segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O que é que eu estou fazendo aqui?

Este post deve grande parte de sua existência à Alessandra,
que me fez pensar que, talvez, alguém se interessasse.

Hoje eu vou apresentar e discutir meu projeto na aula de Seminários de Formação Avançada. E esse processo deve prescindir do power point e, de preferência, de qualquer suporte ou registro. Isso me dá um medinho de deixar alguma coisa de forma. Não que a turma seja especialmente crítica ou que o professor seja excessivamente minucioso. Mas é que apresentando da maneira mais completa as sugestões serão melhor direcionadas e o risco de eu complexificar demais diminui. O que é, é o que é, e eu resolvi testar aqui minha capacidade de seguir o raciocínio.

Pois bem, meu trabalho de tese decorre de aprendizados e inquietações da época do mestrado. Minha dissertação versou sobre o processo ensino-aprendizagem e a pesquisa foi realizada em uma empresa metalúrgica, de processo produtivo estruturado e, na forma de uma palavra menos técnica pra cá, tradicional. Ou seja, já há um tempo fazia-se aquilo do mesmo jeito. Poucas inovações tecnológicas seja de divisão, processo ou gestão do trabalho. Neste mesmo período realizei uma pesquisa (junto com um grupo de estudo) em uma indústria de perfil diferente, que tinha passado por mudanças no processo produtivo, inserções de tecnologia, inclusive no nível gerencial. Em ambos os trabalhos, o tema reestruturação produtiva emergiu, tanto nas leituras teóricas, como nos discursos e práxis nas empresas. Também em ambas emergiu narrativas de sofrimento psíquico, articulado com as relações de poder, a divisão de tarefas, as cadeias de comunicação, etc.

Esses processos se inserem em uma compreensão do trabalho como espaço de formação e informação, integrando-se à idéia de que o homem se educa e se humaniza na produção e nas relações de produção, via um processo de contradições entre educação e deseducação, qualificação e desqualificação, humanização e desumanização.

Um dos autores que trabalha nessa perspectiva, Schurman, indica que é possível investigar os efeitos educativos da organização através dos modos de organização do trabalho, desvelando crenças, valores, pressupostos imbricados nos processos. Essa compreensão, claro, incorpora a ideia de que os modos de organização do trabalho não são arbitrários, mas inscritos no processo histórico.

Neste e deste cenário surge a minha questão de pesquisa pra o meu doutorado: como a empresa capitalista educa o seu trabalhador em tempos de capitalismo flexível.

Uma pausa pra esclarecer: capitalismo flexível é um termo cunhado por Sennet pra identificar o período de produção e relações de produção caracterizados por: 1. Reinvenção descontínua das organizações, 2. Especialização flexível da produção e 3. Concentração de poder sem centralização.

Então, a pergunta é essa: como a empresa capitalista educa seu trabalhador em tempos de capitalismo flexível. Para operacionalizar a investigação, alguns pontos se fazem necessários:

(1) identificar as concepções de aprendizagem que fundamentam os processos de formação nas empresas; (2) apresentar as estratégias de formação subjacentes às práticas formais e informais das empresas estudadas; (3) analisar as relações entre as concepções de aprendizagem e as estratégias utilizadas no processo de ensino-aprendizagem presentes nas organizações; (4) analisar as relações entre a subjetividade do trabalhador e as concepções e estratégias de formação das empresas estudadas.


Evidentemente eu não tenho tempo nem condições de tratar da “empresa capitalista” como um todo – além de ser teoricamente contraproducente, já que trabalho na linha dos Estudos organizacionais Críticos que tendem a não generalizar proposições sobre organizações. Assim, vamos aos recortes. Primeiro, decidi comparar dois cenários que fogem à idéia de homogeneização do processo de globalização: o Brasil, que se caracteriza pela expansão da produção, obras para a Copa do Mundo...e Portugal, cenário de crise econômica e produtiva. Segundo, é preciso dimensionar o campo empírico: a) escolhi trabalhar com indústrias. Porque? Pela familiaridade com o campo e por estas caracterizarem de forma mais acentuada a divisão de trabalho, os processos produtivos, a inserção de tecnologia, etc. b) escolhi dar voz aos trabalhadores, essa é uma posição política, dado ser este o lugar silenciado na maior parte das produções da Teoria Organizacional e Administrativa.

