quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Mexilhões e o Cuidado


Desde que aqui cheguei, minha mãe de vez em quando me pergunta se eu estou me alimentando bem. Eu sempre tomo esta pergunta pelo que ela é, não pelo que aparenta. Sei que é uma indagação do cuidado, do carinho, o que ela quer saber é se eu estou bem. É uma pergunta que é um abraço, um cafuné, colo. Minha mãe sempre foi amorosa. E sempre fez, desse amar, materialidade. Em palavras, mas mais e principalmente, em ações. Ela me ensinou (nos ensinou) a estar perto sem invadir, a oferecer sem obrigar, a fazer os gestos todos. Ela me ensinou que não preciso guardar o amor para que ele seja precioso, que amar deve estar na ponta da língua, dos dedos. Minha mãe me ensinou a gentileza (se não aprendi como devia, a culpa é muito mais do lado de cá do processo). Por mais que ela sinta saudades, ela é sempre a primeira a dizer: vai. Em todas as partidas de que me recordo, sempre estive certa de duas coisas: da falta que sentiríamos uma da outra e do apoio para que eu fizesse nem o certo nem o melhor, mas o que me fizesse bem. É por todas essas coisas, miúdas ou não, cotidianas, constantes, que eu sei que quando ela me pergunta se eu estou me alimentando bem, ela está inquirindo uma coisa além.

Mas, hoje e aqui, vou responder ao pé da letra. Como bem pelo menos uma vez por dia. Os horários ainda estão meio confusos, então as demais refeições são uva, iogurte, pão com queijo, cereal, ovo... mas, uma vez por dia, eu cozinho. Faço alguma coisa que me dê um prazer além de passar a fome: seja descoberta ou reencontro. Não faço comida portuguesa, claro, mas procuro usar ingredientes mais comuns por aqui. Hoje, por exemplo, teve miolo de mexilhão.



Fiz assim: temperei o mexilhão e cozinhei no vinho branco até ficar bem macio. Preparei o fettuccine. Refoguei cebola, mexilhão e cogumelos. Juntei, ao refogado, molho branco. Deixei borbulhar e verti sobre o fettuccine. Cobri com queijo flamengo (um queijo que conheci aqui) e coloquei pra gratinar. 


Então, tenho me alimentado bem. Tenho me cuidado. Feito cafuné em mim. Aprendi o amar, mãe. Aprendi a me amar, vendo o amor no seu olho. 

Rascunhos na Garrafa

- Faltou gás. Foi engraçado porque coloquei isso no Fb e a Tina entendeu que eu me referia a ânimo, disposição para estar aqui. Mas não, acabou o gás no botijão. E acabou, junto, a sensação de adaptação. Eu não sabia o que fazer. Não estou em casa, é isso. Nem aqui. Nem aí. Estrangeira. Uma vez o Alan me disse: depois que se parte não há mais como voltar. Gás resolvido, fogo alto e o aprendizado: minha casa, agora, são abraços.

- A apresentação foi muito boa. Senti-me segura, respondi algumas perguntas de esclarecimento e, no fim, teve até elogios. E agora começa-se a quebrar pedras. Uma pilha de  coisas a ler. E coisas a escrever. E voltar a ler. Bom.

De tudo que já li do Mia Couto, ou além, de tudo que já li, Jerusalém é o tipo de obra que me faz recordar o que mais amo em literatura e na minha língua. O que é dito e o que não precisa ser. O que não está e as frases artesanalmente criadas. A beleza. A beleza. A beleza. Não conseguir soltar. Não querer terminar. Amanhã faço post sobre o livro. Por agora, a pergunta: porque não li isso antes?

8 comentários:

Tina Lopes disse...

Tô rindo de mim até agora com a história do gás. Mas que comidinha boa e que texto gostoso ;)

Val disse...

Amei seu texto!

Cristiane Rangel disse...

Deu água na boca aqui, é claro!

Quando a gente está longe nada mais confortável do que uma boa comida, comida da gente, comida de casa.

Beijos querida.

Jussara e Jurema Brazil disse...

Lu estou com um caso de amor intenso com Mia Couto, também me pergunto por que não li antes? Leio bem devagar, paro, aprecio e volto, não quero que acabe nunca. Quando acaba fico prenhe de pensamentos e deleites por dias e nada mais é tão bom. Jerusalém lá vou eu!
bjs
Jussara

Juliana disse...

lu, e eu fiquei sem entender por que acabar o gás era tão problemático. Era botijão? não tinha onde comprar? vc não sabe trocar?

eu ia comentar lá no facebook, mas fiquei com medo de vc estar se referindo a algo que eu não tinha entendido. Sou especialista em trocar alhos por bugalhos! kkkkk acho a hipótese da tina muito plausível.

Luciana Nepomuceno disse...

Ju, eu sei trocar o botijão sim. O lance é que eu não sabia onde comprar, nem tinha o telefone da entrega, nem nada. o chão sumiu por um minutinho. Quando a gente tá na nossa área, essas coisas são invisíveis, né.

Renata Lins disse...

me lembrei do termo dos gringos: "on foreign turf". Ou algo assim. No terreno dos outros.
No caso, no deles. Nossos "conquistadores". Nossos antepassados. Nossa história, nossas origens.
Delícia o mexilhão. Dá pra fazer tb uma versão só puxando no alho e no vinho branco, e jogando (junto com os cogumelos) em cima da massa. O queijo vc rala na hora, no macarrão quentinho.
Beijos. Fome.

Rita disse...

Nham!

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