domingo, 23 de setembro de 2012

Diário de Bordo #07



Lisboa, à noite. Ou quase, porque é difícil para mim, que vim de um lugar onde às 18hs o sol decide sumir – e some – entender corporalmente que já são 20hs e ainda não precisamos, sequer, acender as lâmpadas. Ontem peguei a teima com a luz e resolvi só voltar pra casa quando estivesse escuro. 


Esperei no Chiado, que é onde me sinto mais à vontade, naqueles espaços onde se alternam largos e ruas estreitas, ambos plenos de cafés e restaurantes movimentados, barulhentos e absolutamente deliciosos.  O anoitecer é lento, como um lânguido strip tease, onde o que se faz que revela, mais se oculta, e é o que de mais desejável há. O azul vai do translúcido ao opaco e daí a um encorpado azul, quase negro, mas tudo tão devagar que hipnotiza. A sorte é que há música para quebrar o encanto vez ou outra, quando dei por mim tocavam Borbulhas de Amor. Ju-ro-pra-vo-cês. Borbulhas de Amor. Eu ri, como evitar? E pude dirigir-me ao metro.



Lisboa é uma cidade para ver-se em cima da terra. É bela demais, divertida demais, cativante demais para a percorrermos sem a sabermos. Mas. Nem sempre o que se quer é o que se deve, por enquanto estou desvendando o metro. E, aproveito pra ver as diferenças e particularidades das estações. Olaias, que é a “minha” estação atual, é bonita e artística. Em sua concepção e execução trabalharam não só arquitetos como artistas plásticos. Não é uma estação grande, não tem o burburinho e vivacidade do Cais de Sodré nem o aspecto de shopping com suas ofertas variadas que caracteriza a estação Alameda, mas é bonita e divertida, cheia de cor e luz.

Estação de Olaias, mas a foto não é minha, achei na Wikipedia

 Há, neste período, uma porção de (acho eu) turistas em Lisboa. Os indícios são fortes: máquinas penduradas no pescoço e mapas na mão. É saboroso ver as sonoridades misturando-se. Ontem, no metro, havia duas mocinhas muito loiras, de olhos tão azuis, pele clarinha, clarinha, falando e falando. Sentavam-se ao meu lado e eu fiquei tentando, por longos minutos, identificar que língua falavam. Já estava quase desistindo quando uma delas, repetindo uma frase pra amiga, praticamente repartiu as sílabas de cada palavra, len-ta-men-te e eu quase caio na gargalhada: elas falavam português! Esse português fixe, rápido, que termina as frases diminuindo o volume da fala, quase com fome das palavras. Ainda me acostumo, mas sei que não é tão já. A estranheza na escuta não inibe o deslumbre na leitura. Gosto muito de ler este português íntimo e estranho. Ando agarrada com vários livros que a casa da Teresa os tem fartos, mas o que mais me cativa e alterno uma leitura desenfreada e momentos de privação para que não acabe é: “Muito Lá de Casa” de João Bénard da Costa. O livro, só pelo título, já me teria refém. Mas é sobre cinema. Não só. É um tanto mais que isso, mas não é explicável, só lendo pra entender. E eu tenho gostado muito.

Por fim, nessa garrafinha, mais uma pequena descoberta: feijoada de gambas (camarões). Não comi ainda, mas acho que será hoje. Recebi apoio dos amigos e curiosidade não me falta.

9 comentários:

Caminhante disse...

Eu já leio os teus posts assim: métro. E gostaria muito de comer feijoada de gambas, finalmente uma feijoada que eu possa comer.

Danielle Martins disse...

Noite linda cantada nas tuas palavras que vai me levando pra pertinho de você... curiosa com a tal feijoada!

Tina Lopes disse...

Feijoada de gambas é bom demais, quando estive aí custava 5 euros um prato que dava pra 3.

Rita disse...

Sem tempo para zanzar pela net durante a semana, li os últimos cinco posts agora, de uma vez. Amei a sandália nova e vou descobrindo Lisboa com você. Quando eu for, será quase um dejà vu.

Beijos,
Rita

Das coisas que vejo e gosto. disse...

Oi flor!!

Lindas as imagens!

Beijos

Selma

Rafa disse...

O Novo - tão bom! E éssa feijoada deve ser com feijão branco, né? Bj

Lu Guedes disse...

Engraçado ler-te a falar de Lisboa. Gosto, mas não amo. Gosto e amo Coimbra onde vivi durante quatro anos. rs
Coimbra foi minha casa, meu país. O lugar que me deu uma língua nova. Mais agridoce. Rápida.
Engraçado ler-te a falar de teus caminhos. A ter o olhar fresco. Faz lembrar os dias primeiros aqui em Sampa. Eu era toda desacordo e ao voltar anos mais tarde, me vi assim. Os meus primeiros posts escritos aqui contam coisas estranhas. Uma sensação curiosa de estar perdida e ausente ao mesmo tempo. rs
Pronto, vou escrever eu um diário. rs

bacio

Palavras Vagabundas disse...

Sua prosa me faz sentir os cheiros e os gostos! Feijoada de camarão, hum...vai pimenta?
bjs
Jussara

Mari Biddle disse...

Eu olhando Lisboa pelo seus olhos. Mil beijos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...