segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Diário de Bordo #12


A vida continua boa, as ruas continuam lindas e eu gosto cada vez mais das pessoas e da cidade. Dito isso, o dia a dia: como é difícil viver sem uma área de serviço. Aquela pia com batedor, pra gente lavar o pano de chão, dar o grau nas calcinhas, passar água rapidinho no camisola, nas blusas finas e nas peças delicadas, mesmo que coloque as calças jeans e outras cositas na máquina de lavar. Suspiros. E o clássico: quede o ralo? Vontade de lavar o banheiro, lavar a cozinha, despejando balde d’água, esfregando com vassoura de piaçava e escorrendo com o rodo. Sonha, Alice. Vai tudo no esfrega-esfrega do pano de chão que, aliás, não decidi ainda onde lavar. Cobra engolindo o rabo. Quede a área de serviço com ralo?

Pensando nisso lembrei desse blog aqui (Sem Ralo) que já me ofereceu muitas gargalhadas e não custa partilhar com a Iara – questánomundo – e com a Renata Lins – quevaicomagenteaondeagentefor.

Mais do dia a dia. Vai viajar? Ninguém quer saber. Explico. Pra comprar uma passagem de ônibus no Brasil, de um município pra outro, mesmo que seja dentro do mesmo Estado, pedem identificação, RG e tal. Aqui? Nadinha. Vendem a passagem sem perguntar seu nome, nem que você vá de uma ponta a outra do país. Delícia. E a mala? Sabe quando você vai embarcar no Brasil, aí fica na fila pro fiscal etiquetar sua mala e recebe um papelzinho fácil de perder e só retira a bagagem se estiver com ele? Necasquipitibiriba. Vocêzinha coloca sua mala no bagageiro, vocêzinha tira. Ah, o primeiro mundo, já se começa a suspirar? Ah, a segurança, o respeito ao que é do outro... e você liga a televisão e está passando o noticiário e estão roubando pão. Pão, minha gente. O entregador de pão passa deixando o pão numa sacola pendurado na porta e quando o dono da casa/restaurante abre e procura...o canto mais limpo. Tem também a rifa das casas. Não, não é tipo o Totolec, são casas particulares. Gente que se vê endividada, desempregada e coloca a sua própria casa em uma rifa. E tem que vender 30.000 pontos a 5 euros senão perde a casa e não consegue grana o bastante. Já pensou comprar uma casa por menos de 15 reais? Fiquei vendo o noticiário e pensando duas coisas. A primeira: o noticiário está tão parecido com o do Brasil do fim dos anos 80 começo dos 90 (talvez de outras épocas, mas essas são as que eu lembro) que dá dó. Desemprego, serviço público sucateado, estratégias punitivas para a população. FMI, gente, FMI, vocês lembram quando se dizia esse nome e a gente se arrepiava e se revoltava? Lembram da Carta Enigmática do Verissimo? Ah, se eu estivesse em casa ia escanear pra vocês.... Quanto tempo faz que não dizem FMI perto de você como uma ameaça? Vão me dizer: mas o Brasil não está tão melhor, o governo isso e aquilo. Eu sei, eu sei. Mas vocês tem que compreender que eu cresci vendo o sertão. A dor do sertão. A penúria. A resistência. Os limites. E vi anos de risos, agora. Vi a vida melhorando nos olhos e sonhos. Vi menos se tornar mais. Vi possibilidades. Tá bom? Tá nada, falta tanto. Mas quem lembra das filas do INSS e sabe o SUS não pode abanar os ombros. Quem abraçou mãe que perdeu filho por miséria e vê o trabalho dos agentes de saúde não pode dizer que nada mudou. Enfim, me perco. O que eu queria dizer era isso: a sensação de déjà vu no noticiário de Portugal. Mas. Tem um mas. Ou vários. A segunda coisa é essa: a impressão que eu tenho (porque, claro, não posso generalizar, não conheço o país todo) é que eles não sabem o que é ser pobre, pobre, pobre de mavé, mavé, mavé. Não fazem idéia do que é miséria – a não ser, pelo que percebo, os que andaram em África (acho delicinha a expressão: andar em África). É um país que se acostumou a ser rico – ou a parecer rico, não sei. Mas eles não sabem a pobreza e se horrorizam com a privação de coisas que, cotidianamente, eu não tenho. E, lembrem-se, eu faço parte da classe média alta do Brasil, pelo que meu salário indica. Acho isso lindo, de não saber ser pobre. Lindo mesmo. Acho lindas as altas expectativas. Porque é isso, “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”.

E o noticiário continua e um brasileiro desavisado, assim como eu, se arrepia todo ao ouvir: milhares de militares vão pra rua em protesto, dão cartão vermelho para o governo e avisam que se a situação não melhorar vai haver golpe e o governo vai cair. Gente, medo, né. Governo cair, golpe, militares, tudo na mesma frase. Assim, naturalmente. Sem reservas. I know, não é bem assim, todos me abanam, não leve a sério a ameaça, os portugueses são pacíficos, é um jeito de dizer, além do mais golpe militar aqui não é o mesmo de lá. Respira, Luciana, respira. Mas isso não se faz, gente, um susto desse.

De tudo, tudo, fiquemos com o importante: estou apaixonadinha pelas castanhas portuguesas. Assadas, cozidas, não importa. Amo. Comi até sopa com castanha e gostei, avaliem. 



PS. Eu, toda feliz e faceira caio no choro lendo o Ruy. Não sei se escrever é triste - a se acreditar no Drummond, até que é - mas ler, não tenho dúvidas, muitas vezes o é. 

