segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Foi Bom Pra Você?

Psicanálise é assim: solene. #Sóquenão


Geralmente quando eu digo algo como, “ah, é essa minha estrutura histérica brincando de ter um sintoma perverso”, as pessoas tendem a me olhar estranho. Ok, eu sou estranha, não é essa a questão. A questão são as questões que advém de conversas assim e que me deu vontade de tratar neste post.

Eu queria, uma vezinha na vida, fazer uma declaração peremptória: a psicanálise não é pra fazer juízo de valor. É isso, não tem avaliação moral em dizer: estrutura histérica, estrutura perversa, estrutura psicótica. Nem explicitamente (não existe uma escala de doidice, tipo: de neurótico a psicótico, por exemplo), nem implicitamente (a estrutura é o que somos – tipo Flaubert: eu sou Madame Bovary – e ninguém se cura de si mesmo). É assim: estrutura a ou b não é julgamento nem diagnóstico.

E o que é esse lance de estrutura então? Tentando ser simples, a estrutura é a forma como cada um sustenta seu discurso, o modo como se lida com a falta que organiza nossa subjetividade, é a operação de defesa ante o gozo do Outro. A estrutura é um indício de onde nos colocamos na relação com o desejo, com as ausências, com o objeto de amor.

A psicanálise não deveria servir para rotular, para excluir ou para classificar. Não deveria servir para subsidiar um discurso intolerante nem dar suporte à ideia de manifestações subjetivas como doença. Os conceitos psicanalíticos não são ofensas. Não são etiquetas. Não são senhas de entrada em qualquer festa – pobre ou não.

E pra que serve a psicanálise, afinal, se não é possível curarmo-nos de nós mesmos ou deixar de ser quem somos e nem mesmo serve para conhecermos completamente quem somos e o que desejamos? Diria eu: para sermos um tantinho mais adultos. Diria assim: para atravessar a rocha da castração. Hein? Pra reconhecer que somos incompletos e nos havermos com isso. Para transmudarmos nossas dívidas amorosas infantis em responsabilidade. Para transformar o sofrimento em infelicidade banal. Serve pra dizer: morte, amor, gozo, entrega, defesa, eu, você, os outros, diferença, sem peso e sem medida.

A psicanálise é, quando muito, pra gente usar chapéu na chuva, blusa de bolinha com calça de estampa de tigre, rir alto, dizer por favor, aprender a dizer "quando meu pai (mãe, marido, etc) morrer" e não "se meu pai (complete aqui com quem quer que seja) morrer".

A psicanálise serve pra não servir, pra não ser útil, pra nos lembrar que a vida é mais do que o que fazemos dela e nela, é também o que resta, o que escapa do dito, o riso solto, a dor aguda, o que sobra. A psicanálise serve pra escrever um post assim, sem pé nem cabeça, quando se queria dizer tantas outras coisas que não querem ser ouvidas.


7 comentários:

Renata Lins disse...

Muito bom o post pra dizer coisas que não querem ser ouvidas... e adorei vc falando de psicanálise, faça mais vezes! =)

Liliane Gusmao disse...

Eu acho que escutei sem querer. Amei!
Mais please!

Cris disse...

Melhor explicação sobre psicanálise para leigos que já li. Bj

Maycon disse...

(Geralmente quando eu digo algo como, “ah, é essa minha estrutura histérica brincando de ter um sintoma perverso”, as pessoas tendem a me olhar estranho") Comecei a gargalhar nessa parte. Jesus Cristo Gay, é muita identificação. Será que é mal de psicólogo? Gostei do texto. É leve, sem ser superficial. Muito gostoso como você escreve sobre psicanálise. concordo com a Rê: escreva mais vezes!

Rita disse...

Tão bom quando você escreve sobre psicanálise. Uma sessão no blog para esses posts, eu voto.

E, sim, foi ótimo.

bj
rita

Camila disse...

Lu, só não te acho exageradamente otimista porque vc usou o futuro do pretérito num momento chave do texto: "A psicanálise não deveria servir para rotular, para excluir ou para classificar." Claro, claro - não deveria, mas acaba que a psicanálise, pobrezinha dela, só existe encarnada nesses seres tão imperfeitos que somos nós (e os outros), os psicanalistas - e estes, ah, estes julgam e torcem o nariz, e como. Quantas vezes eu não ouvi (e não me peguei dizendo) coisas como "fulana é histérica" ou "fulano tem uma escolha de objeto homossexual" - mas de forma a soar basicamente como... Xingamento, sabe. Como um jeito de desconsiderar ou menosprezar aquilo que, no outro, não entendo muito bem.

Ocorre também que, como os psicanalistas não costumam ser menos imperfeitos do que, digamos, terapeutas comportamentais ou mesmo seres humanos em geral, esse é um risco que todo mundo corre, qualquer que seja a profissão e o momento. O risco de fazer HUMPF em vez de parar e ouvir. Enfim, o risco de ser besta.

Aos psicanalistas, resta o esforço contínuo e interminável de fazer com que os conceitos ajudem a mobilizar o pensamento (= ajudem a ouvir), em vez de se tornarem desculpas para justificar nossa pouca habilidade e disponibilidade em ouvir quem demanda nossa escuta. Beijo grande e escreva mais vezes sobre psicanálise!

Juliana disse...

eu gosto um bocado desse seu texto, tanto que enviei pras amigas psicólogas e pros amigos que deitam no divã.

sempre tentei achar um jeito de explicar pras pessoas que me perguntavam como é fazer terapia; você deu a definição que mais faz sentido pra mim: a psicanálise é pra sermos um tantinho mais adultos.

a terapia me ajudou a ser mais adulta, mais leve e a ter prazer de ser eu mesma -seja lá o que ser eu mesma signifique,né?

Nos últimos tempos, andei meio balançada e reler o texto me fez lembrar dessa coisa boa que é ser mais adulto, ter um tantinho mais de consciência.

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