sábado, 7 de julho de 2012

Call Me Moby Dick

 "Me chame de Ismael e eu não atenderei. 
Meu nome é Estevão, ou coisa parecida.
Como todos os homens, sou oitenta por cento água salgada, 
mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica.
Como a própria baleia, 
vivo de pequenos peixes da superfície, 
que pouco significam mas alimentam."
(Verissimo)



Foram livros demais. Muito do que penso, sinto, digo está impregnado do que percorri em páginas. Nem sempre foi boa literatura. Mas, ah, que importa, eu li Moby Dick. Foi a Rita que me fez lembrar. Por causa da Fal. Pois foi, eu li. Quem leu, sabe. Sim, é um mistério, como aqueles órficos, talvez. Um mergulho. Muita gente diz que é uma das mais extraordinárias metáforas da condição humana. E é. Mas não é só isso, ou não é principalmente isso. É um livro divertido. Delicioso de ler, com um personagem (ou melhor dizendo, com personagens) que tem tantas dimensões quanto qualquer pessoa instigante que você conhece. Normalmente eu não me aflijo de ler traduções. Gosto do sabor da língua portuguesa e sou tranquila com minhas limitações. Mas Moby Dick é um daqueles livros que me fazem pensar o que posso estar perdendo. Porque se o ritmo, os diálogos, as descrições já são ricos, rigorosos e sensíveis, que dirá na língua original. Paciência. Não se perde na tradução a sensação de que o capitão já perdeu desde sempre a batalha que o move. Mesmo que. Não se perde a luta entre o absurdo e a tentativa sistemática de colocar ordem no mundo e o que isso nos acarreta. Não se perde o desespero. Não se perde a angústia de Ismael, lançado à própria sorte. Não se perdem as referências bíblicas – embora não determinantes para o deleite com a história. Não se perde o sentido de autodestruição. Não se perde a plena noção, a cada página lida, que aquela é uma experiência especial. Não se perde o sabor de atravessar mares, viajar e viajar, ficar á deriva e, enfim, respirar, outra e a mesma, depois de tudo na memória. 

Moby Dick é um dos livros que releio. Evito dizer que reli, ele ainda está em mim e, qualquer hora dessas, esbarramos de novo. Há uma série de livros que não canso de ter nas mãos, nos olhos, na pele. Tem gente que diz que a vida é muito curta pra reler. Pode ser, mas a lógica não me parece acertada. Se assim fosse, eu não ouviria vezes e vezes Bethania cantando "tantas vezes eu soltei foguete...". Ou não iria de novo aquele lugarzinho ótimo com um belo sushi. Ou, claro, não perderia tempo dormindo noites e noites com o mesmo cara...afinal, não há tantos por aí? Claro, cada dia que durmo, transo ou simplesmente fico de mãos dadas com o tal cara, ele e eu somos outros. Né? Pois eu e os livros, também. Eu não tenho fome do novo? Tenho. Mas tenho cá pra mim que o novo muitas vezes está no olho. 

“Por fora, somos vagabundos. 
Por dentro, bibliotecas”




Mas, eu dizia, Moby Dick é grande. Daqueles livros que trazem o desassossego e a beleza tanto no que dizem como nas entrelinhas. Há alguns assim. Pelo menos pra mim. Pensando nisso, lembrei de Fahrenheit 451 e na dificuldade que eu teria de escolher meu livro. Pra quem não viu (ou não lembra) Truffaut filmou uma versão do livro de Ray Bradbury, uma distopia onde os livros são incendiados porque, olha só, são perigosos. Mas como não há mal que sempre dure (pausas para o riso) o protagonista - e também nós - somos apresentados aos subversivos: pessoas que decoram um livro inteiro. Eles, juntos, são uma biblioteca. Eu amo esse filme. Tem quem não goste, é Truffaut fora da "zona de conforto". Eu amo. Considero um dos Top 5 da ficção científica. Acho inesquecível e extremamente sagaz (eu e mais uns trocentos críticos mais sabidos que eu) que os créditos não sejam apresentados na tela, mas ouvidos pelos espectadores. Mas nem era isso que eu ia dizer. É que eu nunca consegui decidir que livro eu aprenderia. Que livro eu consideraria indispensável guardar em mim para que não se perdesse. 