13 comentários:

Renata Lins disse...

teste

Renata Lins disse...

FDP. Quando é teste ele não engole. Porque juro, fiquei traumatizada - verifiquei tão direitinho q tava c o gmail aberto e tal (ID google), e a porcaria engoliu o coment.
S SUS: a Piaui deste mês tem matéria ótima, em 1a pessoa, com uma indiana. Vale muito. Vou tentar achar p te mandar. beijos!

Rita disse...

Ai, Lu. Queria saber escrever diarinho de viagem assim, que nem tu. Saudades, amore.

Beijos um pouco assustados (eu, hein)

R.

Tina Lopes disse...

Lu, tive a mesmíssima impressão de back to the eighties quando estive aí e liguei a televisão. Mas aí lembro da hiperinflação, do Comando Vermelho, da Xuxa e pfff, nossa, tá longe. Mas vi um cenário triste: cursos de humanas sendo fechados por pura falta de interesse - e aqueles cartazes nos pontos de ônibus dizendo "jovens, estudem, vão à universidade" estão por aí ainda? A falta de perspectiva da juventude, sem querer estudar e sem onde trabalhar, isso sim é o prenúncio de tempos piores. Mas ai, castanhas e aquele castelo lá no alto <3

Maite disse...

Chocada com as rifas.
Sério?!
Alguém me disse que até comércio anda funcionando por menos tempo que o normal por aí por falta de cliente. Verdade?!
Ai, que triste. Mesmo. :(

Sobre ralos & pias. Dureza. Nem me fale. Um dia você se acostuma, ou nunca. Minhas costas agradecem (só que não) minha lavação de pano de chão toda torda na torneirinha da banheira de casa. Pelamor...

Mas falando em amor: aproveita o lado bom que tô vendo que tem. Ô se tem, esse aí também!

;)

Anônimo disse...

Os militares portugueses que se manifestaram ,são na maioria progressistas. São militares da esquerda e que juraram defender a Constituição. As castanhas em Portugal comem-se no dia de são Martinho. Em Portugal nesse dia prova-se tradicionalmente o vinho novo.

Anônimo disse...

Os militares portugueses que se manifestaram ,são na maioria progressistas. São militares da esquerda e que juraram defender a Constituição. As castanhas em Portugal comem-se no dia de são Martinho. Em Portugal nesse dia prova-se tradicionalmente o vinho novo.

Anônimo disse...

Os militares portugueses que se manifestaram ,são na maioria progressistas. São militares da esquerda e que juraram defender a Constituição. As castanhas em Portugal comem-se no dia de são Martinho. Em Portugal nesse dia prova-se tradicionalmente o vinho novo.

Rafa disse...

"Acho isso lindo, de não saber ser pobre." Eu ri, e foi tão bom! Porque hoje o dia é nublado.

Bj

Iara disse...

Pois, é. Eu também tenho essa impressão, que a última vez que este povo viu privação séria foi durante a guerra. Não tem fome ali do lado de casa, como mesmo em São Paulo a gente vê (agora menos). Meu pai conta que nos anos 80 viu operário de fábrica guardar o bife do almoço no pão pra levar pros filhos. Eu lembrei demais dessa história quando trabalhei na indústria e no churrasco de final de ano o pessoal de chão de fábrica tava com celular moderno tirando foto. Porque no Brasil de hoje gente com carteira assinada que não consegue por comida na mesa deve ser muito raro. E acho mesmo que na Europa não tem. A diferença de perrengue e miséria, né? Perrengue é quando o mês não fecha, a gente se priva de luxo, tem que mudar pra um lugar menor, fica meses sem ir ao boteco (ou vai com dinheirinho contado). E eu acho que aqui eles acham que isso é fundo de poço, quando a gente sabe que o buraco é mais embaixo.
Não gosto de castanha portuguesa. Não me odeie?
Também sinto falta de ralo.
Beijo!

Palavras Vagabundas disse...

Lu,
tenho alguns amigos gregos e o que eles dizem da família na Grécia é mais ou menos parecido, "eles não sabem ser pobres".
Não poder jogar baldes de água nem na cozinha nem no banheiro!!! Tenso, tenso...
Gosto de castanhas e nunca comi assada.
bjs
Jussara

Allan Robert P. J. disse...

Acabei acostumando viver sem ralo. Sugiro ir devagar com as castanhas portuguesas. Perder toda aquela caloria depois é barra. Pergunte à minha balança.

:)

Madalena Nunes disse...

Olá eu sou portuguesa e vivo em grandola, alentejo. A minha mãe, hoje com 62 anos conta que quando era pequena, uma sardinha era dividida para 2 pessoas. Carne, só o pai é que comia porque ia trabalhar e tinha que ter "forças".
Na hora da refeiçao, as crianças sentavam-se no chao de pernas abertas e um prato no chao para duas. Frangos, não, só galinhas e as velhinhas que ja não pusessem ovos e em dias de festa (natal, pascoa, carnaval, algum feriado religioso. A casa era de colmo e o chão de saibro( uma areia amarela). Os portuguese sabem o é ser pobre. Foram-no ate á revoluçao do 25 de Abril de 1974. Agora sao pobres de espirito e na mantalidade. Graças aos cartoes de credito que os bancos entregam pelo correio a dizer que temos x de euros para gastar naquilo que quisermos e bem entendemos e depois vem com tachas de 30 e 40% para pagarmos . As p
essoas nunca se viram com tantas "ofertas" como agora e caem nas charlatadas sem pensar.
Desculpa o texto, mas só assim falando é que todos teem a noçao da vida que tiveram alguns portugueses como a familia da minha mãe . Beijos ;)

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