quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Não é Sobre Taças. Ou é.



Acordei e, antes de mais um dia de maratonista, resolvi reler o lindo texto da linda Camila Pavanelli e fiquei pensando nas minhas maletuxas e no que mantemos com a impressão de que são coisas realmente importantes na nossa vida. Ou melhor, fiquei pensando no que eu mantenho com a impressão de que é realmente importante na minha vida. Obviamente não estou falando de pessoas. Tô falando daquele bibelô que fica em cima do rack – ou, talvez, do próprio rack – que a gente nem concebe ficar sem ele. Ao encaixotar minha vida mais uma vez, minhas certezas viraram muitas perguntas. Corta pra uma digressão:

Eu não sou uma pessoa desapegada, gente. Eu gosto de conforto. Gosto de tv por assinatura. Gosto de ventilador. Delivery. Gosto (acho que gostaria, se pudesse comprar) dos produtos do polishopping (sei lá o nome) que “facilitam sua vida” como a escada dobrável, um ralador multi-uso e nem sei mais quantas geringonças divertidas assim. Então, é isso: não sou desapegada. Voltando ao meu encaixotamento:

O que eu não pude vender (com preços hilários às vezes em que o comprador que tinha que dizer: “Lu, isso tá barato, não é esse preço” ou “Lu, assim tá mais caro que um novo”) eu dei. Ontem foi o dia de ver o povo ir embora levando prato, copo, panelas, lençóis, toalhas, usados ou nas caixas ainda. Sem falar dos mévies da cozinha, cama, guarda-roupa... tchau micro-ondas, foi legal te conhecer. Fiquei com um frigideira, uma panela, um prato, uma colher, um garfo, uma faca e uma xícara. Alguns outros itens maiores, como geladeira e fogão, irão embora dia 30 de agosto.

Encaixotei e não entrou na festança, ficou esperando minha volta: minhas taças (lógico que os livros e os dvds eu ainda estou procurando um jeito de manter todos, não cabem nos vários espaços que me ofereceram gentilmente pra abrigar alguma coisa que eu quisesse conservar. É livro pra caramba, gente). Aí acordei hoje pensando: sou uma mulher de taças. Queéqueéissogente? E eu nem tenho a desculpa de ser um lance emocional, já que minha memória de geléia não me permite lembrar quem me deu quais taças (porque, claro, todas elas foram presentes, eu sou uma mulherdetaças mas nunca fui uma mulher de comprar coisas. Eu ganho. Obrigada, mundo). Matutei, matutei e não consigo (me) saber... não é pelo valor, há coisas que dei bem mais caras pra adquirir na volta. Não é pela necessidade ou utilidade – copos fazem o mesmo papel. É porque são frágeis? Porque são belas? Porque são praticamente inúteis e eu antecipo que, na volta, sem dinheiro e aperriada, certamente não poderei ficar sem comprar prato e garfo por cima de pau e pedra, mas poderia ficar tempos e tempos sem comprar uma tacinha sequer? Não sei. Não (me) sei. Sei que caprichosa e amorosamente embrulhei cada uma para um demorado sono.


E mudo pro outro lado do mar levando roupas, sapatos, notebook, uma porção de medos, outra porção de sonhos. E afetos. Andam me perguntando do que eu acho que sentirei saudades nesses aninhos que passarei longe. Eu não sei. Quase sempre respondo: dos abraços. Hoje tem o Skype, o FB e tantas tecnologias que dão a impressão que o longe é logo ali. Conto com elas pra me manter no eixo. Tento imaginar como era passar tanto tempo longe quando não se podia acessar sons e imagens conhecidas tão rapidamente e imagino: angústias. O certo é que estou pronta. Sabe, na pontinha do pé pra se lançar? Sou eu. Um olho no gato, outro no peixe. “Medo de ir embora, vontade de não ficar, estrela de muitas pontas, que não se consegue olhar, lampejo, brilho cegante, uma dor dilacerante, lâmina em seda enrolada, coisa muito complicada...”

11 comentários:

Cecilia disse...

Lu, é engraçado como a gente tende a ficar sentimental com as partidas, mas toda mudança (d@ outr@) merece ser comemorada, pela novidade e pelas experiências que virão. Agora eu imagino que se desprender das coisas que são pedaços de memória é meio doloroso, sim. Boa sorte na sua mudança! Beijos

Das coisas que vejo e gosto. disse...