Eu ainda não sei como será o acesso ao campo. Inicialmente eu tinha pensado em encontrar um setor da indústria no Brasil e em Portugal (têxtil, metalurgia, etc), caracterizar as indústrias pelo porte, tempo de funcionamento, processos empregados, número de funcionários e aí realizar as comparações, aproximações, etc. Porém estou insegura se conseguirei acesso. Pensei – mas ainda preciso conversar com minha orientadora – chegar aos trabalhadores via sindicatos. Aí seria necessário caracterizar os sujeitos de pesquisa individualmente, especificar porque forma escolhidos, etc. Esse é um ponto que preciso desenvolver.

Metodologicamente, penso em realizar entrevistas em profundidade e trabalhar com grupos focais para levantamento dos dados. Talvez a técnica da história de vida seja empregada junto às entrevistas. Na análise dos dados a idéia é desvelar a lógica discursiva dos sujeitos via discussão as contradições e compreensão das ferramentas discursivas utilizadas, como metáforas, analogias, alegorias, etc. A análise dos dados supõe, nesse contexto, uma perspectiva interdisciplinar.

É isso que vou tentar apresentar... sugestões? dúvidas? Comentários aleatórios?

7 comentários:

Renata Lins disse...

acho a proposta bem interessante, inclusive politicamente. Eu sugeriria - de onde eu olho a coisa - que você:
a. Não deixasse de caracterizar, numa introdução, o espaço da "reestruturação violenta" a partir do momento em que a UE começou a dar água pra Portugal. Porque eles, "primos pobres", num primeiro momento foram incluídos, foram pra "festa do desenvolvimento" e acharam que podiam se instalar: mas não, continuam sendo o primo pobre (e as razões p isso, não se engane, são políticas. Só políticas). Aí qdo UE começa a dar tilt, a corda arrebenta sempre do lado mais fraco, né.
2. Você não deixar de entrevistar dirigentes, pra ter esse ponto de vista no seu trabalho. Acho que enriquece: como é que eles vêem esse processo? A necessidade de cortar, de reduzir horas etc.? Como era, como é isso? Isso os afeta também como pessoas, seu olhar sobre seu papel, sobre o lugar que ocupam e o lugar que a empresa em que trabalham ocupa?
...bom, é isso. Tomara que te adiante. E pode sempre me chamar, eu devia botar um tópico no meu CV: "palpiteira em teses dos outros".
Porque a minha, né... (pano rápido).

Luciana Nepomuceno disse...

Pois é, Renata, os autores que eu trabalho sempre colocam a questão da violência, política e/ou simbólica na reestruturação do trabalho. Vou tentar caminhar bem por aí.

Quanto à decisão de quem entrevistar, eu, a princípio, não pretendo falar com os dirigentes não. É que, de maneira geral, são eles que são ouvidos, é o local de análise que "vale". Eu quero ouvir o lado do trabalho, saber como os trabalhadores articulam e vivenciam estas questões. Mas não depende só de mim, a orientadora tb vai decidir isso...

Renata Lins disse...

Sim, em geral são eles. Mas gosto dessa dialética, sabe. E não são ouvidos com a sua escuta. Pensa: não são "trabalhadores bons" X "patrões maus" (sei q vc não acha isso, é só p dizer o argumento inteiro) -> tem um monte desses caras do lado dos patrões que tá tendo que fazer um serviço sujo, jogar na rua ou tirar direitos de grandes contingentes de trabalhadores... eles conseguem dormir com isso? Como será que eles justificam pra eles mesmos? (não sugiro q seja igual o tempo, claro que não; apenas me ocorreu que eu iria gostar de ler o contraponto.)

Luciana Nepomuceno disse...

Nesse aspecto você tem razão, para fugir mais claramente da dicotomia esquemática e melhor trabalhar dialeticamente, seria bom o campo passar por este lugar também. Não sei é a viabilidade (tento pensar menos megalomaniacamente possível, porque minha tendência é querer muito e tudo). Assim teriam que ser os patrões/gerentes/administradores das mesmas empresas onde os trabalhadores entrevistados trabalhm? Ou poderia ser um recorte diferente? como justificar metodologicamente? essas coisas que me fazem perder o sono...

Renata Lins disse...

Bora pensando... acho que não precisaria ser da mesma, embora fosse interessante. Vou te mandar um trabalho q coordenei, acho q ajuda a pensar (foi nele q pensei qdo pensei no contraponto).

Luciana Nepomuceno disse...

Estive pensando nos pontos de como operacionalizar a questão de pesquisa e os objetivos específicos logo conduziram à necessidade que você apontou: ô olho bom, mulher!

Palavras Vagabundas disse...

Comentário aleatório: entendi tudo, de onde vai partir e a onde vai chegar. Mas que trabalheira!
bjs
Jussara

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