Ainda não sei. E você, que livro você acha que não pode ser esquecido e, pra isso, o decoraria e passaria a "ser" ele?


24 comentários:

Tina Lopes disse...

Mas essa escolha é difícil demais! Bem, pra começar eu jamais decoraria livro algum, nunca fui de decorar, mesmo porque adoro reler e voltar a me surpreender. Hoje, talvez só hoje, amanhã não sei e ontem definitivamente não, meu livro indispensável seria algum do velho Graça, Memórias do Cárcere, quem sabe.

Deh disse...

Mas que pergunta difícil. Sou total poliamorista com livro e nunca posso escolher um só. O Tempo e o Vento, talvez, porque deve ter sido o que mais reli na vida. Ou o próprio Fahrenheit 451, que acho primoroso, forte (as mina pira na metalinguagem). O mundo assombrado pelos demônios do Carl Sagan ou então o Reparação, do Ian McEwan. Ou um dos livros do Remarque, pela memória afetiva das leituras que eu dividia com a minha mãe na adolescência (não deixa de ser um critério, certo?). Num sei. Que indecisão...pergunta sensacional, sua linda! <3

Gilson Junior disse...

Um livro que não poderia ser esquecido? "O Tempo e o Vento" a obra toda, se fosse pra escolher um volume eu escolheria o Arquipélago, o menos enorme de todos. Eu que de gaúcho não tenho nem o couro da sandália, me encontrei na mistura estranha que Rodrigo deixou nas veias dos Terra Cambará, talvez me tenha enxergado no Floriano aquele que muito lê, muito vê e muito descreve e talvez seja menos impetuoso e mais escritor.

Turmalina disse...

Minha memória me faz "rever" trechos de livros como se fossem filmes.
Alguns em P&B como O Morro dos ventos uivantes e David Copperfield.
Em azul vem o Veleiro de Cristal do Lins de Vasconcelos e o Homem e o mar do Hemingway, assim como são amarelos Os Lírios do Campo de Veríssimo.Já as Cidades e as Serras , de Eça, são da cor lilás.Já o Mau tempo no Canal, do Nemésio é ocre.
Existem ainda os coloridos e aqueles quase sem cor.
É fato que eu guardo mais imagens do que palavras, mas as que me iniciaram nas viagens foram estas:
"As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;"

Kristhianne disse...

Tenho até medo, assim como a Tina não curto decorar!Mas se um dia dependesse de mim salvar para o mundo um único livro, esse livro seria o
Grande Sertão: Veredas

Juliana disse...

Li Moby Dick quando menina, numa daquelas versões adaptadas pro público juvenil. Tá valendo? Li versões da Divina Comédia, D. Quixote, Os Lusíadas. E eu achava que aqueles eram os livros "de verdade", então falava pras pessoas que tinha lido D. Quixote e não entendia o espato provocado. =)

Pô, essa é a perguntinha? putz! Olha, eu seria inútil pra essa tarefa. Não decoro nem A Canção do Exílio; seria incapaz de guardar um livro na memória. Mas tem de escolher, eu ficaria com A Vida antes do Homem, da margaret atwood. O livro que mais reli durante um período da vida, que tem uma personagem que era tão real pra mim que penso nela como uma amiga,a Lesje.

Pode escolher um livro reserva? Ano da Morte de Ricardo Reis, do José Saramago.

Ah, e só pra garantir, tudinho que o Camões escreveu.

Deh disse...

Gilson, meu amor é pra O Continente e O Retrato, acima de tudo. :)

Caminhante disse...

Orlando, Virginia Woolf.

Ana disse...

