domingo, 26 de agosto de 2012

Geografia, História e Duas Doses de Vodka


 Disse a CamilaTendemos a privilegiar um aspecto ou outro da nossa biografia de acordo com a conveniência do momento. Gostar de Tom Jobim é um dado biográfico muito mais condizente com minha personalidade de hoje do que a posse de uma maletuxa. Mas, se eu for honesta comigo mesma, terei de reconhecer que Tom Jobim não era mais significativo para mim, na época, do que minha maletuxa, que estava sempre recheada de maquiagens, lantejoulas, brilhinhos, adesivos de letrinhas e lápis de cor.


E fiquei eu matutando um tempão, bem no estilo coisa-de- grego-de-vestido-longo: quem somos? Porque somos? Quando somos? E todas as variações que vocês conhecem. Como tenho meu xodó pela Teoria Crítica, já deu pra sacar que as quatro ou cinco perguntinhas “simples” foram tornando-se um turbilhão no juízo. Somos quem somos mesmo (existe isso?), somos o que nos tornamos (geografia + história+ duas doses de vodka, sacode bem, etc.) ou somos quem dizemos que somos se nos esforçamos pra cumprir o dito, fazendo, da narrativa, profecia?

Não esperem resposta. Eu tenho pouquíssimas e as que tenho uso pouco. Mas me inclino para as historinhas. Como as que conto nas madrugadas sem sono, me acalentando baixinho: passados e futuros inventados, especialmente quando aconteceu tudinho. Agarro um guarda-chuva imaginário e colorido e posso ser minha própria Mary Poppins. Posso ser. O que digo, sou. Corro pra ser aquela Luciana construída em mosaico de influências e desejos. E aí me lembro das maçãs do Manuel (lembro porque o mundo é uma bila e esbarrei na Fal do Drops lá no meu cantinho triste). As maçãs dele, suculentas, foram essas (morda aqui). E as minhas vieram assim (já estavam neste galho aqui, mas trago-as para cá):

Continuo eu, para usar as palavras do post que deflagra este, impolida e mal areada. Mas houve um tempo de mais ainda. Convidada a pensar sobre o tempo em que eu nem sabia que gostava de coisas finíssimas - e outras nem tanto, mas continuo a apreciá-las - diverti-me recordando, muito mais do que se divertirão os que lerem a lista, estou bem certa. Não é uma lista de incontestáveis, é uma lista das belezas que me afetam a respiração e incendeiam a alma.

Havia regras, é preciso dizer. Só seriam o fruto, "coisas (livros, pintura, música, ideias, and so on) de valor intelectual que descobrimos sem ser pela voz do Mestre!". E, também, "só se aceitam descobertas feitas até os 18 anos de idade. Depois, virgindade perdida, já não conta".

As maçãs que lá estavam:

1) Eu era rueira, pega-pega, joão-atrepa, carimba. Mas tinha hora certa de sair e entrar. Assim, sobrava-me tempo dentro de casa, entre as coisas que os pais tinham sem tempo de apreciar. Desta maneira, chegou-me Nara Leão, com seus joelhos bem-afamados e sua voz mansa e forte a cantar "Opinião", mas principalmente, "A estrada e o violeiro", dando-me logo vontade de partir, viajar, andarilha eu me descobri foi ali.

2) Eram muitos vinis, quase todos de músicos brasileiros por quem até hoje tenho bem-querer. Mas havia uma coleção que não era nunca manuseada por pai e mãe. Havia sido um presente, na época era uma lembrança apenas. Mas eu, menina, gostava. Era uma coleção de vinis de Ópera com respectivos libretos. Era isso que eu amava e lia dia após dia: as histórias. As histórias de morte, porque - como já me perguntei uma vez - porque fica tudo mais dolorosamente bonito quando se morre no final? Até que um dia. Um dia eu ouvi Maria Callas. Rasgou-me por dentro de forma tal que até hoje não houve jeito de remendar, nem com amores, e eu bem tentei.

3) Depois, secundarista, sabia que devia estudar e preparar-me pro vestibular. Passava a noite em claro, no último aposento da casa, pensando em fazer isso. Pensava, juro que sim. Mas que culpa posso ter, se havia a Sessão de Gala e depois os Corujões com filmes que me escravizavam os olhos? Talvez seja essa a maçãzada mais severa, os filmes. De três tipos até hoje sou escrava... os musicais: meu coração saltita junto com os pés de Astaire e passarei a vida ansiando por aquele charme e graça - eu que tenho dois ou três pés esquerdos; os westerns - com John Wayne e sua noblesse oblige tão disfarçada de dureza e ardor; os italianos - Antonioni, Fellini, Sergio Leone, Pasolini, Rossellini, Scola, De Sica, Visconti e, já mais agora, Tornatore. Eu nada sabia do neorealismo ou do cinema de autor, não sabia que cinema é luz, quando as lágrimas acompanhavam os ladrões de bicicleta ou o dia especial de Marcello e Sophia Loren ou quando eu morria junto com Dirk ou desenvolvendo minha afamada fixação pela Fontana di Trevi. Não sabia de nada e de tudo fiquei a querer saber por aqueles Pretos e Brancos que alguns chamavam filmes.

4) Entre os livros que moravam na prateleira alta, logo descobri: A Carne - que há muito não escandaliza mas ainda tinha vigor quando o li; O Castelo de Kafka - não informada sobre a dificuldade de lê-lo, na época não encontrei nenhuma; e o meu xodó: Machado de Assis e suas Memórias Póstumas. Depois deste devorei tudo que dele encontrei de romances a críticas de teatro de peças que, claro, não assisti, apenas para encontrar sua prosa seca e devastadora.

5) Também antes dos 18 assumi o prazer da nordestinidade e já me esbaldava com os cantadores de viola, com os cordéis luxuriantes, com o chamego do forró do Luiz Gonzaga...sem que ninguém me dissesse eu me sabia cigana de enraizada alma sertaneja, uma combinação improvável e contraditória.

6) As idéias de Ortega y Gasset me atropelaram e ajudaram a montar meu esquema mental egoísmo-hedonismo-redenção- pouca culpa. Com ele aprendi que civilização é, antes de mais nada, vontade de convivência (eu já tinha aprendido com Lampedusa que é preciso que tudo mude pra que tudo permaneça o mesmo). Deixei Ortega, há tempos, mas há de ter uma ou outra ideiazinha espreitando atrás da cortina.

Foram muitas as maçãs, não há cesto que as caiba, mas o que me abalroou, mesmo, na juventude, foi um certo gosto pela decadência, uma inclinação pelos tempos idos, certa impaciência com a falta de savoir-faire, devotado amor pela infelicidade literária e um grande prazer no que me dá prazer.

(relendo essa lista, logo me vieram muitas outras maçãs, tantas e tantas que vão me pedindo outro post, talvez).

3 comentários:

Renata Lins disse...

Eita que isso de maçãs e maletuxas e pedaços de lembranças vai virar meme e eu vou já já fazer o meu... :)

Palavras Vagabundas disse...

Gostei das maçãs. Virada na vida sempre faz a gente mexer na cesta das nossas maçãs para não esquecer quem somos e abrir espaços para as novas.
bjs
Jussara

Das coisas que vejo e gosto. disse...

Como é maravilhoso fazer uma leitura que te leva láááá no passado e te faz rir de saudade!!


Lindo post!!


Beijos
Selma

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