dizer-se. E que todo esse amor que não lhe basta, faça algum sentido. 



2 comentários:

May disse...

Ah, eu também adoro a Eliane Brum! O texto “Um Embrulho de Papel Brilhante” foi responsável por um derramamento de lágrimas demorado. Coisa mais linda. Porém, não é a única que escreve coisas como se estivesse falando por mim, querida, vc também possui esse lindo dom. beijos!

Rita disse...

E eu, que ainda não tinha lido Um Embrulho? Thanks, dear.

bj
rita

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