Que delícia de postagem!
Me vi nela várias vezes...e olha que nunca atravessei o oceano... mudei pra outro estado. Outros na verdade, porque devido o emprego do meu marido,isso é constante na minha vida.
Era assim...levava tudo. Temia não poder levar. Depois de tantas chegadas e partidas acostumei com o pouco, com as dificuldades dos prestadores de serviços locais, com novas pessoas, novos banheiros... Só a saudade da família que me mata. Essa vai com a gente e pesa demais na bagagem.
Beijos e boa sorte!
Selma.

Camila disse...

Lu, acabei de dizer lá no RRE que eu achava que os Fellini não eram as botas da Mary W. E (suspiro) lá vou eu dar uma de FISCAL DAS BOTAS DAZÔTRA de novo. Lendo seu lindo texto, e lembrando das coisas que eu mesma empacotei e deixei pra trás quando me mudei... Sei não. Fiquei com a sensação de que você fez muito bem em guardar suas taças (tão lindos os advérbios que você escolheu para descrever o ato de guardá-las - "caprichosa e amorosamente"), e não - nem a pau que elas são as suas botas. :-) Tá bom de palpite pra você? Beijos, querida.

Deborah Leão disse...

Curti demais esse post, e fiquei pensando no quanto As pessoas são parecidas. Olhaí o post que fiz quando estava preparando minhas coisas para vir de BH para o Rio:

http://arealidadeelouca.wordpress.com/2010/05/17/cada-coisa-em-seu-lugar/

Empacotando as coisas, acaba vindo o dilema da maletuxa: difícil não achar que somos definidas por elas. E de certa forma, somos, pelo menos definidas pela escolha de deixar as coisas se acumularem.

Mas aí vêm as horas das perdas de verdade, e fica claro que tralha nenhuma é capaz de nos definir. Se algo nos define, são os laços, os afetos, a nossa forma de amar.

bete disse...

Lu, vivi um processo meio parecido com o desmonte das casas, minha e da minha, mãe, a reforma e mudança, de novo, aí desenpacontando toda minah vida finalmente, depois de 7 anos ( agora escrevendo que notei que vivi outro período de 7 anos e tal, outra história). Tenho uma casa, um chão de novo.
Mas até abrir caixas, botar no lugar, escolher o que vai e o que fica ( muita coisa foi, viu? dei muita coisa) e depois do seu post e o do da Camila fiquei pensando nos meu apegos. no quanto revelam de mim para mim. Deixo alguns aqui - os copos, de vidro, que eram da minha avó, os quadros que eram da minha mãe, o relógio de parede da vovó, meus cds, dvds e livros. e também... as taças que ganhei quando casei ( tamo junta) e o aparelhos de jantar da minah mãe e da vovó. acho que já é tranqueira demais pra uma vida... pq daqui nada se leva

Tina Lopes disse...

Não pensei que você fosse se desfazer de tudo, afinal, são dois anos ou tô enganada? Mas enfim. Taças, fia, olha a mensagem subliminar ÓBVIA! É pra brindar, ué! Tá certa, mantenha as taças sempre!

DanDi disse...

certamente as taças ficam porque a vida precisa ser brindada e, quando voltar, serão muitos os sons tintilantes delas, junto aos abraços tão caros que ficaram por aqui guardados.

=*

Mulher Vã disse...

Pouca gente [se existe alguma] não tem medo de mudanças.
Mas a vida é feita disso: fazer e desfazer caixas. E no caminho é inevitável deixar pedaços de nós...



Palavras Vagabundas disse...

Lu, desde que soube de sua ida para Lisboa, me peguei pensando o que faria com minha coisas se algo assim me acontecesse. Me desapego fácil das coisas, mas das lembranças... enfim, guarde as taças!
Tenho certeza que outras taças virão fazer companhia para as que ficam.
bjs
Jussara

Rita disse...

Esse post apertou meu coração e tô morrendo de saudade de você.

Mimimi

Mari Biddle disse...

O Skype e' que me salva da saudade.

Minha tia, na volta para o BR, enviou quase tudo por navio. Nao consegue se desapegar. Eu fui pratica - trouxe pequenos presentes que ganhei - todos que nao pudessem se quebrar na viagem. Trouxe os livros. Para mim e para meu filho. Para ele nao esquecer nunca de onde ele veio. Letras que ele nem pode ler ainda, mas fiz questao de trazer comigo.

Te vejo no Skype, amora!!

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