quinta-feira, 24 de maio de 2012

Uma Visita Indignada

E o Borboletas fica rubro de alegria de ter duas visitas assim, encostadinhas uma na outra. Visitas queridas, inteligentes, sensíveis, tocantes. Hoje, vamos na indignação e no sentimento da Cris Rangel. Cris é um destes presentes que a net me trouxe, feito mensagem em garrafa que aparece na nossa praia. Tem tantos segredos e promessas como revelações e presença. A garrafinha chega, despretensiosa, e muda nosso jeito de ver o mar. Sabemos que ali, bem ali, num recanto surpreendente, há alguém que nos tocou. Isso faz o mar ficar mais belo. Faz a vida ficar mais complexa e interessante. Foi assim, é assim a Cris na minha vida. Não sei tudo, mas gosto de tudo que sei.


Mulher, by Cris Rangel

Nasci mulher. Não sei se por algum capricho do destino ou o que, mas o que importa hoje é que nasci mulher e mais que isso, me fiz mulher, aprendi a ser mulher.

Quando digo que aprendi a ser não é porque ser mulher seja uma tarefa, mas é porque para realmente ser mulher é preciso ter muita coragem, e coragem a gente vai aprendendo a ter aos poucos, dando um passo a cada dia.

É a coragem de se voltar contra as normas machistas da sociedade, é a coragem de não acatar às determinações familiares fazer tudo de um jeito diferente, o meu jeito, meu jeito de mulher.

Eu sou mulher hoje, mas percebo que o mundo não está preparado para mim, para a mulher que me tornei.

Um mundo em que há pessoas que avaliam de maneira maldosa uma conversa entre a mulher (eu, no caso) e um homem, não é o mundo que eu quero para mim. Um mundo onde virar-se repentinamente de costas para um homem é visto como se fosse obscenidade, um mundo onde a mulher não pode encostar, nem mesmo sem querer, a mão na perna do homem enquanto conversa com ele, não é o meu mundo, não pode ser.

E tudo isso ainda acontece, como se a mulher fosse apenas uma propriedade, um pedaço de alguma coisa que pertence a alguém, a um namorado, noivo, marido.

Eu pertenço apenas a mim mesma. Eu faço com o meu corpo aquilo que bem entender, porque meu corpo sou eu e ele é mulher.

Essas coisas acontecem porque nesse mundo em que me tornei mulher o homem ainda acha que a mulher precisa manter uma certa ‘postura’. Onde já se viu mulher conversar alegremente com um outro homem que não seja o dela? Onde já se viu mulher gargalhar em alto e bom som numa festa?

Mulher tem que se manter respeitosa, tem que se manter na linha, porque, acreditem, foi o que eu ouvi, ‘os homens se aproximam das mulheres sempre com a intenção sexual, não existe outra razão’. Ouvi isso do homem que amo e que se sentiu tão ofendido com ações minhas absolutamente despidas de qualquer intenção maliciosa. Ouvi isso do homem que amo sim, mas ele se provou um tremendo machista, mostrou para mim uma faceta possessiva que não sabia que ele tinha. E eu? Eu me sinto um pedaço de carne no açougue, um objeto desejado e não a mulher inteligente, elegante e capaz que sei que sou.

Este é o mundo em que eu vivo, mas não é o mundo que eu quero. Um mundo em que existe qualquer tipo de baixaria relacionada ao comportamento feminino, e surtos masculinos de todo o tipo por coisas que só existiram na cabeça do homem, não pode ser o meu mundo, não pode ser o mundo que eu quero para a minha filha.

Respeito. Esta é a palavra chave de todo este post. Respeito. Não agi de forma consciente a desrespeitar o homem que amo, mas fui profundamente desrespeitada por ele.

Fica a pergunta: como amar depois de tudo isso? Como ter uma vida e uma relação depois de tanto desrespeito? Por que a gente aceita as facetas mais absurdas das pessoas que amamos? Ou pior, porque amamos e as pessoas revelam características que nós sabemos que não podemos aceitar?

Ainda não sei. O sentimento dói das maneiras mais estranhas e menos prováveis até então. Mas um aprendizado ficou, o de que ainda não aprendi a melhorar e aumentar a minha auto-estima. A vida toda sofri com auto-estima baixa e agora parece que colho os frutos. Depois de aprender a ser mulher este deve ser o aprendizado de todas nós, auto-estima feminina, como mulheres que somos.

E todas estas palavras foram para dar corpo ao que sinto hoje, ao desapontamento e à tristeza, para poder olhar para tudo isso, tornar palpável e repensar a vida. A única certeza é a de que sempre serei mulher, e uma mulher cada vez melhor.

Um comentário:

Cristiane Rangel disse...

Querida, obrigada por publicar.
Mas principalmente obrigada por vc existir!
Amo-te