Eu praticamente já decorei os meus livros favoritos. Uma das brincadeiras preferidas da minha filha mais velha é pegar um dos meus livros favoritos e ler uma parte qualquer para que eu complete o parágrafo. Hoje a memória não está tão boa, mas eu adoraria memorizar Um Certo Capitão Rodrigo, Orgulho e Preconceito ou O Chefão. Como vocês perceberam, sou quase uma metamorfose ambulante! :-)

Palavras Vagabundas disse...

Lu teria enorme dificuldade de escolher um para decorar, nem gosto de pensar nisso!
Eu leio, releio e releio novamente se é perda de tempo porque há muita coisa nova por aí, bem... não tô nem aí!
“Por fora, somos vagabundos.
Por dentro, bibliotecas” (2)
bjs
Jussara

Rita disse...

A resposta mudaria a cada semana, provavelmente. Agora, hesito entre Mrs Dalloway <3 <3 <3 e Os Irmãos Karamazov.


Bj
Rita

bete disse...

nunca li Moby Dick, mas vi uma peça simplesmente MARAVILHOSA com o texto aqui em Brasília, um grupo pequeno, Celeiro das Antas, com um amigo da família, Zé Regino, que é um artista fantástico. me acabei de chorar, foi emocionante.

quanto aos livros da minha vida, impossível ter um só, e vão se chegando mais, acad um em um momento se torna mais especial e vou relendo, marcando passagens. e vc, coincidentemente citou a Fal, esa mulher linda. A atual paixão é último livro dela - Sonhei que a Neve fervia- li umas 3 vezes seguidas nos últimos dias e está todo rasurado.
mas amo Jane Austen, Cem anos de solidão, aliás, amo o Garcia Márquez, a Casa dos Espíritos, Dom Quixote ( meu pai que me deu) e.. José de Alencar! ( acho que só eu gosto desse rs), sei lá.. foram tantos livros que foram me mudando ao longo da vida.. bjs, e saudades, minha musa linda

Ricardo Chicuta. disse...

Esse foi o melhor texto que li em blog esse ano.

Menina no Sotão disse...

Vou ter que te plagiar. Já vou logo avisando pra depois não reclamar ou ir lá deixar comentários furiosos. Imagina alguém rindo alto aqui.
Eu tenho vários livros que leio e leio e leio e depois leio de novo. Você sabe. No momento estou ré-lendo "viagens no scriptorium" de Paul Auster. Não e o melhor dele, mas amo esse livro. Gosto da ausência que há no personagem em gosto da forma como ele não se desespera diante do não lembrar.
Enfim, mas tem Orgulho e Preconceito" - "Crime e Castigo" - esse ultimo e um delírio, eu sempre leio na esperança de que o insano entenda que não e possível existir da maneira que ele imagina. Insano eu sei...


Vou fazer o post ainda hoje. rs
E claro que eu vou dizer lá que a culpa e toda sua porque e, lógico...


Bacio

Menina no Sotão disse...

Vou ter que te plagiar. Já vou logo avisando pra depois não reclamar ou ir lá deixar comentários furiosos. Imagina alguém rindo alto aqui.
Eu tenho vários livros que leio e leio e leio e depois leio de novo. Você sabe. No momento estou ré-lendo "viagens no scriptorium" de Paul Auster. Não e o melhor dele, mas amo esse livro. Gosto da ausência que há no personagem em gosto da forma como ele não se desespera diante do não lembrar.
Enfim, mas tem Orgulho e Preconceito" - "Crime e Castigo" - esse ultimo e um delírio, eu sempre leio na esperança de que o insano entenda que não e possível existir da maneira que ele imagina. Insano eu sei...


Vou fazer o post ainda hoje. rs
E claro que eu vou dizer lá que a culpa e toda sua porque e, lógico...


Bacio

Menina no Sotão disse...

