quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sessão de Cinema



Acho que se devia ver mais farorestes. Aqueles, antigos, com mocinhos e bandidos. Porque se não se aprendesse por um lado, sempre se podia aprender pelo outro. Explico.

Aprendizado 1: Pelo avesso. Pega um filme qualquer do Wayne. Era tudo bem esquemático, mesmo quando os personagens metiam-se a complexos. Nunca havia dúvida sobre quem era do bem e quem era do mal. Um mundo organizado e delimitado, porque do lado de cá da tela é uma bandalheira. Deixar o preto e o branco lá e, pra vida, reconhecer as nuances das cores, não lhes parece uma herança boa? Entender que há mais contradições, interesses e aspectos em uma questão do que o óbvio de dois extremos caricatos?

Aprendizado 2: pelo exemplo. A ordem das coisas nos faroestes eram simples. Claras. A construção da narrativa não deixava dúvida: o tal mocinho era bom – nós o reconhecíamos assim - porque ele fazia coisas boas e não o desajeitado e essencialista: ele fazia coisas boas porque era intrinsecamente bom. Nos faroestes não se julgam intenções. Ninguém quer saber se a pessoa está lutando contra os pistoleiros pra fazer de conta que é legal e tacar o beijo na mocinha. O que importa é que, lutando contra os pistoleiros, ele salva uma cidade inteira da opressão e do medo. É meio evidente que a mocinha queira beijá-lo. Um bocado de gente fica a querer.

Foram esses filmes que ajudaram a moldar meu estilo. E, narcisicamente, fico pensando que ajudaria muito um bocado de gente que vejo esbravejando por aí. Não sei ao certo o que tem de tão estimulante e promotor de gozo (quer dizer, até sei, psicanálise na cachola e tal, mas falo vivencialmente) em apontar dedos, culpabilizar, julgar, condenar e prescrever penas de achincalhamento, deboche e banimento do convívivo (da rede) social. Qual o gozo de se arvorar paladino do que quer que seja? Qual o prazer de tripudiar, cutucar e azucrinar? 

O que eu acho mais divertido (onde tem divertido, leiam triste) é que essas pessoas se acham megacientes. Conhecem não os atos, mas as intenções e os motivos dos outros (como, eu me pergunto, se uma porção disse é inconsciente e nem nós com nosso analista sabemos? Mas prossigo) e são moralmente superiores. Claro, porque suas intenções são sempre boas enquanto a do Outro, ora, já sabem, já descobriram, é sempre péssima, mesmo a fazer as melhores coisas.

Então, eu penso, tão bom e tão útil uma sessão de faroeste. Pra ver Shane partir sozinho. Pra ver a porta que se fecha isolando Wayne em Rastros de Ódio. Pra ver 7 homens e um destino e saber dos que partem, solitários e sem raiz. Porque o custo de um esquema do bem absoluto é a absoluta solidão. O desencontro. Quem não viu o faroeste, não sabe que os que ficam, que tem amigos, famílias, filhos, risos e sonhos são os quase-certos, quase-errados, os que podem ser heróicos, às vezes, mas são mesmo, quase sempre, é humanos.  

3 comentários:

Renata Lins disse...

Rio Lobo. Rio Bravo. Trinity. Meu Nome é Ninguém. E tem um que eu amo, com o Ryan O'Neal, onde ele morre. Mas não vou lembrar o nome nem que a porra.
Il buono, il brutto e il cattivo. Não sei se é assim que se escreve. Era uma vez no Oeste.
Amo westerns. E com eles aprendi muito. Inclusive algo tão datado e fora de moda: uma certa idéia de honra.
Um beijo.

Fernando Amaral disse...

Faroeste é tudo. Até a fase em que os esquemas já não são tão "esquematizados". "A Morte será tua herança" e "A face oculta". E muitos outros...

Sem contar a beleza de "Butch Cassidy and "Sundance Kid".

Assoviando agora, a chuva que cai na cabeça.

Renata Lins disse...

Ah, sim, Butch e Sundance... tão num lugar à parte. Nem citei porque né. Não é faroeste. É Butch e Sundance. É a dupla de "The Sting". É o Paul e o Robert.
Dá não. Demais p mim. Lindo. e a Etta Place da Katharine Ross? O que é que é aquilo? E com os dois?

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