sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Diário de Bordo #11

Tenho tanta coisa pra contar nesse diário de viagem que não sei se alguém vai até o fim do post. Haja preparo físico.


Faz mais ou menos 45 dias que estou por aqui. Tive um dia ruim. Não parece uma média tão assustadora. Foi dessa angústia que dá enraizada não se sabe onde e que a geografia exterior de pouco adianta ou interfere. Uma tristeza que se faz em pernas cansadas, coração ansioso, olhos salgados. Passou de uma forma tal que é até esquisito tentar descrever agora, quando sou só risos e coração em festa. E porque falo dela? Porque antes de passar, deixou-me um medo.


Por sentir essa negra mão massageando o peito sem que tivesse motivo, fiquei pensando se sofreria muito ao encontrar algo que, efetivamente, me fizesse falta. Ou, dizendo de maneira mais clara: tive medo do quanto eu sofreria quando encontrasse notícias do Brasil. E não era uma questão retórica: na sexta eu ia ver Elisa Lucinda na Casa Fernando Pessoa. Não estava equivocada, ela bateu-me com o que mais me diz brasileira: um samba delicioso, Adélia Prado e o calor do riso quente que me lembra a brisa no Nordeste. E foi bom, foi tão bom. Abriu-me o peito na certeza: não é preciso escolher, não há balança pra beleza nem régua pro querer bem. Posso ter samba em mim e, ainda assim, apreciar o fado. Posso ser da água quente do mar da Praia do Futuro e deixar os olhos mergulhados no Tejo. Posso amar o caranguejo e saborear a sapateira. Posso. Quero. Vou. Permitir-me o encanto por aqui não me faz mais brasileira. Nem menos.


Um português disse-me: Portugal é Lisboa, o resto é paisagem. Se pretendia ser depreciativo com o resto de Portugal, fracassou. Se o resto de Portugal é cenário, devo dizer que é dos primorosos. Fui de Lisboa a Bragança e quase não pisquei. A diversidade, as cores, os cheiros. O peixe do rio, frito na hora. As azeitonas arrancadas do pé diretamente pra minha mesa.


Decifro e devoro-te ou comendo e conhecendo. Recomendo: a Cervejaria Trindade, a entrada de sapateira (que parece uma casquinha de caranguejo) e o Restaurante situado na Quintade Santo Antônio, em um lugar chamado Malveira da Serra, Cascais onde comi um polvo que só de lembrar, salivo.


Últimas considerações antes de cair na cama: roupas. Essa é, definitivamente, a parte complicada da adaptação. Já cheguei a contar gente com dez peças de vestuário fora o sapato: calcinha, meia, saia, sutiã, blusa tipo segunda pele, blusa mais grossa, casaquinho, casaco, echarpe, gorro. Juro. E eu usava três peças: calcinha, sutiã, vestido. Muitas vezes nem tudo isso. Quando saio muitas vezes me sinto representando. 007, a espiã que veio do calor. Uma Luciana que vive no frio: esse é o papel que me demanda usar sapatos fechados e casacos. Não me sinto à vontade com todos aqueles acessórios. E como se usa coisas! E tão naturalmente: bolsas enormes, casacos, guardas-chuvas, toda uma parafernália que me faz ainda mais desastrada. Fico pensando como é ser adolescente no frio. Como os amassos juvenis devem ser difíceis, não?


E ainda sobre roupas: como faz diferença um único termo. Chamar calcinhas de cueca? Não sei se sobreviverei. E a tal da camisola? Como um português pode admirar verdadeiramente Bethania cantado essa música, se ao ouvir...


Amor, eu me lembro ainda 
Que era linda, muito linda 
Um céu azul de organdi 
A camisola do dia 
Tão transparente e macia 
Que eu dei de presente a ti

No lugar de pensar nisso:



Pensam nisso?



PS. Das adaptações: pessoa vê 18 graus no termômetro e pensa: oba, tá quente, vou lavar roupa. 18 graus, gente. Quente. Quem sou eu? Help.

3 comentários:

Caminhante disse...

Na minha adolescência, eu era adepta do pouco e prático (que os leva a não se atrapalharem tanto com os amassos) e hoje sou cebola, cheia de sobreposições e acessórios. Acho que é até um certo aprendizado. Essas sobreposições fazem com que a gente possa modular melhor a temperatura, como se fosse um termostato cheio de graduações. Sem dizer que permite que você fiquei mais elegante em qualquer uma delas. Ou seja, acho que com o tempo você aprenderá e quem sabe até goste.

Palavras Vagabundas disse...

kkkkk, é um saco mesmo ficar toda empacotada, esse ano no filme enfrentei temperaturas abaixo de zero.
Agora o caso das cuecas é mesmo tenso ... "Eu de cuecas!!!Quem tu pensas que eu sou!" risos
bjs
Jussara

Rita disse...

Imagine que alegrias enormes que não são os primeiros dias morninhos de primavera?

Beijos, linda.

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