Vou ter que te plagiar. Já vou logo avisando pra depois não reclamar ou ir lá deixar comentários furiosos. Imagina alguém rindo alto aqui.
Eu tenho vários livros que leio e leio e leio e depois leio de novo. Você sabe. No momento estou ré-lendo "viagens no scriptorium" de Paul Auster. Não e o melhor dele, mas amo esse livro. Gosto da ausência que há no personagem em gosto da forma como ele não se desespera diante do não lembrar.
Enfim, mas tem Orgulho e Preconceito" - "Crime e Castigo" - esse ultimo e um delírio, eu sempre leio na esperança de que o insano entenda que não e possível existir da maneira que ele imagina. Insano eu sei...


Vou fazer o post ainda hoje. rs
E claro que eu vou dizer lá que a culpa e toda sua porque e, lógico...


Bacio

Renata Lins disse...

Acho que são os da infância. Os do começo. Cazuza, de Viriato Correia. Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcellos. A Bolsa Amarela, tão delícia e cheia de sonhos. E, como não podia deixar de ser, os "meus" Lobato (que eu sei quase de cor): Reinações, Viagem ao Céu, o Saci, e a série de mitologia: O Minotauro e os três volumes dos Doze Trabalhos de Hércules. Se você me perguntasse, hoje e agora, o que eu levaria para uma ilha deserta, seria esse: Os Doze Trabalhos contados pelo Monteiro Lobato. Pra você ver o tamanho do buraco com as infos recentes, e o por que de eu ainda não ter escrito sobre isso. Mas vou.

Daniel Nascimento disse...

Há tempos um texto sobre livros não cai como uma luva sobre o momento que passo.

Li Moby Dick há 22 anos. E não o li novamente. Ainda. Mas ele também vive em mim. E tenho um exemplar em inglês e outro belo, tipo Cosacnaif, em português. Aguardando. Porque assim como a nau de Ahab eu vou. E volto. É realmente uma história sensacional. A vida é uma história sensacional.

Sobre livros que vivem em nós, mesmo que meio calados, o que primeiro lembro é "O Pequeno Princípe". Nunca entendi a zoação que fazem às misses por citá-lo. É tão profundo. Talvez porque quem faça troça não tenha tal profundidade. "Os Meninos da Rua Paulo", de Ferenc Molnár é outro. Me ensinou sobre o universo dos meninos que querem virar homens. Cis, claro. Mas, se pegas a palavra "Homem" e a aplica ao conceito de "Ser humano", não duvido que possa ser ultragênero.

E por fim, Rosa. Seu Sertão e Veredas. Tão grandioso. Agora escrevendo, tive uma boa ideia para um trabalho: comparar Riobaldo e Ismael, as veredas e o mar, Rosa e Melville. Talvez um dia ;)

Lindo texto, borboleta.

Renata Lins disse...

Ai, Daniel. Assim você me mata. "Os meninos da rua Paulo". Ai. Ali começou uma paixão da vida pelo Paulo Rónai. Sei,ele não escreveu. Mas traduziu, abriu as suas portas pra mim que não falo húngaro nem nada. Paulo Rónai. Que escreveu outro que amo: "De como eu aprendi o português e outras aventuras". Uma coletânea desse húngaro que aprendeu português como língua estrangeira, já na universidade, e que depois virou professor de português aqui na ex-"Ilha de Vera Cruz". Dá preu levar esse também?

Daniel Nascimento disse...

Claro que dá Renata. Na jornada de nossa vida, nossa alma é a bagagem mas sem limite de peso ou volume (tô começando a ficar cafona, rs).

Já que aqui voltei, cito "O Velho e o Mar". Santiago... que cara!

Renata Lins disse...

Ah, esse conheço bem. Li numa "sentada" só. Na casa de amigos dos meus pais. Lindo Hemingway. Santiago é dos meus.

Fal disse...

eu falo, eu falo.

Deborah Leão disse...

Meu livro de paixão, que começou a me encantar aos 8, 9 anos, e me encanta até hoje depois de infinitas releituras, é O Velho e o Mar. Sempre me faz chorar. Sempre me emociona.

A metáfora do mar é muito poderosa.

ludelfuego disse...

Pequeno Príncipe que é facinho de decorar. E pq sou facinha tb

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