terça-feira, 2 de outubro de 2012

E por falar em saudade...

Ontem morreu Eric Hobsbawm. Lamentei, muito. Historiador marxista, militante comunista, um homem de ideias e sentimento. Fiquei triste de uma forma egoísta, não exatamente por ele – que teve uma vida intensa e morreu com 95 anos – mas por mim e por meu filho e por todo mundo aqui. Porque, fiquei pensando cá comigo, quem irá escrever as coisas que ele escrevia? Ninguém, ninguém. Não que não haja, ou não surjam, outros pensadores engajados, inteligentes e sensíveis como ele. Mas a forma, o estilo, isso é único. Intransferível. E, depois, a tristeza por Hobsbawm foi tornando-se uma saudade mais doída e íntima. Lembrei-me do meu orientador de mestrado. Eu já havia lido Hobsbawm antes. Mas aquela passada de olho interessada e superficial. Foi meu orientador que o pôs bem na minha frente e disse: aprecia. Sinto muita, muita falta do meu orientador. Da sua inteligência arguta. Do constante respeito ao Outro. Do preciso uso da linguagem. Sinto falta do que ele dizia. E, mais ainda, do que ele me permitia dizer. Sinto falta das orientações na cafeteria, cigarro e expresso, perguntas, roteiros possíveis, inquietação. Sinto falta do frêmito de querer agradá-lo, da alegria de escrever uma página “redonda”. Sinto falta de ouvi-lo dizer: “é um trabalho”.

Sinto falta. Dele, de mim, do Hobsbawm que ele me permitiu.

Rascunhos na Garrafa


- Esfriou. Mas não o bastante para blusas de manga e cachecóis. Mas vai chegar lá. Não tenho medo do frio, mas tenho, um bocado, da chuva.

- Fui a uma festa de aniversário (não me perguntem como, eu sou dessas, gosto de gente). Comi caviar, mas gostei mesmo foi da sardinha.

- Conheci uma senhora italiana que é de Alagoas (não é lindo e intenso o mundo?).

- As aulas vão bem, não fosse o fato de que eu não me acostumo a ir pra aula. Não, não tenho nada contra ser aluna, gosto de ser inquirida, desafiada, da interlocução, de ouvir, de aprender. Não gosto é de ter que ir pra aula, não sei se me faço entender.

- O campo empírico já começou a me perturbar o juízo. Originalmente (e sem nenhuma informação concreta, só o desejo) ambicionei comparar dois campos produtivos (Brasil X Portugal) no que se refere à como a empresa educa o seu trabalhador e os impactos subjetivos da reestruturação produtiva nesse processo. É bem bonito no papel. A questão é: como vou fazer contato com esses campos produtivos? Que indústria me deixará entrevistar seus trabalhadores? Será que eu deveria chegar aos trabalhadores por outra via, como os sindicatos? E qual a justificativa metodológica?

- As cores de Lisboa. Queria ser uma fotógrafa mimimamente competente pra trazer, aqui, as cores que me encantam. O azul machucado de azulejos antigos, antigos. O delicado bege das roupas. O surpreendente verde das folhas no jardim, contido, denso, forte. 

- Não tenho problemas com o vocabulário, mas a voracidade com que comem as vogais ainda me intriga.

5 comentários:

Anne disse...

Lu, não acho que você terá problemas com as empresas. Só explicar o motivo das entrevistas. Penso que a dificuldade será em conseguir entrevistar os funcionários num horário compatível.
Adoro fotos, quero ver suas fotos. Seu olhar através das fotos diz tanto.
Estou aguardando fotinhas.
Beijinhos

O Divã Dellas disse...

Todos nós nos sentimos um pouco orfãos né?

E a derrocada cultural e intelectual que estamos vivendo na ultima década é que assusta mesmo!

Dá uma sensação de desamparo...

amei o texto!

Beijos!

Verônica

Daniel Nascimento disse...

"(...) quem irá escrever as coisas que ele escrevia? Ninguém, ninguém. Não que não haja, ou não surjam, outros pensadores engajados, inteligentes e sensíveis como ele. Mas a forma, o estilo, isso é único. Intransferível."

Eu também faço estes questionamentos quando alguém que admiro se vai. Mas meu maior receio é de, justamente, ficar tão focado em grandes pessoas do passado que isso acabe tirando o foco de acompanhar quem está surgindo. Assim: Hobsbawm já era um mito quando nasci. Fico imaginando quem o viu começar a se tornar alguém proeminente, acompanhou o desenvolvimento de seu pensamento (muitos destes já devem ter ido também, rs). Mas o ponto é: o receio de ter a incapacidade de notar o surgimento de um notável como ele. Enfim. Grande perda.

Sardinha à moda portuguesa é muito melhor que caviar. Se vier acompanhada de uma broa de milho então... Sensa!

Boa sorte com a pesquisa aí. Você há de dar teus pulos ;)

Beijo.

Daniel

Fernando Amaral disse...

Sardinhas, sempre.

E sorrisos, também.

Palavras Vagabundas disse...

Saudades de quem nos ajudou a crescer sempre há de ter!
O que faz uma italiana que é de Alagoas em Lisboa?
bjs
Jussara

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...