quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Laço na Bunda


Um dia a mais é, sempre e concomitantemente, um dia a menos. Cada momento é mortal no viver. E isso nunca me assustou ou entristeceu. Gosto da minha finitude. Ela me humaniza. Pergunta a Adélia:

Como é possível que a nós, mortais,
se aumente o brilho nos olhos
porque o vestido é azul e tem um laço?

Como é esperta ao fazer a pergunta e dar a resposta, só é possível, justamente, porque somos mortais. Não que o brilho nos olhos, a paixão das pequenas belezas, advenha da mortalidade, já nela está. É porque somos mortais que podemos ter medos e esperanças e sonhos. Até de não o ser, pois claro. E para driblar – ou honrar – a morte que é tão nossa, fazemos filhos, fazemos guerras, fazemos templos, fazemos arte, fazemos merda. E, especialmente, amamos.

Amar, essa contraditória sensação de vida mais plena e morte mais certa. Amar é ensaiar a morte. Cada despedida, uma anulação. Cada ausência, um vazio. Desaprender a ser, para que o outro caiba. E, ainda assim, amar é afirmar o próprio desejo, é inscrevê-lo no outro, é dizê-lo da nossa forma, na nossa fôrma. Somos os criadores, os inventores, o dr. Frankstein da existência de quem amamos. Aquele a quem amamos não era até o nosso amor fazê-lo assim. Amar é possibilitar a vida: a do outro, que é no nosso amar; a nossa, que somos porque amamos.

Amar é, assim, uma espécie de vestido azul com enorme laço na bunda.


E como uma coisa puxa a outra e meu pensamento é deslizante, ao procurar uma imagem pra compor o post gostei dessa aí acima que me remeteu para alguém depois de uma festa, que me levou a "Depois do Baile Verde" e, ao mesmo tempo, conversando com a Vevê mencionei aquela frase da Clarice: já não era uma menina com seu livro, era uma mulher com seu amante (de memória, desculpem a imprecisão, casa haja). Eu sei, eu sei, não tem livro nenhum na imagem, mas eu quase posso ver (quase nada, eu vejo mesmo) um livro ali no lugar do bichinho. E disso tudo pro post do Fabiano que li hoje cedo: Os livros que partiram. E fiquei pensando na minha relação com os livros. Não é uma relação que diz coisas boas e inspiradoras sobre mim, bem sei. Não sou desapegada, não sou altruísta e não tenho a vibe: "um livro preso na prateleira é como um passarinho na gaiola" ou qualquer coisa assim. Meus livros. Eu. Meus livros são em mim e eu neles. Cada um que comprei, que ganhei. Livros me dão um prazer material. Minha relação com os livros é de toque, de contato, de cheiro. Sim, as narrativas, as ideias, o conteúdo. Sim, mas não só. Gosto das letras impressas, da beirada das páginas, da fonte da letra. Gosto das lombadas onde os dedos passeiam, das texturas das capas. Gosto dos livros que comprei nos sebos, cheirando a histórias de outrem. Gosto dos livros novinhos, com cheiro de tinta. Gosto do peso do livro. E eu, que nunca fiz, do amor e do desejo, mais que laços provisórios, que nunca tomei posse, que nunca minei corpos como territórios, é bem assim o que faço: eu tenho livros. Ou eles me tem, não saberia dizer. 

PS. E, ainda assim, escrevi isso aí em cima pensando que quando digo livros, estou dizendo: livros de historinha. Livros de não-trabalho. Romances, novelas, poesia, contos e psicanálise (que é forma da ficção se disfarçar de cotidiano...ou o inverso). E que, qualquer dia, o carro do Fabiano talvez possa passar por aqui.

PS2. Eu nunca roubei livros. Minto, roubei um, da casa do Lemuel, sem saber - conscientemente - que o fazia. Terminei de ler e coloquei na bolsa. Né lindo o inconsciente? Nunca foi um entrave moral que me impediu. Foi falta de imaginação. 

4 comentários:

Fabiano Camilo disse...

Adorei demais seu post, Lu querida!

Um beijo!

Glória Maria Vieira disse...

Saudade daqui, viu?! E esse Borboleta exibida? Que delícia! Fiquei aqui minutos vendo ele passar as fotos. Ê sorrisão, Luh!

Palavras Vagabundas disse...

Lindo, adorei a relação "meus livros me tem".
bjs
Jussara

Renata Lins disse...

começando pelo final: eu já. vários. e o primeiro, lembro muito. Foi numa feira de livros no colégio, quando eu era criança. eu tinha visto o livro na véspera, tinha me encantado. mas tinha esquecido de levar dinheiro.
não consegui não levar. Medo, culpa, desejo.
O desejo ganhou.
As usual.
Sobre o resto: minha relação com meus livros é assim também. mas tem uns que dá pra desapegar. fui aprendendo.

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